A agitação turbilhonar de Lady Gaga – apresentando a série Memorandum
Por Lucas Paolillo
As imagens que se destacaram de cada aspecto da vida fundem-se num fluxo comum, no qual a unidade dessa mesma vida já não pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente apresenta-se em sua própria unidade geral como um pseudônimo à parte, objeto de mera contemplação. A especialização das imagens do mundo se realiza no mundo da imagem autonomizada, no qual o mentiroso mentiu para si mesmo. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo.
— Guy Debord, A sociedade do espetáculo (1967)
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| Montagem em série autoral de Small Torn Campbell's Soup Can (Pepper Pot), de Andy Warhol (1962). |
Nos dias que correm, escrever inspirado por algum impulso de suspeita sobre as assim chamadas divas pop não é tarefa das mais simples. O mero anunciar de seus nomes-fantasia, antes mesmo de delineadas quaisquer figurações, magnetiza devoções litúrgicas ou preconceitos imediatos. “O contemporâneo é o intempestivo”, já disseram por aí. Por trás das ênfases espontâneas, um segredo ao alcance dos ouvidos: estar às voltas com este assunto é, antes do mais, reparar materialmente nas movimentações de impérios vertiginosos de imposição simbólica. Sitiados pelo seu domínio, restam a nós, meros mortais, reações. Objetivamente, essa presença ostensiva data de décadas e já passou por transformações significativas ao longo dos anos. Ainda assim, organizou e continua a organizar, massivamente, sentidos do imaginário em escala planetária.
Pensá-las sem colocar o pé na jaca envolve alguns cuidados. Menos do que questões de elocubração intelectual, as quais podem servir ao verniz elogioso ou ao nada-novo de velhos esquemas, o fundamental está no esforço pela caracterização empenhada em não cair na armadilha da redescrição dos portfólios — uma verdadeira teia de aranha que põe qualquer observador da cultura a ser devorado como mosca. Certa vez, uma estudante de jornalismo me convidou para participar de uma matéria-piloto sobre as regravações de Taylor Swift. Minha contribuição, uma entrevista, não foi tão útil porque destoou da linha da matéria, que queria porque queria situar Swift como herói positivo contra o dragão da indústria fonográfica. Meu argumento, ainda que poroso à encomenda, foi por outro caminho: não havia nada antissistema porque os lances explorados pela entertainer não rompiam, apenas maximizavam, rotas. Brechas, aliás, homologamente estruturais àquelas ativadas pelas práticas comunicacionais da extrema-direita.
Claro, fiquemos todos calmos, não tratei de supor um alinhamento automático entre as declarações de uma e de outros — perspectiva que, aliás, daria um bom tema de investigação a ser tratado em malha fina. É sabido que a maioria das divas pop, tomadas como bastiões de força por setores que demandam mundialmente mais reconhecimento, se afina ao diapasão daquilo que Nancy Fraser chamou de neoliberalismo progressista. Com seus próprios megaeventos, elas dão de dez a zero no ritmo das velhas reuniões de cúpula, como o Fórum Econômico Mundial. E mais, angariam, com carisma, apoio popular. Com maratonas globais, acenos carinhosamente regressivos às bases, campanhas para candidatos democratas (DP), fotos no Met Gala e representatividade de consumo misturada à distinção social, bem, elas caminham por aí. Não à toa, suas apresentações têm ocupado, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, o coração do mercado dos megaeventos de uma cidade como o Rio de Janeiro. Situações que, nos velhos idos das Jornadas de Junho, serviram de motivo para fazer as ruas tremerem.
Tomado esse arco de problemas de época, a personagem encarnada pelo império de Stefani Germanotta — uma norte-americana descendente de italianos, nascida em 1986 e, desde tenra idade, treinada em territórios férteis ao entretenimento —, particularmente guarda muito a dizer. Difundida como produto global a partir de 2008 — sim, o mesmo ano da propalada crise do subprime, a qual, de choque em choque, não saímos até hoje — sob o pseudônimo de Lady Gaga, seus números atingiram e atingem patamares recordes em diversas entradas, posicionando-se extraordinariamente bem no mar revolto de uma transição que resultou, sim, hoje sabemos, no capitalismo de vigilância das big techs — o que rende assunto às pencas. Nesse ínterim, importa sublinhar, para o momento, que parte fulcral da estratégia de marketing que a sustentou, em seus primeiros cinco anos, funcionou graças a uma aposta performática: agitação turbilhonar em tempo integral. Transbordando o trivial, uma captura da atenção, de corações e retinas.
