Trezentos anos viajando com Gulliver
Por Javier de Lucas
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| Peter László Péri. Viagem ao país dos Houyhnhnms: Gulliver e um Yahoo. The Trustees of the British Museum |
Swift, mestre da ironia, da sátira política e da linguagem
A comemoração do tricentenário da publicação de As viagens de Gulliver (1726) é uma boa oportunidade para apreciar a abrangência desta obra e sua contínua relevância. No que diz respeito à sua abrangência, é importante abordar um mal-entendido muito comum: seu sucesso na literatura popular e, mais recentemente, em diversas adaptações para o cinema e a televisão, contribuíram para obscurecer o fato de que não se trata, de forma alguma, de um livro infantil. Na realidade, não é apenas um ápice do gênero no qual Swift se destacou — a sátira política — e de seu domínio e uso inovador da linguagem, mas também um dos melhores livros de filosofia política já escritos; um livro que influenciou outros grandes mestres da sátira política, como George Orwell, particularmente em sua obra A revolução dos bichos.
Jonathan Swift é um dos grandes mestres da ironia e da sátira política, como comprovam outras pequenas joias como, por exemplo, A fábula de um barril (1704), A arte da mentira política (1712) e a lendária Uma modesta proposta (1729), em que satiriza como resolver a miséria e a fome perpétuas na Irlanda através de um artifício tão engenhoso quanto provocativo: os camponeses irlandeses que não conseguem alimentar seus filhos porque não podem pagar o aluguel de suas terras aos insaciáveis proprietários ingleses podem escapar de seu sofrimento fazendo com que seus filhos sejam comidos. Muitos se lembrarão desta passagem:
“Uma criança será suficiente para dois pratos em uma recepção de amigos [...] Admito que essa comida será um pouco cara, de modo que agradará muito à classe dos proprietários, já que, tendo devorado a maioria dos pais, agora eles parecem ter mais direitos de fazer o mesmo com as suas crianças. A carne das crianças estará adequada o ano todo, mas será mais abundante em março, pois, segundo um eminente médico francês, sendo o peixe um alimento prolífico, nascem mais crianças nos países católicos depois da Quaresma. Os mercados estarão mais bem abastecidos, porque o número de crianças católicas é quase três para um neste reino, o que trará outra vantagem: uma diminuição no número de crianças católicas entre nós.”
Ao longo de sua obra, Swift revela-se um crítico implacável da crueldade e dos vícios humanos e de muitas das convenções sobre as quais se baseava a ordem estabelecida de sua época. Dessa forma, ele se alinha a Montaigne e Montesquieu ao demonstrar a relatividade dos costumes e das leis. Mas também ousou levantar outras questões nas quais estava à frente de seu tempo, como a pretensão arrogante que esquece a animalidade do homem.
E, do ponto de vista literário, Swift é sem dúvida um dos maiores estilistas da língua inglesa, com uma notável capacidade e desejo de renová-la, como demonstrado por seu ensaio de 1704, “A batalha dos livros”, e, sobretudo, por sua “Proposta para corrigir, aprimorar e determinar a língua inglesa” (1712). Aliás, nessa tarefa de renovação linguística, Swift foi provavelmente motivado, entre outros razões, por seu provável fascínio por crianças, uma característica que compartilharia com outro gênio da linguagem que viveu muito mais tarde, Lewis Carroll.
Assim, seus convívios com duas jovens adolescentes permaneceram velados graças ao seu domínio da linguagem: primeiro, com Esther Johnson, a quem sempre chamava de Stella, filha de um de seus mecenas, e a quem dedicou um diário de cartas de amor escritas ao longo de vários anos, Journal to Stella. Mais tarde, ele conviveu com Esther Vanhomrigh, para quem criou um nome até então inexistente, Vanessa, combinando a preposição (van) de origem holandesa e a desinência feminina (-essa). Dedicou-lhe um poema, “Cadenus and Vanessa”, brincando com o termo decanus, dean, um cargo eclesiástico que ele próprio ocupou.
