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A cruzada moral em Os miseráveis

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Por Lee Pontes Eugène Delacroix. La Liberté guidant le peuple Se a literatura é sempre um oceano de possibilidades,  Os Miseráveis é um mar em si. Expõe não alguns anos, mas um século. Cem anos saltam de suas páginas que, na nossa leitura, inicia-se pela capa. A editora Martin Claret escolheu da produção artística da revolução francesa o quadro La Liberté guidant le peuple , mais conhecido, de Eugène Delacroix, que eterniza um momento, a revolução de julho de 1830 que levou a queda de Carlos X. Uma mulher surge em primeiro plano com a roupa rasgada e o peito nu. Madame Liberté se ergue sobre aqueles que morreram para defender a revolução. Com uma baioneta em punho e a bandeira da França para o alto, chama os homens à luta contra os inimigos da revolução. O peito nu representa a pureza de seus ideais, que aspiram a um Estado em que homens, mulheres e crianças sejam tratados como iguais. Assim, despe-se de sua condição feminina e luta por um novo futuro. Os sans culot...

Nadine Gordimer

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A escritora Nadine Gordimer em sua casa em Joanesburgo. Foto: Jordi Matas A África do Sul tem produzido vários escritores de grande envergadura desde a metade do século XX, mas poucos têm seguido à risca o difícil caminho que seguiu Nadine Gordimer; afinal é para poucos aliar literatura e política sem cair na armadilha de se tornar panfletário. Sondar a relação homem-sociedade, que, afinal é isso o caráter político de toda obra de arte, e tornar isso matéria literária também não é fácil. Mas, diga-se, um escritor não sabe falar de outra coisa se não daquilo que lhe incomoda, se não daquilo que experiencia. No discurso de recepção ao Prêmio Nobel, em 1991, disse “O homem é o único animal com capacidade de observar a si mesmo e o único dotado da dolorosa capacidade de haver sempre querido saber o porquê. E isso não é apenas a grande questão ontológica sobre por que estamos aqui, através de que religiões ou filosofias buscamos a resposta final que distintos povos em temp...

A besta humana, de Émile Zola

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Por Pedro Fernandes Toda nova tradução é uma tradução. A tautologia tem uma justificativa. É que, apresentar uma nova tradução é como ver a obra ser de novo escrita e ser de novo apresentada. É mais que isso. Cumpre ainda um exercício de a aproximação entre gerações diversas: com a dos que leram pela primeira vez a obra, com a de outros lugares onde a obra também foi traduzida, com as de um mesmo lugar que tiveram contato com outras traduções. Pouco importa dizer que cada leitura – de um tempo, de um público, de uma pessoa – é forma individual porque é suficiente crer que é isso um exercício de irmanação pela palavra. Os leitores brasileiros ainda estão muito distantes de terem acesso, no seu idioma, a muitas obras importantes. Isso não é novidade. Também não se pode ter tudo. E o melhor é se contentar com o que nos aparece. Sim, não temos do reclamar. A primeira tradução de La Bête humaine de Émile Zola, por aqui, se não tenho lido apressadamente, data de 1958, po...

Um abraço no Pelé

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Por Vinicius de Moraes Pelé ao centro. Depois, Dorival Caymmi. E Vinicius de Moraes. 1968. Eu ainda não tive o prazer de lhe ser apresentado, meu caro Pelé, mas agora, com o fato de termos sido condecorados juntos pelo governo de França – você no grau de Cavaleiro e eu no de Oficial: e mais justo me pareceria o contrário – vamos certamente nos conhecer e tornar amigos.  Ninguém mais que você merece tão alta distinção, sobretudo por ter sido conferida espontaneamente – pois ninguém mais que você tem levado o nome do Brasil para fora de nossas fronteiras. Da Sibéria à Patagônia todo mundo conhece Pelé; e eu estou certo de que você entraria fácil na lista das dez personalidades mais famosas de nossos dias. Não posso disfarçar o orgulho que a condecoração me causa, embora seja, de natureza, avesso às honrarias; e orgulho tanto maior porque nela estamos juntos: preto e branco (as cores do meu Botafogo!) e também as cores irmãs de nossa integração racial. Si...

Boletim Letras 360º #73

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Esta é Jane Austen, uma reprodução da artista Melissa Dring. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Hoje colocamos ponto final em dois acontecimentos que marcaram o blog desde o dia 12 de junho, data de abertura da Copa do Mundo 2014: uma perquirição pelo território da literatura brasileira e estrangeira mais como muita comunicação com os leitores nacionais sobre o tema do futebol, este que moveu todo um mundo durante esses trinta dias. Como anunciamos, primeiro em nossa comunidade no Google+, depois no Facebook, ainda teremos mais, um último suspiro que seja. Aguardem por aqui que essa novidade logo chegará. A outra novidade é a promoção que sorteia cinco kits de livros aos que dela participaram. Também batizada de Gol de Letra, não teve lá a repercussão que outras por aqui já tiveram, mas aconteceu. Enfim, deixemos de conversa e visitemos o que se passou em nossa página no Facebook, essa sim, sempre movimentada. Segunda-feira, 07/07  >>> Inglaterra: Rei L...

Abril, no Rio, em 1970

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Por Rubem Fonseca Tudo começou quando o cara que sentou perto de mim na grama disse, olha só o cuspe do Gérson. Na hora eu não dei importância, eu tinha feito misérias para chegar até ali, mas a minha cabeça estava no jogo de domingo e eu não ligava as coisas umas com as outras. O jogo de domingo ia ser assistido pelo Jair da Rosa Pinto, técnico do Madureira, que já foi cracão do escrete, e uma coisa lá dentro me dizia, Zé, vai ser a chance da sua vida.  Eu disse pra minha garota, que era datilógrafa da firma, não fico de contínuo nem mais um mês, disse também que o Jair da Rosa Pinto ia me ver no domingo, mas mulher é um bicho gozado, ela nem deu bola. Me larga, deixa eu te contar. Levantei da cama, expliquei, porra, se eu jogar bem e o Jair da Rosa Pinto me levar para o Madureira, estou feito, ninguém me segura, mas ela me puxou de novo pra cama e foi aquela loucura, minha garota é fogo. O cara se chamava Braguinha. Olha o cuspe do Gérson, ele disse, no ...