Para tanto, toma-lhe rebranding da dance music com banhos de audiovisual conceituais. Toma-lhe disposição para ficar em posse da moda de seu tempo. Toma-lhe domínio do choque como chamariz para imprensa. Toma-lhe performances nos salões e nos palcos para simular um encontro total entre entretenimento e vida. Noves fora a citação indiscreta a Maria Conceição Tavares, visualizamos aqui estratégias de eficácia de mãos dadas a uma certa inflação de conceito. Aludindo a Warhol, Madonna e Bowie, as tais jogadas, fermentadas pelas elucubrações da Haus of Gaga, think tank/ personal training, criaram uma ponte duradoura, nunca antes vista nesta escala, entre o topo da indústria fonográfica e a alta corte da indústria da moda — em que pesem precedentes como os de Madonna, por exemplo. Dimensão restauradora pós-espetacular, esse caminho guarda afinidades incômodas e mais discretas: a degeneração inaugural de Salvador Dalí, que terminou de costear o alambrado do movimento surrealista dando os braços a Walt Disney e lançando perfumes. Ou o clima geral do futurismo italiano, com as suas peripécias apoteóticas ao establishment, convulsas. Ou, enfim, Richard Wagner e seu conceito pré-multimídia de obra de arte total. De um modo como de outro, o domínio da inovação e as palavras repetidas. “As vantagens e desvantagens que os conhecedores discutem servem apenas para perpetuar a ilusão da concorrência e da possibilidade de escolha”, dizem Adorno e Horkheimer no capítulo sobre o oxímoro indústria cultural.
Mas, então, frente a isso, o que ela nos diz ao seu tempo? Em meio ao consumo generalizado de tantos produtos que levaram consigo a assinatura de Gaga, uma série deles, dos mais interessantes, oferece bons indícios de resposta. Praticamente despercebidos no Brasil, falamos nos sete textos autorais escritos por ela em forma de “memorandos”, entre 2011 e 2012, para a V Magazine: uma coluna bimensal que simula, como gênero, notas de escritório — os memorandos são um modo típico e veloz, burocrático, de comunicação interna das empresas — endereçadas a Stephen Gan, fundador-chefe da revista. Todas elas se ancoraram a temas específicos, embora passeiem ao sabor da volubilidade de um narrador machadiano. Vistas sucessivamente, temos uma sequência de assuntos que rendem à caracterização da época: as artimanhas autoriais da cultura glam, a vida como espetacularização em tempo integral, o declínio dos críticos, experimentações de gênero, agregação pessoal de valor colhida ao establishment da moda, uma ode à competição e self-care com unhas bem-feitas.
