Traduzi Marco Aurélio sem imaginar que os Red Pill viriam a ler

Por Felipe Vieira de Almeida





O que ainda me justifica escrever para a internet é o eventual contato com leitores que não conhecemos, o e-mail de um desconhecido, o compartilhamento em algum site novo, o encontro fortuito com um leitor na rua, esses sempre foram exemplos felizes de um esforço em geral ingrato. Mal lemos a boa literatura, resta pouca energia para textos despretensiosos online, mas a este espaço permite raros acasos que unem um escritor a um leitor improvável. Dito isso, conheci a tristeza de publicar na web ao reconhecer um público indesejado se abeirando do meu trabalho.

Cultivei desde muito cedo o hábito da leitura. Felizmente tive incentivos em casa, na escola e as possibilidades que os livros me ofereciam me arrebataram em uma jornada cujo ponto final só virá com a minha morte ou talvez nem assim. Quando saí de casa aos 19 anos para cursar o ensino superior na UNESP no interior de São Paulo, descobri que além do volume de leitura ao qual eu já vinha me dedicando intensamente havia um refinamento importante em termos de qualidade que estava além do meu horizonte até então. Livros teóricos, filosóficos e muitos dos grandes clássicos ainda me faltavam, como é de se esperar de um jovem brasileiro de classe média aos 20 anos de idade. 

Meu ímpeto foi o de passar horas na biblioteca tentando ler do início ao fim uma miríade de livros pesadíssimos, física e figurativamente, porém em pouco tempo eu constatei que dos gregos aos existencialistas, marxistas e pós-modernos haviam abismos que eu não conseguia transpor, eu teria que alcançar esses textos antes que eles realmente se abrissem para mim.

Ainda na mesma época consegui cópias dos currículos e bibliografias de alguns cursos de letras clássicas e filosofia de universidades estrangeiras e brasileiras. Lembro de ter usado a estrutura do currículo do St. John's College e criado um programa ao redor das leituras recomendadas por Cambridge — seria essa minha base clássica. Tive o privilégio de ter abandonado o curso universitário que pretendia fazer e me dediquei por mais de um ano exclusivamente a essa empreitada; dias consumidos por um ritmo de leitura que só um jovem ainda idealista é capaz de manter por meses a fio.

Morava a duas quadras do campus e ia diariamente à biblioteca. Alguns títulos clássicos que eu deveria ler não estavam disponíveis fisicamente e era raro encontrar traduções recentes e de qualidade, acabei recorrendo a versões estrangeiras pirateadas na internet, às vezes lia um mesmo autor grego, latino ou alemão a partir de versões em inglês ou espanhol. Por falta de opções, li o Épico de Gilgamesh em inglês; felizmente tive oportunidade de reparar essa indelicadeza com a tradução de Carlos Daudt de Oliveira. 

Aprendi rápido a importância de uma tradução bem feita. O esforço para atravessar um livro e a facilidade com que eu conseguia apreender seu conteúdo variavam de forma marcante entre uma e outra tradução do mesmo texto. Passei a dedicar mais tempo à escolha cuidadosa da tradução que usaria de cada obra prevista no meu planejamento e nunca mais deixei de enxergar em cada livro traduzido o trabalho de muitas mãos, ao ponto de esperar a publicação de um novo trabalho de algum tradutor que respeito com o mesmo interesse que dedico ao lançamento de escritores que acompanho.

Constatei ao longo da minha empreitada que textos de suporte eram necessários e me faltavam muitos rudimentos de história geral, complicações com as quais lidei conforme surgiram, devo admitir que sempre pecando mais pela praticidade do que pelo rigor técnico, decisão que me levantou dúvidas à época, mas que em retrospecto considero a escolha certa para o tipo de incursão heroica e, quase por consequência, juvenil que levava a cabo. 

Tentando extrair o melhor de minhas leituras, não foram poucas as vezes que me perdi na ideia de um checklist a consumir com voracidade e ao longo daquele ano confundi inúmeras vezes o fim do trajeto com o objetivo real. Percalços à parte, atribuo àquele ano o início da minha formação intelectual, inacabada e ainda em andamento como convém ser. Um ano de intensa dedicação que tive o privilégio de viver e a coragem de me submeter ao rigor e ao sacrifício que era exigido. Foi um processo movido por insatisfação, insegurança e alguma vaidade, entretanto, o rigor daquela rotina me ensinou que minhas aspirações eram um caminho não para fugir de quem eu não queria ser, mas um caminho em direção a mim mesmo, ainda que tímido, distante e em construção.

Entre as leituras clássicas dessa época passei pela experiência que em 2014 ainda não tinha se popularizado, li as Meditações de Marco Aurélio e como boa parte dos jovens que têm contato com os cadernos pessoais do imperador romano pela primeira vez, me vi diante de uma figura fascinante se expondo intimamente em uma sequência de pensamentos, máximas, exortações, lembranças e reprimendas que soam atemporais e até urgentes para um rapaz recém-saído da casa dos pais. 

