Entre literatura, imagem e memória em Os emigrantes, de W. G. Sebald

Por Douglas Sacramento

W. G. Sebald. Foto: Basso Cannarsa



W. G. Sebald, escritor alemão, nasceu na Alemanha, em 1944, mudou-se anos depois para a Inglaterra, onde permaneceu até sua morte, em 2001. É conhecido por obras como Vertigem e Austerlitz, nas quais se fazem presentes características marcantes de sua escrita que também reaparecem na obra que é objeto desta crítica: a aproximação entre literatura e memória, mais precisamente com os horrores da guerra e do pós-guerra, que deixaram marcas subjetivas na Europa. Para tratar de um tema tão delicado, o autor recorre ao uso de imagens e à pesquisa arquivística. 

Os emigrantes, publicado originalmente em 1992, é composto por quatro narrativas que giram em torno do trânsito de personagens marcados pela guerra, cujos efeitos reverberam em mudanças no cotidiano e em diferentes afetações psicológicas. Sebald se insere como um autor-narrador que revisita o próprio passado e as pessoas que conheceu em sua trajetória. O processo é algo próximo do trabalho de um historiador diante de vidas comuns, remexendo nos arquivos e documentos que chegam em suas mãos. O leitor acompanha o trajeto dessas existências amparado por imagens que dialogam diretamente com o texto e com o que está sendo narrado.

Kelvin Falcão Klein, estudioso da obra de Sebald no Brasil, analisa num dado artigo como a memória coletiva atravessa a produção do escritor, destacando algumas de suas especificidades. Um dos pontos discutidos por ele é a memória do outro sobre a guerra, da qual Sebald se apropria para “suplementar” as lacunas dessas lembranças com “fantasia e imaginação”. Para isso, mobiliza imagens que atestam a veracidade dos fatos e, ao mesmo tempo, produzem um questionamento sobre o que uma imagem pode comprovar. 

Assim, Sebald não deixa de narrar quando recolhe e aborda a história do outro. As histórias reunidas em Os emigrantes partem do individual para alcançar a coletividade. As vidas investigadas pelo autor-narrador são atravessadas por duas guerras mundiais, deslocamentos forçados e traumas que perpassaram gerações. Como aponta Klein, trata-se de uma literatura calcada no contato entre o “arquivo familiar e o arquivo cultural”. É nesse ponto que as divisas entre ficção e realidade se borram, pois há todo um exercício de fabulação sobre o arquivo manejado. A reconstrução do passado depende de um “trabalho fragmentário”, similar a uma atividade na educação infantil descrita pelo próprio narrador. 

Em “Paul Bereyter”, por exemplo, personagem que dá nome ao conto é o antigo professor do jardim de infância do autor-narrador. A busca pelo destino do professor — que já apresentava um comportamento soturno na sala de aula — faz com que esse narrador realize uma arqueologia da vida dessa personagem: da morte dos pais à descoberta de sua ascendência judaica, passando pela relação ambígua com o pequeno povoado onde ensinava. Logo, essa saída do seio familiar para outro lugar evoca diretamente o título da obra.

O conto apresenta os impactos da guerra na vida do professor. Inclusive, o final de sua vida, quando, cego, atira-se nos trilhos do trem. Trata-se de uma subjetividade abalada e em frangalhos, inserida num contexto marcado por perdas e mortes, atestando como a imagem tem uma função atrelada à imortalidade e à rememoração de quem já se foi. 

“Landau me apresentou um álbum de formato grande, que documentava em fotografias não apenas o período em questão, mas, à parte uma ou outra lacuna, quase toda a vida de Paul Bereyter, com notas de seu próprio punho. Vezes e mais vezes, de frente para trás e de trás para a frente, folheei esse álbum naquela tarde, e desde então torno a folheá-lo de tempo em tempos, porque, ao contemplar as fotos nele contidas, efetivamente me parecia, e ainda me parece, como se regressassem os mortos ou como se estivéssemos prestes a nos juntar a eles.” (p.51)

Antes desta narrativa, o livro apresenta “Dr. Henry Selwyn”, conto sobre um médico que vive sozinho na Inglaterra, cuidando das plantas e animais em sua chácara. Uma vida bucólica, mas igualmente marcada pela saída do lugar de origem. E, no último conto, “Max Ferber”, o leitor se depara com um judeu expatriado na Inglaterra. A história gira em torno das memórias deixadas pela mãe do protagonista antes de ser enviada para um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. 



O ponto alto do livro ocorre quando o autor-narrador se volta para a própria família em “Ambros Adelwarth”. A trama gira em torno desse tio-avô do narrador, cuja trajetória o faz se deslocar da Europa para os Estados Unidos, indo conviver com as tias que o visitavam na sua infância. Aqui, o manejo do arquivo se mescla com o arquivo pessoal; acompanhamos o lado da família deslocada para a América do Norte em busca do estilo de vida prometido pelo american dream

Ambros é um personagem revelado em camadas. Acompanhamos o narrador resgatar as memórias da infância e dos tios até que a figura enigmática desse tio-avô surgir. Nada em sua trajetória é muito tranquilo, afinal, trata-se de um homem gay que sempre escondeu o relacionamento com um homem rico. Assim, Ambros passa pela guerra e vive a condição de estrangeiro que sempre o persegue, o que o leva a um adoecimento psíquico e à morte num manicômio após tratamentos com eletrochoque. 

No entanto, a história de “Ambros Adelwarth” não se reduz a isso. Elementos do arquivo fazem com que ele seja um personagem factível, como a transcrição de um diário de viagem ao final do conto. Esse documento demonstra a tensão entre o deslocamento, a fuga e o confronto consigo mesmo e com o próprio passado. Ao visitar o manicômio abandonado, entrevistar as tias ainda vivas e conversar com o psiquiatra do caso, o autor-narrador produz um entrelaçamento especular entre o abandono daquele lugar, o uso do eletrochoque (já antiquado no presente narrativo) e a forma como ele próprio mobiliza o passado. 

“Assim, considerava a docilidade inaudita de Ambros, um de nossos primeiros pacientes submetidos a uma eletroterapia que se estendeu por semanas e meses, como fruto do novo procedimento, embora essa docilidade, como eu já começava então a desconfiar, não se devesse a outra coisa a não ser o anseio de seu tio-avô por uma extinção a mais completa e irrevogável possível de sua capacidade de pensamento e recordação.” (p. 115-116)

Sebald é um dos grandes autores da história da literatura contemporânea, como demonstram os elogios da crítica, os estudos acadêmicos e a mobilização de sua obra por universidades e leitores. Resgatar do esquecimento, afinal, é a grande premissa de seu projeto literário ao entrelaçar as memórias individuais à memória coletiva de um povo. Os emigrantes é uma excelente porta de entrada para a obra do autor alemão: um diálogo potente entre literatura e imagem, conduzido por uma escrita ágil e contundente, sem deixar a subjetividade de lado e abordando temas necessários para compreender transformações constantes do século XX. 


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Os emigrantes 
W. G. Sebald 
José Marques Mariani de Macedo (Trad.) 
Companhia das Letras, 2009 240p. 


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