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| Edição 71 da V Magazine. Fonte: V Magazine |
O Memorandum No. 1, publicado em maio de 2011, é um dos textos mais longos da coleção, ocupa duas laudas e se chama “Piet Mondrian & library cards”. Ele começa convocando ao seu território narrativo intersecções entre cultura glam e práticas de pesquisa. “Glam culture is ultimately rooted in obsession, and those of us who are truly devoted and loyal to the lifestyle of glamour are masters of its history. Or, to put it more elegantly, we are librarians.” O sentido dessa prática, o texto propõe, está na relação intrínseca da curadoria para o glamour e o cultivo da liberdade/ dignidade pessoal: desejo de invenção pessoal no passado e colheita da inventividade no presente. Diante disso, Pierre Mondrian é chamado à roda devido ao debate sobre apropriacionismo e plágio inventivo, desencadeado pela estampa de Yves Saint Laurent. “Where Yves Saint Laurent designed the ‘Mondrian’ day dress for fashion week Fall/Winter 1965, did he plagiarize or revolutionize?”. Rotas do capitalismo flexível. Somadas a essas tendências, ao menos outras duas servem de sustentação do texto. A primeira, uma forçada de mão ao se dizer, de fora para dentro e não de dentro para fora, autoridade no assunto: “I have a passionate understanding of the history of many of the references that not only I have reinspired, but have been reinterpreted over centuries of fashion: where they came from, what they meant, and specifically how they became modern again.” Enquanto a segunda é o esboço de uma linhagem íntima — na qual se liquidificam nomes como Marc Bolan, Jerry Hall, Isabella Blow, Michael Jackson, Prince, Lita Ford, Madonna, Mugler, Cindy Crawford, Kermit, Francis Bacon, Salvador Dalí, Warhol, Marilyn Monroe e Maripol, enfim, o puro suco de um establishment restauracionista como quadro referencial. No mais, o texto termina em clima de anúncio publicitário, celebrando o triunfo comercial de “Born this way” (2011) como irradiação de autenticidade. Nessa senda, vale mencionar de raspão o encontro com Rico, o Zombie Boy, para as gravações do videoclipe, “Rico in this case was my Mondrian”, e o diálogo, nas entrelinhas, com a acusação de plágio de “Express yourself”, da Madonna.
O Memorandum No. 2, escrito em julho de 2011, repõe no título os versos: “I don't speak german but I can if you like”. O texto é mais curto, com uma lauda. Porém, considerando a série, dos mais significativos: “Art is a lie. And every day I kill to make it true” são as duas primeiras frases que ecoam de cara as más companhias de Filippo Marinetti e Joseph Goebbels. O que se segue daí se desenvolve na mesma toada: “It is my destiny to exist halfway between reality and fantasy at all times. They call me ‘theatrical’, but I posit profusely that I am theatre, and that theatre is me. I am a show with no intermission.” A caracterização dessa agitação turbilhonar, parte do seu destino, timbra perfeitamente com o terceiro grau do fetichismo: o espetáculo. Porém, a percepção dos seus contornos não se presta ali, por óbvio, a uma negação, mas ao horizonte de proveito associado, derrubando, em servidão a ele, fronteiras. “You must desire the reality of fantasy so profusely that it becomes necessity, not accessory.” Por falar em acessórios, o texto eleva os adereços de roupa à condição de órgãos, dada a sua função mágica na composição que agrega valor autoral à identidade: “I know not the difference between the hair that grows from my head and the teal wigs that grow from my imagination. They are the same.” Semântica religiosa que termina em devoção total. “In this lies one of many books in the Bible of Fashion: in order for the FANTASY OF YOU to become the REALITY OF YOU, you must commit to the fantasy as wholeheartedly as you commit to your humanness. Wear out your vision. Proclaim your mission. Amen, Fashion!” Ou uma mentira contada mil vezes... Com isso, uma interpretação possível do título-verso poderia ser “moda como terrorismo kitsch”.
O Memorandum No. 3, “Extreme critic fundamentalism”, publicado em setembro de 2011, retorna às duas laudas. Apontando as suas armas contra a crítica, ele se apresenta com uma pergunta: “Doesn’t the integrity of the critic become compromised when their writings are consistently plagued with negativity?”. Se lidas à sombra do memorando anterior, as visadas ganham camadas. Para a narradora, é lícito ao artista ser o fundamentalista da própria fantasia. Todavia, ao crítico caberia fiscalização. “I’m going to propose a term to describe this movement in critical journalism: Extreme Critic Fundamentalism. I define this term as instilling fear in the hopes and dreams of young inventors in order to establish an echelon of tastemakers.” No entanto, a mira tinha um alvo certo: a crítica de moda Cathy Horyn, então colunista do NYTimes, que havia reprovado Donatella Versace pela sua participação no videoclipe de “Edge of Glory”. O cruel é que, mirando numa coisa, ela acerta noutra. O território narrativo pressente os sintomas da falência dos especialistas, apontando aos novos processos de legitimação da opinião pública nas dinâmicas em rede. “In the age of the Internet, when collections and performances are so accessible to the public and anyone can post a review on Facebook or Twitter, shouldn’t columnists and reviewers, such as Cathy Horyn, employ a more modern and forward approach to criticism, one that separates them from the average individual at home on their laptop? The public is certainly not stupid, and as Twitter queen, I can testify that the range of artistic and brilliant intellectuals I hear from on a daily basis is staggering and inspiring. In the year 2011, everyone is posting reviews.” À época, Lady Gaga possuía o perfil com mais seguidores do antigo Twitter.
