Pensando os desencantos de um desenvolvimentista — ou Pequeno manual para elaborar reflexões sobre autores que ficaram pelo caminho

Por Lucas Paolillo

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada. Assim, Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo, a Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente como república romana e como o império romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer nada melhor do que parodiar ora 1789, ora a tradição revolucionária de 1793-1795. De maneira idêntica, o principiante que aprende um novo idioma traduz sempre as palavras deste idioma para sua língua natal; mas só quando puder manejá-lo sem apelar para o passado e esquecer sua própria língua no emprego da nova, terá assimilado o espírito desta última e poderá produzir livremente nela.

— Karl Marx, em O 18 Brumário de Luís Bonaparte (1856)

Fonte: Acervo do autor.



Depois de tudo, talvez valha a pena apresentá-lo: Franklin de Oliveira (1916-2000) foi jornalista conhecido. Nos anos sessenta, chegou a ser secretário de Brizola em seu governo no Rio Grande do Sul. Escreveu, dentre outras obras, um daqueles livretos para a coleção Cadernos do Povo. Aquele volume se propôs a responder, nada mais e nada a menos, o que era a Revolução Brasileira. Corta. Mas não falamos de um corte qualquer. Em 1971, ano em que a Ditadura Militar (1964-1985) teatralizou seu poder sob as escamas de sua quarta pele executiva, o clima oficial das narrativas de Estado girava em torno da comemoração dos sete anos de hegemonia dependente. Sentidos outros, dali, para a palavra “revolução”. Vale lembrar que, no ano anterior, ocorrera a famigerada Copa do Mundo de 1970. Nela, a despeito de Saldanha, o João Sem Medo, o “sim” se fez ouvir em alto brado e o “não” ficou abafado pelas mais diversas manobras de controle. Sob os ares despudorados de um regime de exceção a serviço da Exceção, Dom e Ravel, na ponta, harmonizavam o tom do “sim” com “Eu te amo, meu Brasil”: “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo/ Meu coração é verde, amarelo, branco, azul, anil/ Eu te amo, meu Brasil, eu te amo/ Ninguém segura a juventude do Brasil”. Enquanto isso, os mandarins comandavam a chave do tesouro: Transamazônica, construtoras, bancos, cimento e liquidez em grandes estruturas produtivas. Enterrado o espectro da Revolução Brasileira, a hora e vez do tal do “Milagre Brasileiro” (1969-1973). No interior dos enroscos, a euforia: o PIB, que ninguém come, cresceu espantosos 44% em menos de cinco anos. O ministro Antônio Delfim Netto justificava a concentração como mal necessário: primeiro, fazer o bolo crescer. Depois, necas de pitipiribas. Com a oposição desmantelada e as articulações econômicas colhendo efeitos vertidos em aprovação, quase tudo, naquele ano, apontava ao “sim” da Ditadura Militar.

Franklin de Oliveira. Fonte: Blog do Pautar


Foi quando Franklin de Oliveira publicou um livro, digamos, estrategicamente a contrapelo daquele otimismo oficialesco. Uma ação, como diz Antonio Candido, de ocasião radical. Escrito um ano antes, por exemplo, do Crítica à razão dualista de outro Oliveira, o Chico, ou cinco anos antes do revelador A crise do Milagre, de Paul Singer, A tragédia da renovação brasileira (1971) foi dos primeiros a entrar em cena nesse debate. O livro de que falamos não goza da estatura dos clássicos, e apontaremos alguns indícios para isso, mas avançou de um modo importante no debate, dando ao seu tempo um olhar arguto à paisagem econômica e social. Seus retratos exploraram, sem alarde, aspectos bastante incômodos à percepção oficial. Vale lembrar que uma empreitada dessas, uma atitude de “não”, estava longe de ser simples, uma vez que o constrangimento em torno do sistema de informações promovido pelo poder público estava respaldado, suspensão de garantias e mais, pelo Ato Institucional n. 5 (AI-5). No ápice do processo de arbítrio, as linhas de força que desembocariam na inflação econômica se ampararam em muita inflação simbólica, com o seu patriotismo abstrato, seus cataventos verde e amarelos, suas peças publicitárias. Naquelas tantas, a Rede Globo, instaurada pela Ditadura em 1965, projetava em pleno vigor seu lugar como potência das telecomunicações e braço do regime. Com ela, o design de estruturação simbólica da opinião pública planificada, a nível comezinho, pelos interesses do poder.

