Postagens

Escrever de ouvido: Clarice Lispector e os romances da escuta, de Marília Librandi

Imagem
Por Sérgio Bairon* Está aí... o mergulhar no labirinto de Clarice Lispector por meio do outro-mesmo labirinto, o do ouvido, que cria múltiplas e sinestésicas escutas. Inspirado pela própria Clarice, o livro de Marília Librandi poderia ter inúmeros títulos: de labirinto em labirinto: a escuta; topofilosofia da escuta; a escuta no entre a oralidade e a escrita; ruínas da linguagem como escuta; o caleidoscópio aural da escrita; a escuta dos objetos gritantes... e tantos outros, que revelam uma teoria criada pelo perpassar a literatura, jamais, estacionada nela!   A teoria da escuta desenvolvida por Marília Librandi, inaugura uma profunda interlocução entre crítica literária e filosofia, provocando uma dobra em qualquer sentido que se apresente como significado literal. Quando o que se busca compreender é o que a escuta desvela, o que podemos escrever a respeito desta movediça reticularidade polifônica, nunca poderá ser expresso como sentido estático.  O sentido que se desvel...

Cada um em seu lugar

Imagem
Por Tiago D. Oliveira   A leitura de um livro de contos começa quase sempre para mim pelo tatear de sua forma. Certa vez alguém me disse que se passasse as páginas tão rapidamente encontraria uma mensagem desenhada nos rodapés a partir de letras e símbolos soltos. Desde então, mais do que um vício, tal prática tornou-se o ritual antes de qualquer livro. Sentir o objeto artístico em sua realização em minhas mãos, explorar as ranhuras, seus poros. O que me concebe também passadas sobre o chão do entendimento de nosso tempo: Não só os modos de questionamento da linguagem artística, mas também para nomear o local das práticas artísticas contemporâneas , como afirma Florencia Garramuño quando pensa a obra de Nuno Ramos.  Eis que faço esse trânsito até os contos de Marcelo F. Lotufo em seu novo livro, Cada um a seu modo , lançado pela Edições Jabuticaba, não somente para focar nas formas nem na linguagem, mas acima de tudo, para sentir o curso das águas, como consegue esculpir Vilma...

Gyula Krúdy

Imagem
  Gyula Krúdy, Ilha Margarida, s/d.   Escritor de excepcional fertilidade criativa, autor de mais de três mil folhetins e contos, sessenta romances e novelas, mais de mil artigos de jornal, quatro peças de teatro e aventuras para jovens publicadas em livros em periódicos e folhetos de Budapeste e arredores. O polígrafo era capaz de trabalhar um dia e uma noite inteiros, chegou a colaborar com até quinze revistas e jornais ao mesmo tempo.   Gourmet sábio, degustador de vinhos valiosos, a figura noturna mais icônica da Budapeste na virada do século, conhecedor de tabernas, amigo de atrizes e prostitutas, habitante de bordéis e hotéis, jogador de cartas e entusiasta das corridas de cavalos, temido adversário dos últimos hussardos e especialista em roupas femininas.   Escritor solitário, líder de uma geração literária à qual não pertencia, fundador da nova prosa húngara. Duas vezes casado, marido infiel com quatro filhos, doente do coração, pulmões e estômago, alcoólat...

Boletim Letras 360º #418

Imagem
  DO EDITOR   1. Saudações, leitor! Antes de irmos para as notícias quero compartilhar uma das novidades pensadas para este ano de 2021 aqui no blog. A novidade foi apresentada na conta do Letras no Twitter na sexta-feira, 19.   2.  Há muito que o Letras publica vez ou outra leituras sobre obras da literatura brasileira fixadas num tempo remoto que nos favorece tratá-las por clássicas.   3. Agora, decidimos que toda última quinta-feira do mês será dedicada a uma dessas obras da literatura brasileira.   4. Citando o que disse minha conta no Twitter no início deste ano: a motivação para tanto é tripla: é preciso balancear o excesso de contemporaneidade; é fundamental construir caminhos por fora da persistência ardilosa do cânone capitalista; é importante ler nossos antepassados a fim de observar o que nos dizem a este presente tresloucado.   5. A sequência de textos começa a ser publicada aqui na próxima quinta-feira, 25 fev. '21, com um clássico que ...

Elizabeth Hardwick: lições de estilo

Imagem
Por Antonio Muñoz Molina Elizabeth Hardwick. Foto: Susan Wood.   Notei pela primeira vez o nome Elizabeth Hardwick em um ensaio de David Shields que me impressionou muito, Reality Hunger [Fome de realidade]. Em tom polêmico, e tecendo as páginas do que chamou de “um manifesto”, com todo tipo de citações e fragmentos de livros, reunidos como uma colagem, Shields propôs uma literatura que, para captar mais plenamente o imediatismo da realidade, a variedade e desordem do presente, escapava às formas tradicionais do romance ou das memórias, ou misturava-as sem cerimônia, acrescentando também vestígios do ensaio, do jornal, da crônica do jornal. A “fome de realidade” de um leitor contemporâneo, disse Shields, não pode mais ser satisfeita por gêneros literários estabelecidos, estagnados, fechados em si mesmos, inclinados a uma coerência interna que exclui o aleatório, o fragmentário, o material barato e confuso de nossa experiência mundial.   O livro de Shields me influenciou mais ...

A tirania do amor, de Cristovão Tezza

Imagem
  Por Pedro Fernandes   O périplo por um dia daqueles capazes de nos jogar à cara todo o nosso passado e revirar o que acreditávamos ser o curso estável da existência. Esta poderia ser uma síntese sobre A tirania do amor , de Cristovão Tezza. Um meticuloso narrador que se apaga corriqueiramente a fim de permitir a correnteza da consciência de sua personagem principal, esta que também costuma se meter nos fluxos alheios e atribuir vozes próprias, se desenvolve interessado em, à maneira de sua personagem, reconstituir milimetricamente a sucessão de episódios que começa a meio da noite de um dia e escorre para a noite do dia seguinte e encontrar entre eles qual a peça faltante, o dispositivo desencadeador das circunstâncias ou mesmo qual o seu papel para tanto. Enquanto se engalfinha na rotina do que seria apenas um dia a mais no trabalho da repartição, Otávio Espinhosa, o homem dos números, não deixa de oferecer qual a objetividade do seu itinerário mental circunscrito em três t...