Não foram poucos os livros dessa bibliografia que se tornaram recorrentes, mas Meditações em sua simplicidade e universalidade foi meu livro de cabeceira daquele período. Porém, o problema da tradução era gritante. No Brasil era difícil encontrar traduções, nenhuma delas em circulação. As poucas traduções em português que consegui eram antigas, talvez acadêmicas demais e de leitura pouco prazerosa, não que isso fosse necessariamente limitação dos tradutores. 

As meditações de Marco Aurélio eram cadernos pessoais que o imperador romano manteve ao longo de sua vida. A língua que ele usou era o Grego Koiné, dialeto preferido pela aristocracia romana para o estudo da filosofia que era considerada uma disciplina grega e estudada em grego. O Grego Koiné de Marco Aurélio é característico do uso intelectual romano e tem implicações importantes para o tradutor. Sentia-me limitado pelas opções à mão e as poucas traduções em inglês que consegui, úteis para o primeiro contato, também não me agradavam como leitura diária.

Minha recém-criada reverência por aquele texto me levou à temeridade de tentar traduzi-lo encontrando um meio termo entre a correção e o prazer de ler um livro que ainda falava comigo quase 2 mil anos depois de escrito. Às longas sessões de estudo e leitura incluí o cotejamento paciente de traduções diferentes em inglês e português. Ainda tenho os arquivos com o texto no grego original que me foi de pouca utilidade na tradução que eu preparava; eu não tinha acesso a ferramentas ou orientadores que me permitissem lidar com o original, tive que aceitar a limitação de trabalhar apenas em cima de outras traduções. 

Traduzir grosseiramente nunca é um problema, o desafio é saber onde se dar por vencido e onde continuar lapidando. Minha tradução das meditações, feita no calor da paixão pelo livro, teve todas as dores do crescimento. Foi a primeira vez que me dediquei a um projeto de tradução tão longo. O conjunto dos cadernos se manteve como as páginas mais pesquisadas e lidas do meu site onde os disponibilizei gratuitamente poucos anos depois. Desde então, recebi mensagens de outros leitores e em mais de uma ocasião fiquei feliz ao elogiarem o prazer de ler minha tradução. Entre os erros e simplificações produzi algo valioso para os meus.

A história de qualquer texto publicado não termina com o fim da escrita ou da tradução, a circulação de um texto pode incitar leituras que nem sequer eram possíveis à época da publicação e a obra de Marco Aurélio passou por uma ressurgência inesperada, mas quase previsível. Só na última década os brasileiros pesquisaram 7 vezes mais o termo estoicismo; nas redes sociais multiplicam-se páginas sobre o tema e há até aplicativos pagos para supostamente ajudar o usuário a colocar em prática esse sistema de ideias e o fenômeno é do tipo importação. Somos a reverberação de uma agitação global em torno do estoicismo.

Atribui-se o surgimento do estoicismo grego, entre outros fatores, à imposição de controle político macedônio sobre as pólis gregas. Com a perda da independência política e da autonomia regional, as esferas de deliberação caras à democracia grega perderam relevância. Se previamente a filosofia discutia a sociedade grega e a relação de seus cidadãos com os rumos políticos, agora se voltava ao indivíduo reduzido a sua intimidade por poderes superiores. Os estoicos estavam interessados em como viver sob estruturas de poder totalizantes contra as quais a agência individual perdia força. Nesse sentido, o paralelo com nossa realidade pode ser simplista, mas também é o bastante para apontar aspectos sedutores do estoicismo. Trata-se de uma filosofia que originalmente ensinava a viver sob condições de autoexpressão limitada e esvaziamento da ação política coletiva local.

“Para mim mesmo” é o título original do primeiro caderno e o conjunto da obra só viria a ser intitulado Meditações por edições posteriores. O imperador romano vivia em conflito com sua atividade intelectual: via a filosofia como um desvio de sua função, um luxo ao qual ele não podia se entregar. Dito isso, quem lê seus cadernos acompanha suas rendições à filosofia apesar das reprimendas que direcionava a si mesmo. O Marco Aurélio que não conseguia abandonar os livros e a filosofia, hoje é adotado por gurus motivacionais, empresas do Vale do Silício e influenciadores digitais; são recorrentes nas redes sociais páginas dedicadas a promover formas de masculinidade tradicional baseando-se em citações avulsas do livro. 

