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O filho do cometa Halley

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Por José de la Colina Mark Twain. Arquivo Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.   1 As datas existem para serem esquecidas, escreveu Jorge Luis Borges, e talvez ele tivesse razão, porque na maioria das vezes minúcias cronológicas apontam para eventos triviais que servem apenas para entreter o leitor habitual de jornais com aniversários, horóscopos, palavras cruzadas e histórias em quadrinhos. Mas às vezes pode-se dizer que coincidências na fluidez do tempo buscam moldar ou definir um destino humano. É o caso das datas inicial e final entre as quais transcorreu a vida do apreciável escritor estadunidense Mark Twain. Em 30 de novembro de 1835, na Flórida, Missouri, um certo Samuel Langhorne Clemens, a quem a imortalidade literária só reconheceria pelo pseudônimo de Mark Twain, nasceu na exata coincidência do aparecimento do Cometa Halley. Isso lhe permitiria dizer mais tarde, meio sinceridade e brincadeiras, que era “um visitante misterioso e talvez sobrenatural vindo de outros...

Nova geração em Vidas tardias, de Brandon Taylor

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Por Vinícius de Silva e Souza  Vidas tardias , o segundo romance de Brandon Taylor veio a mim por indicação da generosa escritora Fabiane Guimarães, quando leu o esboço de um romance no qual venho trabalhando e apontou similaridades. De fato: um grupo de jovens, pós-graduandos, vivendo a efervescência da juventude entre relacionamentos e questões profundamente contemporâneas. No entanto, após determinado ponto (e nem é algo tão longe assim), Taylor começa a demonstrar uma certa redundância no que arquiteta com seus personagens. Pior: desliza no vale da banalidade. O início é surpreendente e arrematador. Nos deparamos com Seamus confrontando colegas no grupo de estudos, e questões facilmente encontradas no Twitter (não consigo chamar de X) saltam aos nossos olhos. Acompanhar sua rotina e certo abuso que sofre é instigante, mas não sei dizer se é porque o personagem assim também o é, e o que é contado, ou se apenas porque estamos no início do livro, dispostos a tudo que vier pela fre...

Boletim Letras 360º #653

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DO EDITOR   Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você tem desconto e ainda ajuda a manter o Letras . J. M. Coetzee. Foto: Víctor Sainz   LANÇAMENTOS   Do ganhador do prêmio Nobel, este breve e impactante romance explora a natureza enigmática dos relacionamentos e como encontros fortuitos podem alterar nossos destinos .   Em seis capítulos curtos, O Polonês narra a história de Witold Walczykiewicz, um célebre e controverso pianista conhecido por suas interpretações de Chopin. Durante uma passagem por Barcelona, ele se apaixona por Beatriz, uma elegante patrona das artes que o ajuda a organizar um concerto. Apesar de Beatriz, uma mulher casada, inicialmente rejeitar os avanços de Witold, a relação entre os dois evolui de forma inesperada. Após um breve romance rapidamente interrompido por ela, Witold sai de cena, mas deixa 84 poemas escritos para “Beatrice” em sua língua natal. A mulher se impõe, então, a tarefa de criar um senti...

Ana mon amour

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Por Eduardo Galeno  Ana C., em 1978 A palavra se move . Ela traduz um movimento recíproco entre linha (sintagma) e velocidade. Essa velocidade não é, necessariamente, escalar; também pode ser vetorial. À medida que se move, deixa os rastros e, deixando, percorre do exato da presença ao seu desaparecimento iminente. Muitas vezes se cansa: como se vê, é um cansaço com a voz baixa, mas clara: um murmúrio esgotado e extremamente desvairado. Certeza, a claridade é a claridade original do que já foi, do que vai deixar de ser e do que aparecerá nos remendos do movimento. Sair para fora da identidade é seu resumo, sua astúcia. Deslizamento arriscado no princípio ( principício ) ou derrisão descontente no fim. Então pulula, se apoiando em excluir tanto a unidade quanto a dialética, encontrando, na sua mais alta glória anárquica, a maré da vigilância violenta. A palavra movente, assim, não reconhece nenhuma paisagem ou cultura, muito menos se enfeita de joias que não são as suas. O único pon...

Caixa 19, de Claire-Louise Bennett: o percurso de um experimentalismo trôpego

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Por Amanda Fievet Marques Claire-Louise Bennett. Foto: Patrick Bolger     Publicado em 2021 com o título Checkout 19 , o romance da escritora inglesa Claire-Louise Bennett saiu neste ano pela Companhia das Letras como Caixa 19 , com tradução de Ana Guadalupe. O romance é extremamente irregular quanto à qualidade de sua composição. Ele se constrói com uma narrativa não-linear — embora existam fios que se entremeiam, e motivos que retornam — das reminiscências da narradora-escritora.   Desde o primeiro capítulo, “Uma grande bobagem”, fica claro que a repetição e a digressão são os grandes procedimentos estruturais. A repetição opera, aqui, tanto como explicitação do hábito da narradora, leitora desde menina, que conta e reconta seus costumes juvenis de leitura na casa de seus pais, seus verões no pátio a ler, seu fascínio pelos livros proibidos de sua mãe, quanto como recurso formal. Repetições lexicais, verbais, que ora conferem um tom de oralidade à narrativa, ora realiz...

Um homem diferente subverte o show da representação

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Por Alonso Díaz de la Vega Há alguns anos, com a ascensão de movimentos sociais que reivindicavam gênero e raça nos Estados Unidos, o slogan “A representação importa” tornou-se popular. Em um esforço para se adaptar às tendências de consumo, Hollywood tentou — sem muita convicção e por um tempo, apenas — integrar pessoas que antes eram rejeitadas pelo sistema: alguns filmes a cada ano começaram a ser dirigidos, escritos e estrelados por afro-americanos, mulheres e, ocasionalmente, descendentes de imigrantes asiáticos, mas continuaram a ser produzidos e distribuídos por homens brancos, que lucravam mais. A prática, questionável por si só, já está em declínio e, em seu auge, teve uma exceção notável: a porta foi quase completamente fechada para pessoas com deficiência, exceto por O som do silêncio (2019) e CODA (2021), vencedores do Oscar que, com personagens atraentes (inclusive fisicamente) e lições sobre como viver plena e inspiradoramente com a deficiência auditiva, evitaram assust...