A crise dos filmes de super-heróis

Por Michel Goulart da Silva




Depois de anos seguidos com grandes bilheterias e elogios por parte da crítica, os filmes de super-heróis inspirados em histórias em quadrinhos parecem ter perdido força. Os poucos filmes lançados no período recente foram recebidos com menos entusiasmo ou mesmo foram duramente criticados, como ocorreu com Aquaman e o Reino Perdido, As Marvels e Madame Teia. Os mais recentes Superman e Supergirl tiveram uma melhor recepção, ainda que longe do auge de outras épocas do gênero.

Essa crise pode ser explicada pelo esgotamento comercial desses filmes e pela dificuldade das grandes produtoras em se renovar. Se no começo da franquia Vingadores ou do Universo DC ainda havia espaço para alguma criatividade em suas produções, depois de dezenas de filmes e alguns anos o que se tem são apenas histórias que se repetem até mesmo na forma: o super-herói ou alguém de seu núcleo de pessoas próximas comete algum erro e a história do filme se centra na busca por tentar resolver esse problema.

Com raras exceções, boa parte dos filmes de super-heróis produzidos no período recente também apresentam o mesmo tema. Fica, então, a sensação de que, caso alguém pensasse poucos segundos antes de cometer algum erro primário — como Peter atrapalhando o feitiço do Doutor Estranho ou T'Challa aceitando o desafio do primo ou Tony Stark criando Ultron, entre outros exemplos — sequer haveria algo para ser contado nesses filmes. Para piorar, é comum que a resolução de problemas simplórios se mostra também simplória. 

O acontecimento colocado como central, muitas vezes, é pouco para sustentar uma narrativa. Nos primeiros filmes dos universos compartilhados, quando ainda eram apresentados personagens novos e interessantes e havia outras histórias a serem contadas, era possível se distrair. Contudo, tanto tempo depois, o que o espectador consegue enxergar são histórias que se mostram tediosas mesmo que com outros personagens. 

Essa crise do gênero de filmes de super-heróis tem relação com a própria forma comercial que assumiu o cinema diante da dominação de Hollywood e não é exatamente inédita. Em outro momento, percebendo o sucesso dos filmes do gênero slasher, as grandes produtoras norte-americanas investiram à exaustão nessas histórias em que um assassino perseguia um grupo de jovens que se reúne para fazer sexo, se divertir e usar drogas. Não demorou para que o público se cansasse desses filmes, depois de sua repetição à exaustão, e esse produto comercial deixasse de ser algo válido para as grandes produtoras. 

Nesse processo, alguns cineastas perceberam a crise e começaram a fazer uma reflexão sobre o próprio trabalho, usando a metalinguagem, e disso surgiu, entre outras obras, a franquia Pânico, dirigida por Wes Craven. São filmes cheios de clichês que, criticados e problematizados, permitem tanto pensar a narrativa fílmica como mostrar possibilidades de soluções criativas.

Nas produções sobre super-heróis se percebe um processo semelhante, onde algumas obras fazem uma reflexão sobre os próprios filmes, representando a si mesmo de forma sarcástica. Os filmes da franquia Deadpool são o exemplo mais evidente disso. O filme mais recente protagonizado por Deadpool deveria marcar sua entrada no Universo Cinematográfico Marvel. Contudo, como se mostra no filme, as coisas não teriam saído como se planejou. Entre as diversas reflexões que o protagonista faz a esse fato, diz a Wolverine, também a ser introduzido no Universo Marvel, que ele “chegou numa fase ruim”.

Outro problema das histórias de super-heróis têm sido o fato de, diante de sua dificuldade em construir narrativas minimamente criativas, faz-se apelos forçados para versões antigas de super-heróis, usando a desculpa de um multiverso. O exemplo mais evidente foram o penúltimo filme do Homem-Aranha (2021), trazendo os dois atores anteriores, e a produção solo de Doutor Estranho (2022), embaralhando atores e personagens.

No mais recente filme da franquia Deadpool, não há apenas a referência à fase ruim do Universo Marvel, mas até mesmo uma crítica explícita ao multiverso. Em um filme que resgata versões abandonadas de super-heróis da Marvel, como Electra e Laura de Logan, o protagonista afirma que seria preciso parar “com o lance do multiverso. Não é legal. Foi só fracasso após fracasso, após fracasso”. 

Diferente da Marvel, a DC Comics, não conseguiu consolidar um universo compartilhado de filmes, e, por isso, acabou tendo muitos de seus maiores sucessos ou em obras que não dialogam com os demais filmes, como a trilogia de Batman dirigida por Christopher Nolan, ou em séries de televisão, em torno do chamado Universo Arrow. No caso das séries, qualquer possibilidade de multiverso foi pulverizada com o evento conhecido como “Crise nas Infinitas Terras”, exibidos na televisão entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020. Repetindo o que a própria DC fez nos quadrinhos entre 1985 e 1986, a história de seus super-heróis teve uma espécie de reiniciação em suas séries e se buscou pôr fim a suas várias cópias dos personagens em outros universos. Entre outras coisas, foi retomado brevemente personagens abandonados há bastante tempo, como o Flash de 1990. 

Essa crise das histórias de super-heróis não é um processo que se dá de forma linear nem tem explicações ou mesmo soluções simples. Como aconteceu com o cinema de horror, as autorreflexões que vão sendo feitas nas produções sobre super-heróis não são apenas uma expressão de crise. Elas se constituem também em uma tentativa de refletir sobre essas narrativas, compreender seus limites e, como principal aspecto, buscar mostrar possibilidades para que se possam encontrar novos e criativos caminhos.


* Michel Goulart da Silva é doutor em história pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e técnico-administrativo no Instituto Federal Catarinense (IFC).


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