Há filósofos cujas ideias nos atraem pelo espelho invertido que nos oferecem. Ao longo dos cadernos Marco Aurélio admite suas limitações, medos e fracassos e destila seu aprendizado na tentativa de ser melhor sob o peso das demandas que o império romano depositava sobre ele. Os homens contemporâneos sofreram um deslocamento social importante em pouco tempo com a reorganização social em curso promovida pelas pautas feministas que buscam corrigir estruturas históricas de dominação e exploração das mulheres, além dos reflexos sobre a estrutura produtiva em conjunto com a precarização quase geral dos trabalhadores. 

Como consequência desse cenário há o uso instrumentalizado da filosofia estoica para manter psicologicamente operante uma sociedade baseada na exploração intensa do trabalho e no esmagamento das subjetividades pessoais com a diminuição das relações afetivas tradicionais e a ressignificação das redes de apoio através das redes sociais digitais. Soma-se a isso a receptividade generalizada a um discurso que promete controle de si à prova de qualquer cenário e estabilidade mental independente das vidas instáveis a que nos submetemos. Não podemos esquecer que outro estoico famoso foi um homem escravizado chamado Epicteto, o imperador e o escravo convergiram para a mesma filosofia, talvez como hoje convergem o trabalhador de aplicativo e o CEO de fintech.

A ressurgência de uma vertente filosófica, especialmente quando se trata de um fenômeno coletivo que alcança o público em geral, nunca é a retomada dos preceitos originais, nem pode sê-lo. Tanto a tradução quanto a prática filosófica são determinados historicamente, portanto, não é produtiva a preocupação purista de tentar ir às origens e resguardar em todas as minúcias o original. Uma obra se mantém relevante fora de sua época mais pela sua capacidade de se comunicar nos termos de outros tempos do que por sua inflexibilidade. Porém, há diferenças importantes entre o resgate e a cooptação de uma obra. Há um núcleo de um sistema de ideias que, se não for respeitado, se torna um indicativo maior de usurpação do que a própria embalagem moderna ou reedição dos textos.

Falar em usurpação traz questões difíceis. É possível questionar se a intenção original do autor importa e deve ser levada em consideração; também convém pensar se um sistema filosófico deve ser mantido sob a sombra de seus autores ou se as ideias que o compõem merecem independência. São questões em aberto, todavia, me parecem além do que aconteceu ao estoicismo. Não é preciso pensar tanto para enxergar o que há de insidioso e canhestro no movimento que trouxe sua recente popularidade. 

Um influenciador digital romeno famoso, atualmente preso nos Estados Unidos e indiciado na Romênia por uma longa lista de crimes que inclui estupro, tráfico sexual, sexo com menores de idade e lavagem de dinheiro é um dos expoentes da apropriação virtual banalizante da obra de Marco Aurélio. Seu discurso cita o texto para extrair conclusões incompatíveis com o espírito da filosofia estoica. Onde o estoicismo apregoa autocontrole e regulação emocional, o influencer lê esses trechos como uma defesa da supressão emocional, um problema já disseminado, especialmente entre os homens, e que é reforçado traiçoeiramente como sinal de autocontrole. Os influenciadores reduzem os trechos do livro ao extremo do irreconhecível para incutir ali o que lhes convém.

Marco Aurélio escreveu para si nos termos do estoicismo, conceitos que hoje podem ser lidos de forma desonesta pois são palavras que agora trazem muitas possibilidades interpretativas (virtude, sabedoria, dever, mente), porém têm um uso determinado nessa linha de pensamento e é nessa interpretação intencionalmente distorcida que reside a usurpação da filosofia. A má-fé aflora quando empregadores promovem Marco Aurélio para garantir a resiliência de seus subalternos à exploração, quando executivos se apoiam nesses textos para dar um verniz intelectual à função desumana de seu trabalho, quando figuras públicas esvaziam o patrimônio intelectual humano para usá-lo como vetor de toda sorte de torpeza, enfim, esses são os pontos limítrofes que separam a inspiração filosófica da mera traição a uma linha de pensamento.

O que resta ao tradutor quando aquilo que ele traduziu é cooptado por projetos nocivos e que não estavam no horizonte durante a tradução? Um autor já pode pouco, o tradutor ainda menos, principalmente quando se trata de obras em domínio público e tão antigas. O campo da tradução é um espaço em disputa, pesos e contrapesos manejados por autores, tradutores, editores e leitores. Muitas traduções das Meditações surgiram nos últimos anos, a demanda justifica a movimentação editorial, ainda assim, a composição do público leitor e o tipo de leitura que se tem feito em torno desse livro em tão pouco tempo me entristece. Cogitei remover minha tradução da internet, não porque eu acredite que isso faça grande diferença, mas para não ter o desprazer de ver meu trabalho que foi fomentado pela devoção à tradição escrita servir de fantoche para o desrespeito à dignidade humana. Me decidi pelo contrário, mantenho a obra em público, preciso acreditar que entre os acessos crescentes que meu texto recebe há aqueles que descobrirão o embuste em andamento.


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