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Joãozinho Malvadeza

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Por João Ubaldo Ribeiro Acho que a Copa enseja a confissão de um pecado longínquo, na minha carreira futebolística, defendendo as cores do Flamenguinho do Rio Vermelho, do São Lourenço de Itaparica e de outras agremiações menos renomadas. Zagueiro de recursos discutíveis, mas bom de carrinho, chutão e reclamação com o juiz, recebi do técnico Hélio Gaguinho a alcunha de Delegado, pelo meu “efi-ficaz po-policiamento da-da gran-grande área”. Deu-se que, com o outro time jogando pelo empate, estávamos disputando a final do campeonato do Rio Vermelho e o gol não saía. Aí pelos 30 minutos do segundo tempo, Gaguinho me instruiu para ir ao ataque e tentar aproveitar os cruzamentos de Toninho Seminarista. Cumpri a determinação, mas não achei a bola em nenhum dos cruzamentos. Gozila, o goleiro deles, que lembrava o Dida, só que maiorzinho, catava tudo. Gaguinho me chamou de novo e mandou que, quando o goleirão fosse subir, eu pisasse nos pés dele. Não discuti. E...

Pablo Neruda

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O poeta político. Há um fosso que nos separa da literatura produzida na América Latina – há muito que observamos isso – embora, vejam a contradição, se circule por aqui tanto de literatura estrangeira, mas vêm sempre aquelas de lugares longínquos. A obra de Pablo Neruda, embora seja um dos maiores poetas de língua espanhola, apesar de alguma circulação por aqui, por exemplo, não tem uma recepção devida. Isso tem seus resquícios ainda do período que no Brasil se impôs a cortina de ferro para circulação de nomes em que fosse comprovada sua relação com o comunismo. E durante largo tempo a crítica deteve-se em avaliá-lo, erroneamente, só por esse ângulo. Há exceções. No New York Times , por exemplo, John Leonard declarou que Neruda foi um Whitman da América do Sul. O nome Pablo Neruda veio do pseudônimo com que assinou seus primeiros poemas ainda no início da adolescência; depois de fazer sucesso com ele, passou a ser um substituto quase oficial. Sim, porque ninguém irá conhecê-...

O futebol e a matemática

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Por Moacyr Scliar O técnico reuniu o time dois dias antes da partida com o tradicional adversário. Tinha uma importante comunicação a fazer. – Meus amigos, hoje começa uma nova fase na vida do nosso clube. Até agora, cada um jogava o futebol que sabia. Eu ensinava alguma coisa, é verdade, mas a gente se guiava mesmo era pelo instinto. Isso acabou. Graças a um dos nossos diretores, que é um cara avançado e sabe das coisas, nós vamos jogar de maneira científica. Abriu uma pasta e de lá tirou uma série de tabelas e gráficos feitos em computador. – Sabem o que é isso? É o modelo matemático para o nosso jogo. Foi feito com base em todas as partidas que jogamos contra o nosso adversário, desde 1923. Está tudo aqui, cientificamente analisado. E está aqui também a previsão para a nossa partida. Eles provaram estatisticamente que o adversário vai marcar um gol aos 12 minutos do primeiro tempo. Nós vamos empatar aos 24 minutos do segundo tempo e vamos marcar o gol da vit...

Imre Kertész, o filho incorrigível das ditaduras

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Por Alfredo Monte Em Eu, um outro (1997), Imre Kertész deu a si mesmo uma veredito irrevogável: “Sou filho incorrigível de ditaduras, ser estigmatizado é minha particularidade”.  Vinte anos antes, em História policial , curto romance lançado agora no Brasil pela Tordesilhas, o Nobel de literatura de 2002 examinava de forma implacável a lógica das ditaduras (infelizmente, Direita e Esquerda, em suas contrafações, equivalendo-se no tocante aos resultados históricos): mesmo que calcadas, a princípio, em lutas pela justiça social, não passam de projetos de poder, tudo o mais se subordina à sua manutenção; para isso, tornam-se “estados policiais”, mantendo os cidadãos sob vigilância, apelando para o arbítrio, a tortura, a supressão de qualquer oposição. Numa passagem arrepiante, um torturador afirma: “O mundo seria diferente se nós, policiais, fôssemos unidos... Não apenas aqui em casa, mas no mundo todo”. O narrador, novato no ramo, replica: “Você quer dizer também...

Mané e o sonho

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Por Carlos Drummond de Andrade Mané Garrincha. Copa do Mundo de 1962. Reprodução. A necessidade brasileira de esquecer os problemas agudos do país, difíceis de encarar, ou pelo menos de suavizá-los com uma cota de despreocupação e alegria, fez com que o futebol se tornasse a felicidade do povo. Pobres e ricos param de pensar para se encantar com ele. E os grandes jogadores convertem-se numa espécie de irmãos da gente, que detestamos ou amamos na medida em que nos frustram ou nos proporcionam o prazer de um espetáculo de 90 minutos, prolongado indefinidamente nas conversas e mesmo na solidão da lembrança.  Mané Garrincha foi um desses ídolos providenciais com que o acaso veio ao encontro das massas populares e até dos figurões responsáveis periódicos pela sorte do Brasil, ofertando-lhes o jogador que contrariava todos os princípios sacramentais do jogo, e que no entanto alcançava os mais deliciosos resultados. Não seria mesmo uma indicação de que o país, despreparad...

Conheça o verdadeiro Peter Pan

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Uma imagem adorável: o Tio Jim (J. M. Barrie) ao lado do jovem Michel. Foto de 1901. Tem alguns anos que as livrarias brasileiras receberam uma reedição (com ilustrações um tanto ousadas) para o livro de J. M. Barrie. O que poucas pessoas sabem é de uma das bases para a construção da narrativa – a amizade do escritor com os filhos de Sylvia Llewelyn Davies. Numa época em que a fotografia desempenhava seu encanto sobre as pessoas, Barrie fez uma leva de imagens dos meninos Peter, George, Jack, Michael e Nico. Os registros integram um álbum com 150 fotos em preto e branco organizado em segredo por Margaret Ruthven, esposa de Peter e uma das personalidades mais famosas quando se casou com ele em 1932. As fotografias marcam as aventuras de férias dos meninos de Sylvia – os perdidos. Barrie os conheceu em 1897 depois de se deparar com eles caminhando em Kensington Gardens de Londres com babá, perto de onde o escritor morava. Foi aí que nasceu a extensa amizade de muitos anos. ...