Mas, voltando ao livro do Franklin de Oliveira, desde as primeiras impressões se faz patente a dissonância ao coro dos contentes: o título associa, de bate-pronto, a renovação nacional a uma palavra como “tragédia” e o subtítulo especifica: “Minas Gerais e São Paulo: a miséria dentro do progresso”. Indicações de que seriam explorados os pontos fracos daquela revolução burguesa na observação de dois espaços. O índice se divide nessa chave: uma metade ao estado de Minas Gerais e outra ao de São Paulo. Lá pelas tantas, o autor sintetiza o sentido geral: “à pergunta: como, num mesmo país, podem coexistir São Paulo e Piauí?, deve-se acrescentar outra pergunta: como, dentro de um mesmo estado, podem coexistir o Grande São Paulo e o Vale do Ribeira?”. Um retorno, como é de se esperar, ao tema do desenvolvimento desigual e combinado. E, para articulá-lo, um arco de debates que vai desde os pais da formulação do subdesenvolvimento, como Celso Furtado, até linhagens então em desdobramento das teorias da dependência. Ao que nos interessa mais diretamente, as perguntas feitas por Oliveira à topografia das disparidades regionais brasileiras, problema fundamental daquele contexto, fizeram com que constatasse fraturas incômodas: “Uma mitologia está ruindo”, anuncia o autor logo nas primeiras páginas, contra o “sim”.

Fonte: Divulgação



Como veremos, o anúncio dessa “mitologia” em ruínas não seria tarefa simples de ser assimilada por um personagem como Franklin de Oliveira. Mas, por enquanto, guardemos essa pulga atrás da orelha e continuemos com o livro. Na primeira parte dele — a maior das duas —, temos um panorama montado em torno da miséria a que fora legado o estado de Minas Gerais no primeiro decênio da Ditadura Militar. Lá, encontramos um cenário de fome e degradação humana que poderia estar presente em qualquer romance de trinta. No entanto, o agravo é que se trata de um contrassenso significativo, dado não só o crescimento do país, mas as antigas promessas feitas ao estado mineiro pela classe dirigente local. A qual, ao longo dos anos cinquenta, fez do buchicho de interesses a argamassa à grande vitrine do desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek. Passadas as décadas, Oliveira tinha ao redor de si outro clima de euforia, porém de ordem muito distinta: o estado aparece, no coração do início dos anos setenta, engolfado pelo desemprego e pela desocupação em massa; marcado pelo desmatamento voraz e crescente, pela erosão, pela lixiviação e pela agricultura irresponsável — até mesmo quanto à agricultura de subsistência —, pela doença (leishmaniose, esquistossomose, bouba, tracoma, doença de Chagas etc.), pela subnutrição, pela fome, pela concentração inédita de submoradias periféricas — os chamados cafuas —, pela reduzida renda per capita, pela defasagem do desenvolvimento industrial, enfim, por toda série de violências a que são reduzidos os corpos na miséria administrada dos funcionalizados impasses do inorgânico. Como poderia ficar, em franco confronto com tais condições de sufoco explícito, o tal do “sim” oficialesco?

Portanto, o diagnóstico traçado foi o de uma crise estrutural na economia planejada dos mineiros: “Impõe-se, de início, uma afirmação peremptória: não estamos diante de simples dificuldades conjunturais. Minas defronta-se com uma crise estrutural. Todo um arcabouço arcaico está desmoronando, soterrando sob seus escombros milhões de brasileiros, aos quais não deixa horizontes de esperança”. E aqui cabe uma pergunta meio que fora de esquadro: qual a relação desse rebaixamento de expectativas com a fome de transcendência ad hoc, muito embora pulsando de gentes, do Clube da Esquina?¹ De todo modo, tudo considerado, aí é que entra, no livro, o angu do caroço: o olhar fixado nos processos de desmoronamento, um rebaixamento das possibilidades de futuro incidente em Minas, significava, para Oliveira – um entusiasta do desenvolvimentismo obrigado a elaborar e explorar os desdobramentos de uma verdadeira sintaxe da frustração –, um indicativo incômodo de que a superação daquelas condições saía, de fato, de cena. Deixando, em seu lugar, a foto de um inferno social sob o “milagre”. Perplexo, o autor admite que, enquanto local dos mais porosos à máquina pública do país, a decadência de Minas Gerais profetiza, metonimicamente, a decadência do modelo planificado de desenvolvimento. Daí a sua visada estratégica. 

