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Mostrando postagens com o rótulo Ricardo Piglia

Ricardo Piglia e o que fazer com desprolixidade do real

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Por Flavio Lo Presti Ricardo Piglia. Foto: Divulgação de 327 Cuadernos .   Quando Ricardo Piglia escreveu Respiração artificial era um jovem desencantado, num contexto assustador. Ele havia abandonado a revista Los Libros , ganhava a vida ministrando cursos particulares e tentava pensar numa questão que aparece obsessivamente na textura do romance: como narrar acontecimentos reais? Ao seu redor, Rodolfo Walsh e Haroldo Conti haviam desaparecido, e um aparato de censura tão difuso quanto ameaçador, filtrava as produções culturais, obrigando as pessoas a escreverem sem assinatura, ou com nomes falsos. Essa experiência se combina com uma sensação registrada literalmente no romance ora citado: a de escrever “porcaria”, o fracasso diante do mandato (não destinado por ninguém além dele mesmo) de ser escritor.   Com essa sensação, uma imagem começou a se transformar no germe do romance que foi inicialmente intitulado com um verso de Jorge Luis Borges, A prolixidade do real : a de u...

O campus roman e o caminho de Piglia

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Por Luis Guillermo Ibarra Ricardo Piglia. Foto: García Adrasti   A esta altura, é difícil não reconhecer a existência de um campus roman como um subgênero literário. A presença de romances em que o tema e os cenários universitários se inserem no conteúdo da obra, fazem parte de uma tradição que já percorre várias gerações de narradores. A tentação de entrar na sala de aula, nos pensamentos sombrios dos pesquisadores, nas ambições e nas investidas acadêmicas, deram origem a obras magníficas. Como exemplo, poderíamos citar Pnin de Vladimir Nabokov, a saga do mestre Wilt de Tom Sharpe, A Literary Murder da escritora judia Batya Gur, Desonra de J. M. Coetzee, A marca humana de Philip Roth, Lucky Jim de David Lodge, ou A velocidade da luz de Javier Cercas, El tren de cristal José María Pérez Collados ou El temblor del héroe de Álvaro Pombo.   Essa lista é extensa e, sobretudo, abre um panorama de maior complexidade naqueles romances de escritores que tiveram experiência co...

Sobre a interpretação¹

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Por Ricardo Piglia Ricardo Piglia. Foto: Sebastián Rodeiro   O que significa interpretar um conto? Muitos chamaram a atenção para a maneira como Kafka lia A metamorfose em voz alta: o riso interrompia sua leitura. Por sua vez, na gravação de alguns fragmentos de Finnegans Wake , a voz de Joyce salta de uma consoante para outra, com um tom humorístico, meio circense, como se nos avisasse que se trata de um relato cômico.   Em seu romance Cicatrizes Saer interpreta — digamos — o conto “Exame da obra de Herbert Quain” de Borges. A história descreve o projeto de um romance “regressivo, ramificado” onde todas as alternativas possíveis de uma história são narradas simultaneamente. Embora, tanto quanto me lembro, os críticos não tenham notado essa relação, é claro que Saer se propôs a escrever essa ficção potencial. Os capítulos de Cicatrizes repetem o nome do romance de Quain (“Abril”, “Março”) e narram quatro desdobramentos possíveis — e simultâneos — de uma mesma trama, com sua...

Ricardo Piglia em busca do tempo perdido

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Por Patricio Pron Ricardo Piglia. Fotograma do documentário 327 Cuadernos , de Andrés Di Tella   “Gostaria de editar este diário em sequências que sigam as séries de acontecimentos”, escreve Ricardo Piglia: “todas as vezes que me encontrei com amigos em um bar, todas as vezes que fui visitar minha mãe. [...] Não uma situação despois da outra, senão uma situação igual a outra”. A doença degenerativa que foi diagnosticada três anos antes de sua morte em 2017 impediu o escritor argentino de dar forma a esta tentativa pereciana de esgotar a experiência; porém, alterar o que seu autor denomina “a causalidade cronológica” é um dos propósitos mais habitualmente repetidos ao longo de Los diarios de Emilio Renzi , cujo terceiro e último volume permite agora vislumbrar o que Piglia poderia ter feito com seus diários se tivesse obtido um adiamento da sentença: em sua segunda seção, “Un día en la vida” [“Um dia na vida”], o autor ordena as situações narradas ao longo de vários anos em u...

O leitor Ricardo Piglia: 12 escritores estadunidenses sob a lupa escritor argentino

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Por Patricio Zunini A última grande intervenção de Ricardo Piglia sobre o campo cultural e, certamente, sobre sua própria obra, foi a publicação de seus diários. Escritos ao longo de seis décadas, são textos para serem lidos como um romance de formação; o título do primeiro volume, aliás, indiretamente reforça essa compreensão – é Anos de formação . Entre debates políticos, ideias de contos, visitas à Bombonera, amores fracassados e experiências marginais, Piglia aparece, constante e tenaz, como um homem empenhado em ser um escritor. Mas, como se faz para que alguém se torne escritor? Talvez a resposta possa ser buscado pelo seu avesso. Piglia compreendeu ainda muito jovem, graças a uma conversa com Jorge Luis Borges, que escrever muda o modo de ler. Um escritor, disse, “quer ver como estão feitos os textos, ver se pode fazer algo parecido ou, no melhor dos casos, algo diferente”. O escritor, então, é, primeiro, um grande leitor, apaixonado pelos livros e pela leitura. ...

Ricardo Piglia

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Ricardo Piglia. Fotograma do documentário 327 cuadernos Ricardo Pigilia foi aquele menino que nasceu e cresceu na ausência da literatura mas tão logo aprendeu a ler quis ser escritor para encontrar o mecanismo capaz de lhe revelar a magia daquelas combinações de palavras que o arrebatavam deste mundo. O leitor e mais tarde crítico, editor, roteirista, professor de literatura e, sobretudo, escritor, nasceu em Androgué, província de Buenos Aires, no dia 24 de novembro de 1940. Viveu entre seu país natal, os Estados Unidos e a literatura, mas passou seus últimos dias na capital argentina por causa de uma esclerose lateral amiotrófica (ELA) que afetou seus músculos mas não deu fim à lucidez intelectual e criativa e, por isso trabalhou até quase o último momento de vida – Piglia morreu no dia 7 de janeiro de 2017. Desde sua estreia como escritor, por sua vez, em 1967 com o volume de contos A invasão , começou a receber o reconhecimento de seus colegas. Um livro onde aparece E...

Os artifícios da respiração narrativa de Ricardo Piglia

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Por Alfredo Monte «…Cada vez que pega uma nova rua, as vozes envelhecem, as palavras antigas estão como que gravadas nas paredes dos edifícios em ruínas. A mutação tomou conta das formas exteriores da realidade. ‘Aquilo que ainda não é define a arquitetura do mundo’, pensa o homem e desce à praia que circunda a baía’. Vê-se, ali, à beira da linguagem, como a casa da infância na memória’»…  Ricardo Piglia,  A cidade ausente 1 «Todos queremos, le digo, tener aventuras. Renzo me dijo que estaba convencido de que ya no existían ni las experiências, ni las aventuras. Ya no hay aventuras, me dijo, sólo parodias. Pensaba, dijo, que las aventuras, hoy, no éran mas que parodias…»  Ricardo Piglia, Respiración artificial 2 Sempre me sinto desconcertado e tolhido quando penso em escrever sobre a ficção de Ricardo Piglia.  Tenho dificuldades em escrever algo que valha a pena sobre  A cidade ausente , romance de 1992 do qual tirei a e...