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Boletim Letras 360º #369

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DO EDITOR 1. Durante a semana confirmamos outros dois nomes que integram agora o grupo de colaboradores do Letras in.verso e re.verso: Felipe de Moraes, selecionado da última chamada realizada em janeiro de 2020; e Antonio Alves, autor que se propôs a escrever esporadicamente para o blog textos de matriz crítico-reflexiva entre a filosofia e a literatura sobre temas variados. 2. O gesto de Antonio Alves pode ser o de todo leitor do Letras interessado em colaborar com este projeto. A participação no blog, volto a lembrar, é aberta aquele que guarde bons textos e queira compartilhar com novos leitores. Para saber como enviar seu trabalho basta visitar aqui; encontrará todas as informações e normas para adequação dos textos. 3. Este Boletim, notarão, está recheado de notícias sobre novos livros. Trata-se de um volume simplesmente maravilhoso de boas novidades numa semana atípica para as editoras. Afinal, algo de bom deve se notar entre tantas circunstâncias negativas e agr...

A sociedade do espetáculo e a origem do Big Brother

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  Por Antonio Alves Ilustração: Suzanne Dias Não é de hoje que o ser humano adora espiar as mazelas de seus semelhantes. Poucos séculos atrás, condenar um criminoso em praça pública ou em portas de igrejas, não era só um modo de exercer a justiça, mas também um espetáculo e tanto. Execuções públicas vultavam multidões para rirem e escracharem de criminosos. Os modos eram bastante diversos: empalhamento, garrote, gaiola de ratos, desmembramentos utilizando-se de cordas e cavalos, ou até mesmo modos mais rápidos como a abertura do ventre para que o condenado pudesse ver suas entranhas espalhadas no chão em seus segundos finais. Foi só por volta de 1790 que a guilhotina surgiu na França como uma excelente tecnologia para tornar o trabalho dos carrascos mais prático, no entanto, os aplausos continuaram de um jeito ou de outro, e é fato: sempre tivemos muito apresso por ver cabeças rolando.   Outro exemplo muito latente o qual não se pode passar despercebido foi a...

A Sibila, de Agustina Bessa-Luís

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Por Pedro Fernandes É preciso ler A Sibila para estabelecer contato com toda força do universo ficcional construído por Agustina Bessa-Luís, a escritora que, sozinha, construiu toda uma literatura à parte no interior da ficção portuguesa. A aparição desse romance se deu numa ocasião bastante peculiar: enquanto a literatura de Portugal debatia seus meandros, as implicações entre linguagem e conteúdo ideológico e se prendia aos estatutos mais ou menos determinados da estética neorrealista, responsáveis por obras que ressuscitaram a criação ficcional posterior ao marasmo deixado pelo vazio de Eça de Queirós; é desse período, entretanto, a criação de obras de baixo valor criativo devido ao mero apelo quase panfletário decorrente do que poderíamos designar como o primeiro boom literário neste país. Nada se produziu de igual na literatura portuguesa antes ao que Agustina produziu e os herdeiros da escritora ainda estão por nascer. Esse isolamento, entretanto, não é apenas ...

Você não estava aqui, de Ken Loach

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Por Pedro Fernandes Numa sociedade ideal, sempre que nos apresentassem uma comodidade buscaríamos compreender quantas vidas foram / são sacrificadas para tanto. Mas, se isso não é um efeito coletivo, não é coletiva nossa impossibilidade para a condição do cidadão ideal. Por mais retrocessos que experimentemos (esses nunca deixaram de existir) eles não são um desejo majoritário; nossas tentativas, por malsucedidas que sejam, sempre apostam nessa possibilidade de uma sociedade envolvida o suficiente pelo bom funcionamento da coletividade. É verdade que a acusação repete que o apogeu do individualismo nos afastou do ponto de perdermos de vista qualquer utopia e tem cada vez mais nos afastado de uma compreensão sobre nós e sobre o outro. E é também verdade que essas constatações são cômodas porque produtos de certa desobrigação individual em contribuir para outra possibilidade. O filme de Ken Loach é, em parte, a demonstração de que nem todos estão tomados pela epidemia a...

Há lágrimas na natureza das coisas: “Máquinas como eu”, de Ian McEwan

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Por Guilherme Mazzafera “Mas apenas a grande arte exige interpretação deliberada ou exaustiva e, ao mesmo tempo, resiste a ela” (George Steiner, Depois de Babel )                          Em um instigante texto-resposta à animosa crítica do famigerado Edmund Wilson (um grande crítico, aliás) a O Senhor dos Anéis (1954-55), de J.R.R. Tolkien, Douglas Parker cravou uma observação de elegante percuciência: “A Fantasia sofre uma depreciação geral como gênero, como gênero sério, tendo por corolário que tudo de bom que dela emerge é imediatamente recategorizado.” 1 Se tomarmos a liberdade de congregar fantasia e ficção científica sobre um mesmo teto, assumindo a alcunha de “ficção especulativa” – termo possivelmente questionável por sua aparente redundância –, o fenômeno descrito por Parker ganha ares de ubiquidade. Suas palavras se fazem carne, mais uma ...