De quantos ff se compõe o Brasil? – Notas sobre Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus
Por Amanda Fievet Marques

Publicado em 1960 pela editora Livraria Francisco Alves, o livro Quarto de despejo – Diário de uma favelada, da escritora Carolina Maria de Jesus, encontra ainda hoje seus leitores. Estes, recém-saídos da leitura de uma linha, de um parágrafo, de uma página, sentem-se subitamente tocados, tomados pela evidência da realidade da narradora, mulher, negra, mãe solteira de três filhos, favelada, catadora, que escreve sua vida pelas entradas do diário que lemos.
Há um canto que nasce das condições mais brutais, uma língua que se forma nos tremores e nas vertigens da fome, entre os odores do lixo onde a narradora-autora vai catar papel e o que comer. Como não há de comover o leitor? Comove. A música dos esfaimados, degradados, esquecidos pelo poder público, repudiados pelas elites, relegados à categoria de seres empestadores, ocultados nos quartos de despejo.
Supõem os desavisados que há de ser a língua de tal obra literária mera expressão espontânea das condições donde ela irrompe. Supõem que ela há de se constituir só dos desvios das convenções ortográficas e sintáticas. Presumem que ela há de ser um espectro automático de seu meio, uma confissão das mazelas sociais. Mas, em vez disso, a obra desautomatiza, complexifica, imbrica. Nela fala a narradora, mas falam muitas outras vozes. Lê-se sua história, mas também a história do Brasil República, de um país que caminha aos tropeções.
À língua da poetisa convém estender o ouvido. Contrariamente ao lugar-comum de que a escrita de Quarto de despejo seria simples, popular ou coloquial, uma escuta atenta revela muitas camadas. Há estratos que se entretecem. Ler, nesse caso, é também se espantar pelo choque constante entre traços provenientes de domínios distintos da língua. Até então apartados, aqui eles se reúnem a fim de constituir um retrato e um assombro. Traços de uma língua oral adquirida pelo ouvido se revelam pelos desvios ortográficos e de concordância verbal. Traços de um registro literário adquirido pela leitura, pelo cultivo de sua biblioteca pessoal, atestam-se pela utilização repetida da ênclise e por um vocabulário refinado.
Esse registro literário aparece desde a primeira entrada do diário, a de 15 de julho de 1955: “Ablui as crianças, aleitei-as e ablui-me e aleitei-me” (Jesus, 2007, p. 11). “Abluir-se” é latinismo para “lavar-se”. Além disso, a oração se compõe pelo paralelismo sintático, pelo polissíndeto e pela derivação semântica, já que a narradora utiliza o verbo “aleitar”, usualmente empregado como “amamentar”, no sentido de “deitar”. A oração demonstra também aspectos de uma língua que escapa à norma culta, como “ablui” sem o acento da primeira pessoa (“abluí”). Seria possível, inclusive, lançar-se a uma tentativa de sistematização dos efeitos híbridos entre oralidade e literariedade.
A escrita, o corpo da narradora-autora, cujas fronteiras são indistinguíveis, é sempre um corpo que interroga. Essa mulher que tem de buscar o que dar de comer aos seus filhos no lixo, ao contrário do que pensa ou não pensa a elite, é uma mulher que interroga a todo tempo. Para ela, o Brasil é um país governado por “políticos açambarcadores”, uma minoria endinheirada que desconhece a realidade do pobre e só governa para si. A prosa é lúcida a respeito das estratégias demagógicas utilizadas para engrolar o povo. Ela percebe claramente a hipocrisia da classe política, para quem os pobres só existem a título de curral eleitoral. Diante disso, a narradora realiza um diagnóstico das debilidades da democracia e atribui uma função à poesia: “O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os politicos fraquissimos. E tudo que está fraco, morre um dia. […] Os politicos* sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido” (p. 42).
É nessa configuração sociopolítica que a narrativa procede à distinção dos espaços em São Paulo. Uma alegoria doméstica da cidade, que atualiza a seu modo no espaço urbano e moderno a distinção de Freyre entre casa-grande e senzala, sobrados e mocambos. A cidade é a “sala de visita”, enquanto a favela é o “quarto de despejo”: “Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo” (p. 40).
O período se constrói sobre um paralelismo, cuja primeira parte se compõe pela afirmação de onde a narradora está – “…estou na cidade… estou na sala de visita…”; e, a segunda, pela predicação – “…sou um objeto fora de uso…”. Nota-se também que a oração procede à acumulação quando descreve a cidade enquanto sala e que todos os seus objetos de decoração são inseridos no texto com as marcas da oralidade, isto é, demarcando uma proveniência exterior àquele mundo de sofisticação onde se fala e se escreve um português escorreito. Seguindo a lógica do paralelismo, o leitor esperaria encontrar na metade restante do período a mesma repetição do “estar”, mas ele encontra a conversão em “ser”. Em lugar da enumeração faustuosa, ele encontra o esvaziamento predicativo. Um único qualificativo nomeia os preteridos ao “quarto de despejo”: o de serem objetos fora de uso.
Nesse caso, a topografia vira ontologia. A topografia vai além de uma mera forma de circunscrição do espaço. Ela acaba por definir aqueles seres, sua existência. Ela reparte os seres humanos entre os que são sujeitos e os que permanecem coisa: “eu tambem sou favelada. Sou rebotalho. Estou no quarto de despejo, e o que está no quarto de despejo ou queima-se ou joga-se no lixo” (p. 40). A normalização desse tratamento desumanizador prolonga por outros meios uma escravidão que a lei assume, no entanto, já ter sido extinta. A narradora já havia constatado algumas páginas antes a persistência desse estado de coisas, com a diferença de que os grilhões foram substituídos pela indigência, conforme atesta a entrada do dia 13 de maio de seu diário: “E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual — a fome!” (p. 34).
A fome é onipresente no texto. A tontura da fome é de outra sorte que a tontura do álcool: “A tontura do alcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer” (p. 47). A narradora organiza o mundo e a subjetividade em torno da fome. Sem comer ela é um esqueleto que treme e que vê o mundo todo em amarelo. Depois de comer, uma bucha de pão, uma batata, às vezes feijão, o mundo readquire suas cores, ela não treme mais: “Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as arvores, as aves tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos” (p. 47).
Vita flava. Espécie cultivada em solo nacional. No poema “Define a sua cidade”, Gregório de Matos grafava Bahia com dois ff: “De dous ff se compõe / esta cidade a meu ver / um furtar, outro foder” (Matos, 2019, p. 94). Atualizar o mote para definir o Brasil de Quarto de despejo exigiria acrescentar o terceiro f de fome.
* Sic. As citações reproduzem sempre o original, sem qualquer normalização
Referências
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo – Diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2007.
MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. Seleção, prefácio e notas de José Miguel Wisnik. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
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