Voyeurismo no divã, os contos de Alberto Moravia

Por Felipe Vieira de Almeida 


Alberto Moravia. Foto: Ulf Andersen. Reprodução da Rádio France.


Alberto Moravia foi um escritor e jornalista italiano de origem judaica nascido em 1907 cuja obra literária, iniciada ainda quando jovem e publicada às próprias custas, trouxe-lhe, entre outros dissabores, a perseguição do regime fascista em seu país. 

Crítico contundente da família tradicional burguesa romana, Moravia precisou usar pseudônimos para continuar trabalhando como jornalista e posteriormente, então casado com a escritora Elsa Morante, chegou a fugir do regime se abrigando entre camponeses no interior da Itália. 

Freud, Marx e Sade foram influências importantes na formação da sua trajetória intelectual e transparecem na abordagem irredutível da torpeza de setores da sua sociedade à época do regime fascista e mesmo durante a Guerra Fria.

A coisa e outros contos passou a fazer parte, em 2024, da Coleção Sete Chaves, curada pela crítica literária Eliane Robert Moraes e editada pela Carambaia; a nova tradução é assinada por Maurício Santana Dias. A primeira edição brasileira do livro saiu apenas três anos depois da italiana com tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas para a Difel/ Círculo do livro.

Reconhecido como literatura erótica, os catorze de Moravia pisa também territórios adjacentes e é mais rico por isso, como em geral ocorre com os textos que se propõem a esse gênero. O próprio autor chegou a declarar que parte de seu trabalho era olhar a sociedade italiana pela ótica do sexo e esse projeto se mostra em plena execução com esse livro. 

O ordenamento dos contos parece apontar para uma ampliação do campo erótico: enquanto as primeiras histórias focam intensamente em um erotismo mais desbragado, ao longo do livro o escopo da narrativa se abre para sutilezas menores que andam junto do sexo e, em questão de erotismo, são até mais importantes que a própria atividade sexual.

O mencionado interesse de Moravia pela psicanálise rende alguns dos contos mais interessantes da coletânea. São textos como O cinto e As mãos em volta do pescoço cujos títulos já introduzem o cerne erótico da narrativa sem, no entanto, darem conta do aspecto psicológico que se desenvolve entre os personagens. 

No segundo conto, por exemplo, uma mulher nota que as mãos do atual parceiro não são grandes o bastante para uma esganadura completa, ao contrário das mãos maiores de um antigo amante que davam conta de se fechar ao redor de seu pescoço, um motor simples, mas trabalhado com maestria por Moravia.

A coletânea também não foge da tradição transgressora da literatura erótica a qual o escritor se subscreve: como leitor da obra do Marquês de Sade, por exemplo. Essa lealdade vai às claras em contos que beiram a fantasia devido à enormidade dos eventos sexuais ou pela complexidade surreal com que a história se desenvolve através de coincidências, encontros e desencontros que servem a narrativa sem escrúpulos de realidade. 

Há quem critique A coisa e outros contos justamente pelos excessos, ora alegóricos, ora descritivos, argumento que se não está errado também não é o bastante tirar a força desse livro.

Falei de sutilezas menores porque em diversos contos Moravia vai além do sexo, grassando no que hoje chamaríamos de expectativas de gênero com uma litania de homens e mulheres cujo desejo só raramente se realiza, submetidos à posição do voyeur de onde maquinam neuroticamente métodos, fantasias e esquemas que nem sempre atuam no sentido de avançar a atividade sexual.

Publicado originalmente em 1983, muito do estilo e dos temas do conjunto de contos mantém vitalidade como se escritos ontem. A literatura de Moravia em neste livro nos permite espiar pelo buraco da fechadura a estranha intimidade de personagens excessivamente familiares a todos nós.










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A coisa e outros contos
Alberto Moravia
Maurício Santana Dias (Trad.)
Carambaia, 2024

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