O Sêneca de Paul Veyne

Por Afonso Junior




Paul Veyne (1930–2022) foi um historiador fundamental do século XX. Graças a ele, desfizeram-se muitos preconceitos arraigados contra Roma. Uma das contribuições importantes de seu método é a ideia de intriga, ou seja, o modo como a história é, afinal, narrada de forma a ordenar fatos coerentemente, uma ruptura com o positivismo que pensava serem os documentos um retrato fiel de uma História absoluta. 

Portanto, é um privilégio para nós termos uma leitura de Sêneca (disponível em português e relativamente acessível) realizada por tão dedicado estudioso da Antiguidade. Graças a um esforço coletivo de intelectuais do século passado, como Émile Bréhier (1876-1952), com seu A teoria dos incorporais no estoicismo antigo (1908), que influenciou Gilles Deleuze, Michel Foucault e Jacques Derrida, o estoicismo é despido da leviana crítica de “materialismo” ou “platonismo achatado” da crítica do século XIX, ainda muito cristã e aristotélica. 

O livro de Veyne (publicado na França em 1993) se divide em três campos: um bastante biográfico, que vai até o ano de 63 d. C., outro tratando das relações do filósofo com a escola estoica, e um epílogo com reflexões sobre a morte do seu personagem, no palco sangrento da tirania de Nero. Quando incorpora a tortura e os suplícios ao contexto em que Sêneca fala da morte, quando coloca a biografia do cordovês dentro dos impérios de Tibério, Calígula, Cláudio e Nero, temos uma ampliação do panorama e evitamos cair na abstração que pode rondar o estudo das ideias. 

A primeira parte merece destaque, por colocar claramente a família Júlio-claudiana como uma facção que se apoderara do Estado, em um teatro no qual os senadores pareciam oferecer o poder ao monarca de fato, contanto que afetassem seus pares. Sêneca recebe o indulto para retornar a Roma depois de ser exilado por Claudio na Córsega (41–49 d.C.) por sua celebridade literária e pela intervenção de uma mulher ambiciosa, Agripina, que precisa colocar seu filho Nero na sucessão imperial (Britânico era o favorito, filho biológico de Cláudio). 

“Na rua do Argileto, nos livreiros que expunham as últimas publicações, era possível adquirir a Constância do sábio, depois Sobre a tranquilidade da alma”... Sêneca se tornará tão rico que seu patrimônio será 1/5 do PIB de todo o império. Ao analisar a história econômica do período, Veyne defende o pensador da acusação moralista de que parece ter mais do que os estoicos viam como necessário. 

Mas, então, o historiador começa a abordar o estoicismo. Antes de mais nada, seria preciso observar que, apesar de nomear-se estoico, Sêneca está evidentemente bastante atualizado quanto à moda platônica da época e vive uma espécie de estoicismo platonizante, no qual o dogma de que “a virtude se basta” convive com o esforço pela autocontenção, a perseverança para fugir dos vícios, que trai uma tensão entre as diversas partes da alma, típica do platonismo. 

Sutilezas como estas exigem que se busque ver a doutrina (neste caso, muito variada dependendo do autor) o mais próximo possível de seus próprios objetivos. Crisipo, o segundo líder da escola, está mais ligado à física ainda muito influenciada pelos pré-socráticos (portanto, à unidade do todo, e a uma alma inteiramente inteligente), em especial Heráclito; muito diferente é o cosmopolitismo de Roma, para quem Sócrates, Pitágoras, Epicuro, Aristóteles, os céticos, os acadêmicos céticos, Virgílio, Homero, magos, adivinhos e astrólogos, todos são discursos que circulam entre as mentes eruditas. 

Vejamos o caso da escravidão: Veyne critica os estoicos por, na prática, manter o status quo que Platão e Aristóteles defendiam apenas acrescentando que o escravizado era um ser soberano e estava preso ao amo por um “contrato perpétuo”. Mas, afirmando o caráter antinatural da escravidão, Crisipo não mudou apenas uma nomenclatura, estabeleceu novos princípios. Zenão inverteu completamente a República platônica, com uma igualdade natural, mesmo sob o domínio das monarquias surgidas após a morte de Alexandre, o Grande. Seria injusto exigir que visse as coisas sob o ponto de vista da Revolução Francesa, assim como subestimar o papel de ideias abstratas que preparam revoluções posteriores. 

