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Oito poemas de “Os Cinquenta Poemas do Ladrão de Amor” (Caurapankasika)

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Por Pedro Belo Clara         Mesmo agora    que tudo se desmoronou Recordo a minha amada    luminosa Como uma grinalda de douradas flores A pelugem negra que desaguava no seu umbigo O corpo fremente de desejo ao acordar       Mesmo agora   se a visse de novo A essa rapariga de olhos de lótus O corpo soçobrando devido ao peso dos seios Estreitá-la-ia entre os meus braços E beberia da sua boca como um louco Como uma abelha insaciável   sugando uma flor Mesmo agora    recordo a minha amada Na dança selvagem do amor Curvada devido ao peso dos seios O corpo esguio consumido pelo desejo O rosto transparente como a lua cheia Submersa pelos seus longos cabelos       Mesmo agora    recordo a minha amada Cavalgando por cima de mim O seu esforço de vaivém    constelava A sua pele de cachos de pérolas Gotas claras e espessas de suor Recordo o pendente de ouro Roçando as suas maçãs do r...

Boletim Letras 360º #601

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Hermann Broch. Arquivo: Leo Baeck Institute     LANÇAMENTOS   Os leitores brasileiros têm ao alcance uma nova edição e tradução de três livros centrais na obra de Hermann Broch .   “Os sonâmbulos” foi título dado por Hermann Broch aos três livros que retratam três fases cruciais na vida da Alemanha: a prussiana, a imperialista e a da Primeira Guerra Mundial. Cada romance narra a história de indivíduos que, tal como os sonâmbulos, vivem entre o sono e a realidade, buscando encontrar um sentido para a própria vida: Pasenow ou o romantismo (1888), Esch ou a anarquia (1903) e Huguenau ou orealismo (1918). Pasenow, Esch e Huguenau tentam libertar-se dos valores do passado, nos quais já não acreditam, mas dos quais ainda fazem parte. Em cada romance, Broch retrata a decadência dos antigos valores europeus, a libertação da razão acompanhada pelo surgimento da irracionalidade, e a autodestruição do mundo em sangue e miséria. Ao mergulhar nas reviravoltas de seus personage...

Nossas noites: a pequena última pérola de Kent Haruf

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Por Vinícius de Silva e Souza   “Addie apagou a luz. Cadê a sua mão? Bem aqui do seu lado, onde ela sempre está.”       “E então um dia Addie Moore fez uma visita a Louis Walters”. Com tamanha simplicidade Kent Haruf inicia aquele que viria a ser seu último romance: apenas uma senhora indo visitar seu vizinho. Mas o que se desencadeia a partir daí, não possui nenhum vestígio de superficial ou banal — muito pelo contrário: em suas cento e cinquenta e sete páginas, na edição brasileira, Nossas noites vai fundo na solidão da terceira idade e nas conexões humanas.   O enredo: Addie decide começar a passar as noites com seu vizinho de longa data Louis. Ela, viúva, ele, também. Assim que faz a proposta, de que ele vá à casa dela todas as noites apenas para conversarem e dormirem juntos, logo deixa claro: não é sobre sexo; e sim, sobre solidão: “Estou falando de ter uma companhia para atravessar a noite, para esquentar a cama. De nós nos deitarmos na cama juntos e voc...

Os grandes carnívoros, de Adriana Lisboa

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Por Gabriella Kelmer Adriana Lisboa. Arquivo TV Brasil.   Em outra oportunidade, observei como os romances recentes de Adriana Lisboa se articulam a partir da perpetuação de algumas temáticas que servem como princípios organizadores da experiência de mundo das suas personagens. A partir desses temas, fundamentam-se camadas de sentido às experiências, já então vinculadas pela ação analítica do ser ficcional. Gera-se, por esse mecanismo, um encadeamento entre tempos, temas e espaços que, antes de ser simbólico a priori , permite entrever o tatear exploratório de uma consciência que transforma a vida em enunciado.   Retornei a essas considerações após a leitura de Os grandes carnívoros , romance mais recente da autora, publicado pela Alfaguara em 2024, e elas ainda me pareceram válidas frente ao novo ato literário. A prosa analítica e sensível da autora — adjetivos cuja contradição exterior é facilmente desfeita pela leitura da obra, na qual se manifestam seres ficcionais articu...

Canção de guerra em azul

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Por Eduardo Galeno IKB 191 (1962), Yves Klein. Wikipedia Commons (domínio público)   I   Eu não sei os sintomas da Aids (experiência: não sinto). Mas Derek Jarman falou e demonstrou que eles têm a cor azul (minha e de muitos a cor favorita na infância).   Jarman, por acaso, é um desses cineastas que gosto de ver, seja lá sobre o que seja sua produção: sobre um pintor renascentista, uma tradução fílmica da peça de Shakespeare ou um retrato da revolução punk na Inglaterra. O corte que me lança ao ver os seus filmes, apesar de escondido, não é complexo de afirmar: ele tem a ver com uma dupla identidade: a da criação/ destruição de formas artísticas. Blue , de 1993, é mágico nesse quesito. Estende o novo a partir de antiguidades.   O conteúdo é próximo porque ele nos revela a violência contida na biopolítica que assolou milhares, incluindo ele, ao longo das últimas décadas do século XX, em um contexto em que a doença era pouco combatida pela via farmacológica. Prestem a...

A amizade e a admiração como guias para a caminhada

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Por Matías Serra Bradford Yves Bonnefoy. Foto: Eric Garault. Algumas coincidências entre autor e leitor contribuem para uma melhor aproximação, mas são sempre condições insuficientes para garantir um encontro perfeito. O par formado por Charles Baudelaire e seu leitor Yves Bonnefoy é ideal em suas afinidades e contrastes. Ambos foram sujeitos de uma mesma língua, e foram poetas e prosadores, críticos de arte e tradutores (também do mesmo idioma, o inglês). Mas, exceto por um certo sentido do divino na presença de paisagens e pinturas, não poderia haver mais diferenças de temperamento entre os dois.   Basta como exemplo a inclinação disruptiva de Baudelaire e a predisposição conciliatória de Bonnefoy, com a sua confessada aversão ao rompimento de amizades. De qualquer forma, ele é um poeta notável e suas repetidas visitas à obra de Baudelaire remetem a um provérbio turco: “Quando um machado apareceu pela primeira vez na floresta, as árvores disseram: ‘Pelo menos o cabo é um dos...