A transcendência e a atualidade de As viagens de Gulliver
Diz-se que As viagens de Gulliver é uma jornada através das diferentes manifestações da alteridade, que, obviamente, também constituem um reflexo de uma jornada interior: uma viagem que o leva a reexaminar a concepção da humanidade, sua relação com a natureza e com os animais, do espelho distorcido de nossa condição à projeção invertida do mundo. Seu tema central é o mesmo de outros escritores da utopia: literatura que revisa o caráter natural da sociedade e força uma reconsideração dos fundamentos do contrato social por meio de críticas antropológicas, sociais e políticas do mundo em que vivem — algo em que Swift concorda em muitos aspectos com Daniel Defoe, que publicou seu Robinson Crusoe sete anos antes. Como é sabido, a tese básica é a demolição do conceito de uma ordem social natural, que é substituída por diferentes versões do contrato social: nossas sociedades são aquilo que convencionamos que deveriam ser.
Não é difícil identificar o argumento que norteia essas viagens de Gulliver: um itinerário da diversidade, desde o aparentemente mais banal — aqueles outros que são nossos iguais, exceto pelo tamanho — minúsculos, os habitantes de Lilliput em sua primeira viagem; gigantes, os de sua segunda, que o leva à terra de Brobdingnag — até o mais radical, como aquele que Swift apresenta em sua última viagem, onde ousa cruzar uma barreira inimaginável: a consideração daqueles “outros que não são humanos”, o que hoje chamaríamos de crítica ao especismo. Swift nega que haja um verdadeiro salto entre animais não humanos e humanos. Essa tese antecipa os ensinamentos de Darwin sobre a continuidade da evolução.
Mas a narrativa dessas viagens de Gulliver contém outras percepções profundas sobre as premissas da ordem social de sua época. Uma das mais ilustrativas é a descrição da tarefa que o Rei de Lilliput confia a alguns especialistas: inventariar os pertences do gigante que chegou às suas terras. Os leitores certamente se lembrarão do perspicaz parágrafo em que os homens concluem ter encontrado o deus de Gulliver: um artefato que ele carrega no bolso:
“De fora do bolsinho direito pendia uma grande corrente de prata, com uma espécie de máquina extraordinária na ponta. Ordenamos que ele removesse o que quer que estivesse preso à corrente, que se revelou uma esfera, metade de prata e metade de um metal transparente, pois no lado transparente vimos certas figuras estranhas desenhadas em círculo, que pensamos poder tocar até percebermos que essa substância diáfana impedia nossos dedos de se moverem. Ele aproximou o aparelho de nossos ouvidos, e este produziu um ruído incessante, como o de uma roda d’água e imaginamos que fosse algum animal desconhecido ou a divindade que ele venera, embora nos inclinássemos para a última hipótese, pois ele nos assegurou — se o entendemos corretamente, já que se expressou de forma bastante imperfeita — que raramente fazia algo sem consultá-lo. Chamava-o de seu oráculo e dizia que indicava o momento certo para todas as ações de sua vida.”
Trata-se do seu relógio, evidentemente. Dessa forma, Swift antecipa as teorias de Mumford apresentadas em seu Técnica e civilização (1934) sobre a profunda mudança na vida social, na organização do tempo e na divisão do trabalho provocada pela invenção do relógio mecânico, que, em sua visão, foi muito mais decisiva do que a máquina a vapor. E como não pensar também na magnífica crítica de Chaplin ao fordismo em Tempos modernos (1936)?
Mas o que quero enfatizar é como Swift emprega plenamente sua ironia para demolir a figura do ser humano, o animal racional, como o rei da criação. Paralelamente a isso, a crítica ao ideal de civilização com o qual se identifica a sociedade inglesa da época. Ao longo dessas histórias, Gulliver testemunha o desmoronamento da arrogância daqueles que se consideram master and commander do universo conhecido no século XVIII (Gulliver é homem, inglês, médico e, em sua última viagem, capitão de navio) e, por fim, descobre que os verdadeiros atributos da humanidade residem em animais não humanos: os cavalos.
Este relato de viagem é uma metáfora crítica, tão lúcida quanto implacável, para um discurso supostamente universalista, aquele que subjaz a livros como o de Niall Ferguson, Civilização: o Ocidente e os outros ou, muito claramente, à tese do choque de civilizações proposta por Huntington e reproduzida, por exemplo, por Sartori em sua crítica à sociedade multiétnica como um risco à democracia.