Muitas vezes, o historiador se baseia em frases antigas da escola, apontando a contradição ou artificialismo delas, sem a boa vontade necessária para entender sua lógica própria. “Os estoicos não têm convicções e seu único conteúdo é uma ideia empobrecida de eu e uma ideia demasiado genérica de mundo”. Uma das críticas constantes é a de que o filósofo, se apenas precisa da virtude para ter a felicidade, acaba isolado em um palácio vazio, negando as coisas que constituem a vida humana. Outra crítica seria a de reduzir a política a uma moral da autodisciplina. 

Se não partirmos das estruturas de pensamento da época, de sua “con-textura” e metas ético-políticas, podemos esquecer que também nós somos contraditórios e escondemos estas contradições de acordo com as táticas e alvos que escolhemos. “Todo afeto é um julgamento que se ignora”. Esta afirmação, por exemplo, nega a virada platonizante que Panécio e Posidônio dão no pensamento estoico quando ele vai penetrando em Roma, terra de políticos e onde a eloquência era uma estrada para o sucesso público. Na pressa de criar um panorama claro, Veyne cita, por exemplo, os pitagóricos presentes na formação de Sêneca, e o valor iniciático das filosofias heterogêneas da época, mas vê o filósofo como preso a um “monolítico estoicismo”. Em Sobre a ira, temos um Sêneca que incita o autocontrole, como de modo geral nas cartas, parecendo ser a razão absoluta, mas em outros textos a parte irracional da alma ganha um poder terrível, como nas tragédias.

A leitura vasta dos fragmentos estoicos, as relevantes comparações com textos de Platão, Cícero e outros, as minuciosas notas de rodapé não disfarçam a impaciência. Se não deixa de ser relevante termos um certo distanciamento do objeto estudado de modo a evitar transformar o estoicismo antigo num reflexo de nossos desejos, a ironia constante acaba por reduzir o exercício estoico a construção de uma fortaleza interior semelhante a um exílio. Se assim procedermos, pouco mais tiraremos de Freud do que um incentivo à prática sexual, ou de Kant, uma moral do dever digna de uma educação repressiva etc. 

“Atribui-se gratuitamente ao estoicismo o progresso da moralidade política do Império Romano, percepção social, preocupação com os humildes, igualdade de todos os homens perante a Lei universal; se uma filosofia foi capaz de moralizar a dominação romana, dizem, foi de fato ela, pois nenhuma foi mais nobre”. Porém, afirmar que nada em Sêneca prenuncia o humanismo do século seguinte (o segundo século) é negar sua profunda reflexão quanto à escravidão, por exemplo. Seriam “preocupações [humanistas] que nenhuma linha de Sêneca prenuncia”. 

Dito isto, muitas colocações interessantes são feitas: por exemplo, a de que antes do fim do século XIX, a Natureza era vista como uma força apenas positiva, ninguém, como Arthur Schopenhauer, a veria como uma “vontade cega”. Ou quando comenta sobre os cinco anos entre a “coroação” de Nero (em 54 d. C.) e sua loucura desatada: anos de boa administração, junto com o chefe da guarda pretoriana Sexto Afrânio Burro, passados entre “despachar assuntos de rotina e nomear funcionários”. Em 59, Nero manda degolar sua mãe, e “apodera-se como soberano do espaço público” (algo não tão distante de nossa experiência). 

Ao escrever a sua carta de número 70 a Lucílio, comentada no final do livro, Sêneca teria o suplício como pano de fundo para suas indagações sobre o suicídio. Entre o dever com a coisa pública e a autonomia estoica, usa a palavra “tirano” oito vezes em suas cartas, o que, aqui, teria “o efeito de uma bomba”. As cartas seriam “um protesto mudo”, uma “estratégia adaptativa ao despotismo reinante”. Como se vê, muitos insights interessantes. 

Para entender o estoicismo em toda sua diversidade, sutileza e impacto, porém, seria preciso recorrer a outras fontes e com outras lentes. O estoicismo transformado em uma filosofia “racionalista” segundo nossos critérios, apaga tudo que há de estranho na Antiguidade, e entrega esta doutrina a apropriações perversas, como à “resistência” que uma sociedade capitalista (e patriarcal) deseja. Nem mesmo um historiador atento à mentalidade da época está livre de julgamentos apressados quando percorre terras distantes. Veyne tece uma narrativa rica e complexa, nos expõe informações valiosas e cenários instigantes, ainda que carregue na ironia e na crítica; sua intenção de unir história e filosofia é louvável; sua criação não é de todo precisa, mas é um começo para outras aventuras; afinal, nenhuma história é completa, nem mesmo a mais livre e cínica pesquisa de um grande historiador. 


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Sêneca e o estoicismo
Paul Veyne
André Telles (Trad.)
Três Estrelas, 2015
280 p. 

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