Postagens

William Burroughs fotógrafo

Imagem
Burroughs em Tânger, no Marrocos Há muitas coisas que vêm à mente quando se pensa em William Burroughs; as principais talvez sejam o vício em heroína ao longo da vida, o amor pelas armas de fogo e o ritmo de vida louca que terá sido um dos propulsores à formação de seu próprio estilo literário. Poucos sabem que seu romance Almoço nu é tão importante quanto Na estrada , de Jack Kerouac e Uivo , de Allen Ginsberg para toda uma geração na literatura de expressão inglesa e para o movimento Beat. E um público ainda mais reduzido desconhece que ele foi um exímio fotógrafo, com projeção tão ou mais importante que o amigo Ginsberg, quem também produziu um conjunto de fotografias que escreve boa parte da história do grupo da Beat Generation. Na fotografia, Burroughs foi um experimentalista; levou para aí (ou terá trazido daí) o método cut-up – técnica de colagem que, na literatura, uma frase ou conjunto de textos é cortado em pequenas partes e depois reorganizados de modo a criar a...

Passagens inéditas de “A colmeia”, de Camilo José Cela

Imagem
Por Winston Manrique Sabogal “Lola abre de uma só vez os botões da braguilha. O vendedor freme como um cerdo castrado, com os olhos brancos, caído de costas. - Golfo! Lola descobre o sexo do homem, pequeno e branco como uma criatura. - Gosta, porco, gosta? - Deixe-me! Deixe-me!” Só uma pessoa sabia que esta passagem escrita originalmente por Camilo José cela para A colmeia . Ninguém mais tinha conhecimento que o conteúdo sexual e erótico de sua obra mestra fora mais alto e descarado que o publicado até hoje. Nem mesmo o regime franquista supôs qualquer coisa porque o escritor suspeitava que não ia passar pela censura e decidiu não incluí-lo na versão que enviou para aprovação. Agora, setenta anos depois de Cela começar a escrever (terminaria a obra em 1950) e depois de sucedido os feitos narrados em seu romance, apresenta-se um conjunto de passagens, todas inéditas, algumas censuradas pela ditadura, outras pelo próprio escritor que nunca chegou aos ol...

Boletim Letras 360º #51

Imagem
Detalhe de capa de um catálogo para exposição de Paul Cézanne. O catálogo e uma série de outros materiais estão disponíveis on-line. Saiba mais ao longo deste boletim Mais um fim de semana! Mais um livro saindo da livraria para as mãos de uma leitora do blog. Sim, realizamos já a primeira promoção de 2014. Um exemplar de Poesia completa , de Manoel de Barros. Queríamos ter dado mais exemplares, mas parece que poucos leram efetivamente o regulamento da promoção e daí nem atingimos os cem primeiros inscritos, mesmo o poeta sendo um dos mais curtidos, comentados e partilhados na esfera facebookiana. Prova disso é que “pelejamos” (a modo de Quixote com seus moinhos de vento) para encontrar o ganhador certo. A roleta rodou cinco vezes para cair num ganhador que havida, de fato, lido e seguido, na pontinha do dito, o regulamento da promoção. Não é mau. Só queremos um tantinho mais de atenção dos leitores. Sabemos da correria de todos na web , mas se tem uma coisa que não estamos ne...

A leitura como bem social e como amplitude de olhar

Imagem
  Por Rafael Kafka Em dezembro, comecei a escrever um ensaio que será publicado em breve sobre o poeta beat Allen Ginsberg. Para tanto, tive de ler um pouco sobre a geração beatnik norte-americana e ler os poemas de Ginsberg que há tempos eu tentava e não conseguia ler. Quando li On The Road em 2008, achei esse livro de escrita fácil, porém intensa, um livro interessante para fazer uma pessoa gostar de leitura pelo conteúdo repleto de viagens geográficas e existenciais e um vocabulário bastante acessível. Não é de surpreender então a dificuldade que tive ao pegar Uivo e outros poemas de Ginsberg e me deparar com um nível de escrita bem profundo, difícil e complexo. Tanto que tive de reiniciar o livro umas três vezes nos últimos anos para poder finalmente concluí-lo para a elaboração do citado ensaio. Após concluir a leitura dos poemas, passei a ler sobre a vida de Ginsberg e dos outros grandes poetas beats. O comportamento deles é bem interessante e me lembra, mes...

Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, de Alice Munro

Imagem
Por Pedro Fernandes Este livro foi publicado no Brasil em 2003 e foi o primeiro título da escritora canadense a chegar por aqui. Deve, na época, assim como outros livros que vieram depois, ter passado despercebido pela grande maioria da crítica e em parte dos leitores comuns. Dez anos depois, o contexto de reedição dessa antologia de textos é diferente: Alice Munro foi premiada com o mais alto galardão que pode receber um escritor, o Prêmio Nobel de Literatura, sendo a primeira escritora exclusivamente de narrativas curtas a receber a honraria. E numa situação inusitada, diga-se: poucos meses antes do anúncio, ela própria havia dito que declinava da longa carreira de manipulação com as letras. Se o Prêmio irá colocar novas centelhas a ponto de se renovar a imaginação e o interesse pela escrita não sabemos; se não, é preciso dizer que há muito que se ler para ter uma visão mais ou menos acabada sobre obra e a escritora que tem um domínio sobre a objetividade linguística e...

Os caminhos de Isaías ou três voltas sobre o mesmo parafuso (Parte I)

Imagem
Por Alfredo Monte            Bem aventurados os tempos que podem ler no céu estrelado o mapa dos caminhos que lhes estão abertos e que têm de seguir! George Lukács, A teoria do romance Antes de entrar, olhei ainda o céu muito negro, muito estrelado, esquecido de que a nossa humanidade já não sabe ler nos astros os destinos e os acontecimentos.   Lima Barreto, Recordações do escrivão Isaías Caminha Preâmbulo No sexto capítulo de Recordações do escrivão Isaías Caminha , o narrador interrompe o fio da sua história passada para comentar sua situação no presente da narrativa e refletir sobre o livro que escreve e que o incomoda. No final do capítulo anterior explodira sua revolta pelas decepções sucessivas no Rio de Janeiro, a última das quais foi ser apontado como suspeito de um roubo ocorrido no hotel onde se hospedara. Defendendo-se na entrevista com o delegado, Isaías, mulato, alegara ser estudante e aquele expressara, então, sua des...