Esse suposto universalismo é a projeção de um particularismo, um “universalismo de substituição”, como o denunciou Seyla Benhabib, que serve de pretexto para um projeto colonial e imperialista inequívoco. Seu emblema é o poema de Kipling “The White Man’s Burden”, escrito em 1899, no qual anunciava que havia chegado a hora de a honra e o fardo de levar a mensagem da civilização ao mundo — a grande tarefa do Reino Unido — passarem para os Estados Unidos, que se arrogavam a autoridade de rotular qualquer forma de diversidade cultural, em seu sentido mais amplo, como bárbara.
É impossível não se deter na última dessas viagens de Gulliver, que ocupa a quarta parte do livro e o leva à terra dos Houyhnhnms, uma brilhante onomatopeia para relincho. O nome desses seres, os cavalos, significa “a perfeição da natureza” em sua língua. Sua sociedade coexiste com os Yahoo — uma palavra também cunhada por Swift e que, como sabemos, perdurou — paradoxalmente próximos dos seres humanos e caracterizados por traços como ganância e violência. Em contraste com a sociedade pacífica e ideal formada pela nobre e inteligente raça dos cavalos, esses yahoos, seres de aparência humana, constituem uma verdadeira praga para a natureza, descrição que Gulliver já havia feito em suas viagens anteriores. Basta lembrar que, em sua segunda viagem, o rei de Brobdingnag, após ouvir as explicações de Gulliver sobre sua raça o levam a concluir que pertence à “ralé mais perniciosa de vermes repugnantes que rastejam sobre a face da Terra”.
É nessas páginas da quarta parte, especialmente nos capítulos quatro a seis, que descobrimos que as teses de Swift estão relacionadas à crítica que Nietzsche desenvolveria posteriormente. Ler as considerações que o amo houyhnhnm extrai dos próprios argumentos de Gulliver sobre até que ponto o reino mais próspero e culto da Terra, a Inglaterra do século XVIII, baseia seu governo em mentiras, guerras, desigualdade e no império da lei, que, no fim das contas, nada mais é do que a imposição de mentiras, violência e desigualdade, é aterrador para o leitor de hoje, porque mostra o quão pouco progresso fizemos no projeto civilizatório. Sem mencionar, insisto, o especismo, no qual Gulliver está obviamente imerso e que lhe será revelado como totalmente infundado.
De fato, o personagem de Swift descobre que sabedoria, bom senso, compromisso com a educação, até mesmo um senso de justiça e democracia como uma assembleia de iguais, e acima de tudo, a pietas, são atributos precisamente daqueles que não aparentam ser humanos. E numa reviravolta que, na minha opinião, supera até mesmo a famosa cena de Nietzsche em Turim, Swift nos conta que, ao retornar à Inglaterra após essa última viagem, Gulliver sucumbiu ao que sua família e amigos consideravam loucura: ele não suportava viver entre aqueles seres humanos tão pouco humanos e, “cansado da insensatez humana”, precisava se refugiar nos estábulos para encontrar consolo na companhia dos cavalos.
O que Swift propõe é justamente que aqueles que nos parecem radicalmente diferentes — os animais não humanos — são os que humanizam a humanidade. Uma lição que ainda precisamos aprender, embora o avanço do conhecimento científico ofereça evidências que parecem confirmar algumas das teses mais extremas de Swift. Assim, o renomado primatologista Frans de Waal, Eu, primata argumenta que nossas características mais nobres — generosidade, bondade, altruísmo e solidariedade — fazem parte da natureza humana precisamente porque derivam de nosso passado animal.
As teses subversivas de Swift ressoam com movimentos que defenderam o reconhecimento dos deveres para com os animais e até mesmo seus direitos. Vale a pena lembrar a primeira Lei do Tratamento Cruel ao Gado, conhecida como Martin’s Act (1822), que protegia os animais de fazenda de maus-tratos e recebeu o nome do parlamentar e ativista irlandês Richard Martin. Foi durante sua implementação que ocorreu o Julgamento de Bill Burns, no qual um burro que havia sido abusado se tornou o primeiro animal a receber uma sentença judicial contra maus-tratos.
