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O escrito e o sugerido na obra de Katherine Mansfield

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Por Neiva Dutra Katherine Mansfield nasceu Kathleen Beauchamp Mansfield, em uma família com vigorosas ambições sociais. Sua mãe era delicada e distante e o pai um homem de negócios astuto e bem sucedido.  Seus primeiros anos escolares transcorreram em Karori, um povoado nas colinas, a poucas milhas de Wellington, onde nasceu. Aos onze anos retornou à cidade natal, frequentando um ginásio local e, posteriormente, uma escola particular. Em 1903 o pai, então diretor do Banco de Nova Zelândia, a enviou para a Inglaterra, para que estudasse em uma instituição dedicada à educação liberal das mulheres, para que Katherine recebesse uma formação metropolitana. Ali estudou música, francês e alemão e começou a escrever esboços e poemas em prosa. Na revista da escola publicou About Pat , sua primeira recriação da infância em Karori, escrito em uma linguagem direta e simples, assim como Die Einsame , impregnada por motivos de fin-de-siècle e com uma elaboração simbolista. ...

Hilda Hilst: a transgressão fundamental

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Por Neiva Dutra  "Ler é como pensar, como rezar, como falar com um amigo, como expor ideias, como ouvir música, como contemplar uma paisagem, como sair para dar um passeio pela praia..." estas palavras, do escritor chileno Roberto Bolaño, sintonizam perfeitamente com a apresentação de Hilda Hilst. A escritora brasileira, que nasceu em 21 de abril de 1930 e faleceu em 4 de fevereiro 2004, foi traduzida para o francês e o inglês desde a década de setenta, ao italiano e ao alemão desde a década de noventa, ao espanhol a partir de 2002. Viveu uma existência marcada pela emoção, a solidão e o amor, manifestando-se a favor da liberdade feminina em todos os âmbitos e no mais amplo sentido. Hilda Hilst é um dos protagonistas fundamentais da paisagem literária brasileira do século XX, com mais de quarenta livros escritos em verso, prosa poética, dramaturgia e crônica, publicados entre 1950 e 2003. É uma poetisa consciente de suas ações e de suas palavras; lúci...

As lições de Arthur Rimbaud

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Por Neiva Dutra Mais de um século após a sua morte, Arthur Rimbaud é uma figura que dificilmente poderá vir a ser determinada com precisão. Contentemo-nos, portanto, em saudar sua prodigiosa velocidade, sua existência literária que comprovou, em pouco tempo, que a poesia é possível. Depois de Rimbaud, nada novo, nada mais a dizer, nada além de um reinício, a partir da intensa energia e das agitadoras formas do poeta. Se há algo que possa descrever a obra de Arthur Rimbaud é a demonstração de que a linguagem da poesia é uma linguagem da qual participam os significados infinitos da palavra, a figuração e a identidade. Sua obra é puro movimento, trabalhada com uma generosa distribuição de significados e de novos sons. Através do seu discurso, alegre e rápido, passa uma força intensa, que pode ser lida literalmente e em todos os sentidos. Esta superabundância de encontros o poeta desvela em uma afirmativa: Vendem-se corpos sem preço, de qualquer raça, de qualquer mundo, de...

Charles Dickens, o escritor dos deserdados

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Por Neiva Dutra Charles Dickens nasceu em 7 de fevereiro de 1812, na Inglaterra da Revolução Industrial, em uma família que viveu constantes dificuldades econômicas.  Da infância dura a uma relativa prosperidade, das críticas ao reconhecimento, Dickens escreveu, sobretudo, sobre os deserdados.  Não foi o primeiro nem o único a fazê-lo, mas o que escreveu, quando e onde escreveu, demonstram a extraordinária força com que impôs sua visão da sociedade e das relações entre os homens e os motivos pelos quais a literatura universal o consagrou. Charles Dickens estudou até os dez anos e quando a família mudou-se de Portsmouth para Londres não voltou à escola. A irmã foi enviada para a Real Academia de Música, para estudar piano, e ele foi trabalhar em uma fábrica, voltando a estudar apenas anos mais tarde. A mãe, contudo, tentou por todos os meios fazer com que voltasse a trabalhar, o que ele jamais lhe perdoou. A experiência do menino Charles na fábrica ressurge...

Qorpo Santo: louco, gênio e um homem muito adiante do seu tempo

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Por Neiva Dutra Joaquim José de Campos Leão – Quorpo Santo – homem obcecado pela ideia da santidade, cuja vida foi um verdadeiro pesadelo, viveu entre 19 de abril de 1829 e 1º de maio de 1883. Na Vila do Triunfo, às margens do Rio Jacuí, no interior do Rio Grande do Sul, surgiu como um dos mais poderosos e criativos dramaturgos de meados do século XIX, um dos precursores do que mais tarde seria chamado de teatro do absurdo.  A descoberta de sua obra só ocorreu na década de sessenta do século passado, mas o resgate do seu valor é algo que ainda está para ser cumprido. Sua biografia se confunde com a sua produção literária. Em sua autobiografia, refere que aos três anos sofreu profundo choque moral, acreditando-se perseguido pelas autoridades provinciais. Sua insanidade mental foi atestada pela Justiça e, a partir do momento em que nomearam um curador, de tal forma sentiu-se desamparado que se voltou para dentro de si mesmo, refugiando-se na literatura. ...

A história dentro da história: a filosofia, a poesia e os símbolos do fenômeno Guimarães Rosa

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Por Neiva Dutra Guimarães Rosa com um exemplar de Sagarana . Itamaraty, Rio de Janeiro, 1964. Foto: David Drew Zing. Arquivo do Instituto Moreira Salles O papel fundamental de Guimarães Rosa foi o de revolucionar a literatura, renovando a prosa regionalista e apresentando-a sobre uma ótica universal. Seus textos exigem um leitor atento e preparado para lidar com sua linguagem particular e sua narrativa cheia de digressões, fluxos de consciência e recursos poéticos. A ortografia própria, divergente em muitos pontos da gramática oficial, a invenção linguística que abrange o nível semântico (significado), o sintático (combinação) e o fonológico (som), que descobre associações imprevistas entre as palavras e reproduz ruídos da natureza ainda não registrados revelam uma inventividade e uma genialidade que configuram um estilo sem precedentes na literatura brasileira. João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, no interior de Minas Gerais, em 27 de junho de 1908; "para ser...