Já na segunda parte, temos o modo como tudo se deu no principal núcleo de acumulação constituído até então no país: o estado de São Paulo. Nesse momento do livro, o exame da desigualdade aparece, com os abismos promovidos pela disrupção da sociedade de consumo industrial, em dois planos. Tanto na aceleração desengonçada da grande capital, a teratologia malufista, quanto na sua comparação com o interior do estado. Das desigualdades em torno do ambiente urbano, encontramos imagens também familiares: poluição, violência, concentração urbana, desemprego, ausência de moradia, fome, prostituição, esgotamento dos recursos naturais etc. No entanto, para além dos problemas próprios ao desenvolvimento urbano, o contraste da grande São Paulo com o resto do país gerou também outra gama de problemas: superpopulação, ausência de planejamento urbano, xenofobia em resposta à migração etc. No livro, São Paulo surge sob o sugestivo título de “uma metrópole no limiar da explosão”. No estado, o Vale do Paraíba aparece como um dos locais mais fragilizados do interior, abandonado pelo andamento eufórico nos entornos da capital. Ali, encontramos um adensamento do processo de espoliação que Antonio Candido registrou em Os parceiros do Rio Bonito (1964): a descaracterização de povos tradicionais e comunidades agrárias de subsistência à margem dos grandes processos produtivos — não à toa, uma década depois ocorreria todo o imbróglio na Usina Tamoio, registrado, livro e filme, em O nó da cana também dá garapa (2008), noutra ponta dos interiores do estado. Temas, portanto, muito caros às decadências periféricas setentistas e oitentistas. Nas palavras de Franklin de Oliveira: “São Paulo, pela força da sua promessa, retém, na sua turbilhonante malha urbana, in nuce, o Brasil que ainda não soubemos redimir. O Brasil adernado na cultura da pobreza, a miséria insular: a das áreas e regiões congeladas no mais impermeável primitivismo social e econômico, onde tudo que é pé humano entra em recesso e colapso. Quando chegará a hora de entoarmos o nosso réquiem para o Brasil selvagem?” Ainda que considerado o lamento que toma parte, impotente, ao modernizante – o qual marca presença no livro e data mal passagens como a transcrita —, aos olhos da crítica cabe, mais do que isso, uma percepção fundamental: há uma força na reportagem que se ancora na coragem de narrar. Antes disso, outra coragem: decisão de coligir, com astúcia, os avessos, confrontando sufocamento e vulnerabilidade.

Enquanto Minas dava a ver o colapso do combate ao subdesenvolvimento, São Paulo fez de si uma fotografia da desconjuntura do seu modelo de sucesso urbano. De uma ponta à outra, do oito ao oitenta, disjunção desconjuntada: a ordem social derivada do casamento chancelado pelos atos institucionais entre a classe dirigente militar e os setores econômicos – miséria embalada para servir multinacionais, dívidas interna, externa e seus credores – não cumprira o que dizia. No livro, o “não” contra os resultados entregues pela Ditadura Militar brotou de um espelhamento confuso de aspirações antigas e desafios novos. Tendo em vista, conforme lembramos, o clima propício ao “sim”, a brecha aproveitada ao “não” — substância crítica explorada como identificação em tentativa —, fez da iniciativa, ao final das contas, um gesto de sismo em tempos sombrios. Fruto bastardo do choque entre as expectativas do autor com o declínio anunciado, credo pessoal e processo social foram forçados a se realinhar juntos, a despeito das resistências mútuas, em face dos problemas reais, as questões do momento. A constatação do monstrengo, que viria a ser batizado de “Ornitorrinco” por Chico de Oliveira, foi, naquela altura, intuído em traços fundamentais, ainda que mantido dualizado. Naquele ano de 1971, Franklin de Oliveira pressentiu a mudança dos ventos contra as soluções nas quais apostava. Possivelmente, no íntimo, não abriu mão dos escombros da construção interrompida. No entanto, tomá-lo como testemunho não supõe comprá-lo em identificação de princípios, mas supõe atenção ao faro crítico: ao dele, ao nosso. Lendo-o, testemunhamos como a escrita deixa rastros sólidos quando a serviço da coerência incômoda e ao risco. Ainda que, pelas ações intelectuais, estejamos de antemão condenados ao erro. Com sorte, a um punhado de acertos.


Notas:
1 Talvez algo sobre essa condição de Minas Gerais pós-sessenta caiba, como agregação, ao eixo das reflexões em desenvolvimento de Vitor Morais a respeito da música de Milton Nascimento.

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