O Memorandum No. 4, “Remodeling the model”, publicado em novembro de 2011, em duas laudas e em formato de diário, dá notícias, do processo criativo em torno de Jo Calderone, seu estudo de manipulação de gênero, cuja performance se fez presente em fotografias (com Nick Knight), apresentação ao vivo e videoclipe. “Given the nature of this V Magazine issue, an exploration of ‘the model’, I felt it appropriate to investigate, in diary form, how the past few months of my work have been a deliberate attack on the ‘idea’ of the ‘modern model’, or, in my case, the ‘modern pop singer.’ How can we remodel the model? In a culture that attempts to quantify beauty with a visual paradigm and almost mathematical standard, how can we fuck with the malleable minds of onlookers and shift the world’s perspective on what’s beautiful? I asked myself this question. And the answer? Drag.” De performance em performance, a ruptura com as expectativas de gênero romperia um patamar inexplorado na sua modulação da própria imagem. “So I reasoned, how could remodeling my current image ignite a statement or revelation about me as an artist? What is the new model of the performer and how can I push the boundaries? The answer was that Jo would not just make a statement about me as a performer, but would reveal things about me as a woman”. Para a narradora, transicionar como parte desse conceito deveria expô-la a partir de ângulos novos, revelando-a de si para si, colocando, supostamente, o personagem para dar voz às suas fragilidades íntimas a partir da exposição de tópicos sensíveis aos seus relacionamentos.
O Memorandum No. 5, publicado em janeiro de 2012, é o mais curto da série e se chama “Notes from designers”. Ele agrega valor à marca ao aglutinar depoimentos de nomes consagrados no mundo da moda sobre Lady Gaga. O primeiro deles é Giorgio Armani: “I was attracted by her genuine interest In fashion and design, which she projects with a conviction that knows no limits-and which she definitely considers a vital ingredient of her career.” O segundo é Manish Arora: “Daring, far beyond fashion and beauty, Gaga’s style is unpredictable, iconoclastic yet iconic and out of time. She is now and tomorrow, between fantasy and reality… she is a statement of re-creation, a piece of art.” O terceiro é Karl Lagerfeld: “Gaga gives the world her music and her talent, but the thing I like most is that she fights against boredom and banality. She also puts forth an ever-changing, inspiring, and strong image – an image beyond fashion. She is an extreme concentrate of ‘zeitgeist,’ freeing us from the heavy boredom of publicly displayed political correctness by being herself more than politically correct”. Tomados juntos, moda epilética e transgressão pró-sistema dissolvem as fronteiras entre o real e a fantasia, em posse dos processos que controlam movimentações de valor.