Dois anos depois, foi fundada a primeira sociedade de proteção animal, a The Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals. E isso abriu caminho para o movimento pelos direitos dos animais, que enfatiza os deveres dos humanos para com os animais, mas sem declarar explicitamente os direitos. Esse salto qualitativo ocorreria no final do século XX, com o reconhecimento dos animais como seres sencientes e sob o impulso de teóricos como Peter Singer, Gary Francione e o Projeto Grandes Primatas.
De uma perspectiva filosófica, a semente da ideia de Swift se revela na obra do filósofo utilitarista Jeremy Bentham, cuja passagem do capítulo 18 de Uma introdução aos princípios da moral e da legislação (1789) é frequentemente citada:
“Pode muito bem chegar o dia em que o restante da criação animal adquira os direitos que jamais lhes poderiam ter sido negados, a não ser pela tirania. Os franceses já descobriram que a cor da pele não é motivo para que um ser humano seja abandonado sem recorrer ao capricho de um torturador. Talvez um dia se reconheça que o número de patas, a quantidade de pelos na pele ou o formato do sacro sejam razões igualmente insuficientes para abandonar um ser senciente ao mesmo destino. O que, então, deve marcar o limite intransponível? Será a faculdade da razão, ou talvez a do discurso? Mas um cavalo ou um cão adulto é, sem comparação, um animal mais racional, e com quem é mais possível comunicar, do que uma criança de um dia, uma semana ou mesmo um mês. E mesmo supondo que fosse diferente, o que isso significaria? A questão não é se eles podem raciocinar ou se podem falar, mas: podem sofrer?”
É interessante lembrar que o ensaio de Mary Wollstonecraft, Reivindicação dos direitos da mulher (1792), provocou uma resposta de um ensaísta chamado Thomas Taylor, que publicou no mesmo ano o panfleto A Vindication of the Rights of Brutes, onde alertava para o risco de que, se as teses de Wollstonecraft fossem aceitas, acabaríamos proclamando os direitos dos animais. Mas foi em 1892 que o reformista Henry Stephens Salt publicou o primeiro ensaio que defendeu expressamente esses direitos como um avanço civilizacional, com o significativo título Animal’s Rights: Considered in Relation to Social Progress.
A crítica de Swift à ideia de progresso
É precisamente esse vínculo que acredito ser importante destacar em relação à obra de Swift. As viagens de Gulliver, insisto, são jornadas através das diferentes manifestações da alteridade, que nos mostram a dificuldade de reconhecer o outro, devido ao preconceito de pensar que o outro, na medida em que é diferente, não pode ser tratado como igual e, portanto, seu destino é submeter-se à nossa superioridade civilizacional, mesmo ao ponto de ser expulso de suas próprias terras ou aniquilado por nós. Suas reflexões críticas oferecem um contraponto na encruzilhada existencial em que nos encontramos, em um mundo que parece estar regredindo à condição selvagem da guerra de todos contra todos, onde prevalece a vontade do mais forte. Em suas sucessivas viagens por mundos que contradizem a ordem natural das coisas da época, Gulliver descobre a importância da empatia, do respeito e da atenção às diversas formas de vida.
Tudo isso fomenta a visão de outro pilar para um possível universalismo, um que abandone sua fixação no Ocidente — uma noção dificilmente sustentável hoje como sinônimo de civilização — sem ignorar o quanto de seu legado positivo e universalizável já nos foi propiciado. Esse possível universalismo é o que o jurista Luigi Ferrajoli propõe, por exemplo, em seu ensaio Por a uma constituição da Terra: a humanidade na encruzilhada (2022): um universalismo baseado no direito global, não na imposição do mais forte (sob o disfarce do mais civilizado), mas enraizado na prioridade dos bens comuns, que pertencem não apenas à humanidade, mas à própria vida do planeta, dada a nossa capacidade ambígua que, simultaneamente, nos torna os principais responsáveis por essa vida e a maior ameaça à sua existência.
* Este texto é a tradução livre de “Trescientos años viajando con Gulliver”, publicado aqui, em Letras Libres.

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