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Boletim Letras 360º #370

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DO EDITOR 1. Entramos, em definitivo, na região do incerto. Para onde iremos – não sabemos. Este blog quer continuar perto de seus leitores e amigos nesses tempos difíceis, de reaprendizagens. Aí estão nossas redes sociais abertas para se constituírem grandes espaços de diálogo (os links ficam sempre disponíveis no rodapé desta postagem e no final da página). Cuidemo-nos e sejamos solidários com os outros que mais precisam. 2. O BO Letras 360º é uma publicação semanal que reúne informações disponibilizadas (ou não) na página do Letras no Facebook. Obrigado pela companhia e, boas leituras! Hermann Hesse. Obra inédita do escritor no Brasil ganha tradução.   LANÇAMENTOS Um encontro que põe em movimento a memória da década de 1970 no Brooklyn estadunidense . Augusta, antropóloga formada por uma prestigiada universidade, volta a sua casa para o funeral do pai. Coincidentemente, seu trabalho de pesquisa acadêmica centra-se em rituais funerários de várias cul...

A leitura e a docência nunca foram tão excitantes

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Por Rafael Kafka Tony Illustration Nesse percurso de dez anos em que ocupo espaços de sala de aula, percebo que a afetividade sempre foi uma presença importante em minha rotina, mesmo sem conhecer o básico de como esse conceito interage com o processo de ensino-aprendizagem. Tudo era muito intuitivo e eu tentava de alguma forma manter uma relação de proximidade com meus alunos. Não queria ser o estereótipo do professor de cursinho pré-vestibular que dá aula show e é engraçado o tempo todo para fazer sucesso com os alunos, apesar de em diversos momentos eu usar estratégias similares para quebrar a monotonia das aulas e assim tornar tudo mais leve. Dar aula me ensinou que afetividade é um conceito amplo demais, manifestando-se de diversas maneiras em todos os contextos de nossa existência. Nesse sentido, a afetividade vivida na escola não deve ser a mesma vivida em casa e devemos refletir sobre os motivos que levam à projeção dos alunos desse outro tipo de afeto mais fa...

O sermão sobre a queda de Roma, de Jérôme Ferrari

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Por Pedro Fernandes No Verão de 410, Roma é invadida pelos visigodos chefiados por Alarico. Durante três dias de agosto, a cidade tomada é transformada em ruínas e o episódio instaura uma crise no centro do império cristão. Isto é, abalam-se também as estruturas da fé, afinal, como pode Deus (e São Pedro e São Paulo) permitir o abandono da Roma Aeterna a um exército de bárbaros? O episódio leva Santo Agostinho, então arcebispo de Hipona, a redigir um conjunto de cinco sermões proferidos no ano posterior à invasão. Os textos oferecem uma releitura da história e a partir dela uma proposição inteiramente inovadora: Roma enim quid est, nisi Romani? A questão nascida de uma leitura das Geórgicas segundo a qual todas as cidades têm um fim se mostra radical porque parece se guiar pela máxima de que o homem é a medida de todas as coisas, logo, o mundo não é para-si mas em-si. Esse sentido é possivelmente o recobrado por Jérôme Ferrari na escrita de O sermão sobre a queda ...

Macunaíma e o estoque de energia em “Canoas e marolas”

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Por Wagner Silva Gomes Macunaíma por Poty Lazzarotto. Do livro Canoas e Marolas (1999), de João Gilberto Noll, que versa sobre um homem de meia-idade, de moral burguesa, que vai atrás de sua filha Marta (“Ninguém”, porque assumiu ser povo) grávida de um rapaz de tradição indígena (o pobre) em plena região amazonense, veio-me a imagem dos personagens novelescos do Antônio Fagundes, um preguiçoso de dar gosto, sempre de respiração ofegante, com um cansaço mitológico, marcado de forma clássica em Velho Chico (2016), ao caminhar pelas areias nordestinas. É a imagem do patriarcado brasileiro se dissipando, seja pelo coronelismo (em Gabriela ), pela estrada (em Carga pesada ) ou pela favela (em Duas caras ), que vai por fim alegorizar a preguiça (em Velho Chico ), como no livro de Gilberto Noll. Essa frouxidão brasileira tem o efeito hibernal do urso, com um estoque de energia laico e leviano. Essa frouxidão tem o efeito do grito de guerra “Ai que preguiça”, do Ma...

Diário de leitura (parte um): Os Miseráveis, de Victor Hugo a Ladj Ly

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Por Rafa Ireno             Caros leitores, sinto dizer que comecei a escrever minha tese. Infelizmente, tudo o que não seja a tese míngua neste período, inclusive, as leituras. É um paradoxo no final das contas. Porém, ah porém, como sou teimoso e contraditório, resolvi ler Os Miseráveis de Victor Hugo. Na verdade, tal incumbência foi instigada pelo filme de mesmo nome de Lady Ly. Eu gostaria de ter escrito demoradamente sobre o romance, mas não teve jeito. Então, devagar, dia após dia, fui anotando coisas num diário, onde anoto coisas, e decidi compartilhar isso com vocês. São curiosidades e considerações críticas apelando à bondade, a qual sei que existe apesar dos tempos difíceis (refiro-me à escrita de minha tese e não ao horror do governo atual) dos frequentadores do Letras para com este pobre colunista. É a primeira parte, outras duas seguirão conforme avanço nas páginas do Hugo. Peço também a vocês paciência e que ac...

A tradição da peste na literatura. Treze obras literárias

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Desde o final de 2019, o mundo atravessa a explosão de uma nova mutação de Coronavirus que tem causado sequelas e mortes pela COVID19. Este é outro instante em que a longa aventura da existência humana na terra atravessa uma crise complexa que coloca em risco nossas existências. O mais terrível de uma peste não é a morte, o fim de tudo, mas sua forma desconcertante e implacável com que atua contra a coletividade; seus efeitos são sobre toda a gente, uma vez que a morte, ainda que atinja mais a uns, não escolhe vidas, isto é, é um mal que não diferencia e por sua causa podem morrer os ricos, os pobres, os sãos, os jovens, os que nunca morrem. Por outro lado, a peste obriga a todos a repensarem sua inserção na comunidade e a revisão de atitudes de empatia e solidariedade. A ilusão atualmente é que, depois de alguns meses, tudo voltará a ser como antes. É possível que retomemos (ou sequer deixemos) os mesmos hábitos de sempre, mas, se tudo voltar ao de antes, não tardará outra v...