O Memorandum No. 6, “More pearls, please”, foi publicado em março de 2012. Ele ocupa duas laudas e é dos maiores da série. De certo modo, uma despedida da coluna, dado que o próximo memorando surge como um bis. Inserido em uma edição sobre esportes, ele se esforça em aproximá-lo da música pop, explorando a temática da competição e das metas de alto desempenho para se manter no topo. No centro desse território narrativo, a noção de jogo. Imodestamente, o texto sugere: “So, ladies and gentlemen, V readers, this is a theory on competition. The integrity of ambition.” Após uma anedota sobre sua condição de torcedora do Bronx, a narrativa se desloca ao momento em que a narradora decide se presentear com um colar de pérolas Mikimoto, a título de coroar as vitórias daquele ano. Enquanto a trama se tece, uma curiosa aproximação surreal: as pérolas se equiparam, dentro e fora do colar, às bolas de um jogo de beisebol, inspiração supostamente oriunda do filme Moneyball (2011). “I suddenly imagined that my pearls were teeny-tiny baseballs. When a player hits a home run, the baseball is flung into an abyss of enigma and screams so great. It travels so far that only rarely is one caught in the bleachers. Where do these balls go? Where do all these wins get encased? Are they in a heavenly baseball land floating around for players who pass to acknowledge? Or do they disappear?” Aqui, aparecem dissociados os efeitos de exposição pública dos interesses materiais de produção do evento. Fantasia & realidade. Para ela, entre um e outro, o que importa para valer é o controle das regras do jogo: “By the end of the film, we discover the truth about winning from our hero. It only matters if you’ve changed the game. Being kicked in the teeth is par for the course for this kind of win, a win that not only pisses off the team you’ve beat, but every other team, their coaches, owners, and even some of the greatest baseball players of all time. You’ve made your own set of rules and gone so far on your own talent, no one can possibly crack the truth behind your wins. You were either lucky or were cheating. Nobody likes the game that they’ve won over and over again to change.” Dominar o controle do que é estável e do que não é, eis a questão, a nervura da teorização anunciada. “How can I change the game, until 30 years goes by and someone changes it again?”
Por fim, Memorandum No. 7, “The beauty files”, foi publicado em agosto de 2012. Ele é o mais curto. Ele se dirige às mulheres e conversa sobre os cuidados com a autoestima ao se fazer as unhas. “I find that any Woman — no matter how stylishly she is dressed — is instantly above the rest if well-manicured. I know this may sound harsh, but perhaps if I beat it into you, you will CUT THOSE CUTICLES. TAKE the time for yourself, do it more frequently, just to stay in a nice self-compassionate habit.” Após conversar com a leitora sobre o cultivo desse hábito na esfera íntima dos momentos de descanso, a narradora enumera vantagens para os momentos performáticos: “Six reasons you should do this: 1) Having a perfect manicure instantly makes you feel beautiful and clean. 2) You’ll be ready for sex or to put a penis in your hand. 3) It’s a way for you to express yourself (careful how you do that). 4) It forces you to see the importance of making time for yourself. 5) It boosts your self-esteem every day. 6) It projects an image of success, which is good for biz.” Além disso, o pequeno comentário vem acompanhado da foto da mão da narradora com as suas cinco unhas pintadas de modos diferentes, apresentando possibilidades aos leitores da revista se orientarem. Vendido o peixe, é bom não se esquecer que Germanotta tem a sua própria empresa de cosméticos, a Haus Labs.
Vistas em conjunto, as sete peças da série Memorandum da V Magazine montam um sistema curioso de caracterização de referências cruzadas do establishment: no dia seguinte ao fim da arte, ou aos desdobramentos do regime espetacular integrado se assim quisermos, indústria da moda, indústria fonográfica, indústria de esportes, todos na busca desesperada pelo alto desempenho da dignidade gloriosa, atenção, distinção, buscam as suas brechas entre acotoveladas e discursos sociais, aproximações e exclusões, compartilhamentos e segredos. Mais, tudo está ao alcance asséptico das prateleiras: a história da arte, os conceitos, a invenção pessoal, qualquer desiderato de dentro capaz de virar ao avesso o mundo de fora. Declarações brandas, íntimas, hipócritas, de guerra. O problema, por evidente que seja, não está nas expressões individuais de desejo. Mas no que eles se lastreiam: a maré convulsa do reconhecimento em uma sociedade de crises cumulativas e irresolutas, famoso barco afundando que insiste em tomar como principal providência separar toda a sorte de cadeiras VIP — Very Important Person. No subterrâneo, enquanto fantasias de potência eram comunicadas no plano comum da linguagem pelo sonho americano do neoliberalismo progressista, as classes dominantes lavaram as mãos enquanto os Estados Unidos, como potência, testemunha o seu declínio, perdendo o controle, desrecalcado ao obsceno. Assim, se a cultura do glamour insiste em sorrir enquanto morre, ouve-se, ao fundo, Kafka:
“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo de qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.
— O que aconteceu comigo? — pensou.”


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