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Bernard Shaw

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Por Dolores Graña O jovem Bernard Shaw A infância de George Bernard Shaw foi infeliz, como só ocorre com todas as infâncias irlandesas que chegaram à literatura. Mas a infelicidade da infância de George Bernard Shaw – como, outra vez, só acontece com as infelicidades irlandesas – tinha sua forma particular, até orgulhosa, de ser. A família Shaw havia chegado a Dublin da Escócia e era protestante. Numa só geração, os Shaw viram decair sua condição de família de classe média baixa respeitável até beirar a indigência decididamente católica. Em meados do século XIX (Bernard Shaw havia nascido em 1856), Dublin era uma versão em miniatura da Londres de Dickens, ainda que só em tamanho. Seu pai, alcoólatra primeiro e comerciante de cereais depois, era conhecido nos bares do bairro como o Estrábico (defeito que o pai de Oscar Wilde, um respeitado cirurgião, não pode curar). A mãe de Bernard Shaw era uma cantora apaixonada, única discípula e aluna de Vandeleur Lee, quem afirmava ter...

A massa e o indivíduo de Elias Canetti

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Por Javier Aranda Luna Os vivos que se conhecem bem sempre há algo que censurar. Os mortos, entretanto, agradecem que não proíbam a recordação. Elias Canetti Todos os homens lutam em algum momento contra a morte. Poucos convertem essa luta em militância e resistência. Elias Canetti foi um deles. Seus romances, obras de teatro, ensaios e aforismos facilmente revelam isso. Enquanto exista a morte, nada belo será belo e nada bom, bom, escreveu certa vez. Se a forma mais elementar que adquire essa luta é a simples sobrevivência, os dias de Canetti foram um preciso exemplo: esteve com sua mãe e seus irmãos por vários países em busca de melhores oportunidades para desenvolver-se e para fugir do antissemitismo da Alemanha nazista. Poliglota desde tenra idade, adotou, o alemão para escrever sua obra. Para ele, essa língua foi “a língua de meu espírito porque sou judeu e desejo conservar em mim, como judeu, o que resta de um país devastado”. De acordo com a...

Boletim Letras 360º #179

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Depois de longa espera, leitores de Philip Roth no Brasil  começam a re ceber os livros que ainda faltam ser traduzidos por aqui. O primeiro dos últimos está disponível. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Eis a  cópia das notí cias que divulgamos durante esta semana em nossa página no Fa c ebook e no Twitter @Letrasinverso. Boas leituras! Segunda-feira, 18/07 >>> Brasil: Os afetos da filha de João Cabral de Melo Neto um a um se revelam em antologias dedicadas a revisitação da obra do pai Desde sempre Inez Cabral tem estado à frente da obra do pai e desde há alguns dedicada à criação de antologias com retalhos temáticos da obra do poeta. Foi assim com a edição de O rio , com poemas cuja evocação são os rios; e é agora com poemas que registram o olhar de João Cabral de Melo Neto sobre os diversos lugares onde morou e pelos quais tinha predileção na antologia A literatura como turismo . Sabe-se que o brasileiro ao longo de seus quase cinquen...

O primeiro amor de Jack Kerouac

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A primeira vez que a viu, em pé, entre a multidão, ao escritor, então pouco mais que um adolescente que gostava de copiar a pose dos grandes lobos do mar dos filmes de Charles Bickford, lhe pareceu “sozinha, insatisfeita, fechada, desagradavelmente diferente”. Meio relutante, os amigos aproximaram os dois e fizeram com que desfilassem pelo salão do baile. Quando voltam, Jacky, Jacky Dulouz, que é, em outras situações, Zagg, Zaggy Dulouz, já estava perdidamente apaixonado pela garota.  Ela é Maggie Cassidy, “doce, morena, suculenta como um pêssego – estranha para os sentidos como um grande sonho triste”. Ela tem 17 anos, ele, 16. Ela é um pouco neurótica, mesquinha, demasiadamente cuidadosa; ele é, ainda, “um bobo”, o rapaz das redações e da equipe de atletismo, o nerd que só havia dançado uma vez com uma garota. Ela é Mary Carney, ele é Jack Kerouac. O ano é 1939. Faltam cerca de duas décadas para que se publique On the road e ele ocupe o centro do terremoto Beat. ...

A incorreção política do sublime Dahl

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Por Eugenio Monjeau  Li estas linhas pela primeira vez quando tinha sete ou oito anos: “Isto não é um conto de fadas.  Fala sobre BRUXAS DE VERDADE. As BRUXAS DE VERDADE vestem roupa normal e têm um aspecto muito parecido com o das mulheres normais. Vivem em casas normais e fazem TRABALHOS NORMAIS. Uma BRUXA DE VERDADE passa o tempo todo tramando planos para desfazer-se das crianças de seu lugar. Sua paixão é eliminá-las, uma por uma. É a única coisa em que pensa durante todo o dia. No que se refere aos meninos, uma BRUXA DE VERDADE é sem dúvida a mais perigosa de todas as criaturas que vivem na terra. O que faz dela ser duplamente perigosa é o fato de que não parece perigosa. Até poderia ser – e isto te fará dar um salto – tua encantadora professora, a que te está lendo estas palavras neste mesmo momento”. Nos vinte e dois e vinte e três anos que passaram, nenhum início de nenhum livro me deve haver cativado tanto como este. Agora, relendo-o, vem em minha ...

Léxico familiar, Natalia Ginzburg

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Em Léxico familiar , sua obra mais admirável, lida até a saciedade em vários idiomas desde sua aparição, reúnem-se as razões da narrativa entendida como catarse e as pequenas virtudes do narrador de raça que não necessita de alardes técnicos ou labirínticas intrigas para ganhar o leitor que ela converte parágrafo a parágrafo em seu companheiro de viagem, em seu amigo invisível. A vasta cultura de Natalia Levi, por outro lado – nascida do entorno familiar, da convivência com seu companheiro Leone Ginzburg, incansável antifascista, e com Cesare Pavese e seus amigos da editora Einaudi, onde trabalhou tantos anos – não a conduziu à retórica trash , mas ao esmero de querer narrar acariciando os detalhes e fazendo de seu entorno cotidiano e de seu universo emocional um lugar que o leitor, sem saber muito bem como, toma para si, como seu. Presa com infinitas leituras de Proust, heranças de sua mãe, que lhe deram o tom intimista e os mecanismos da memória afetiva, G...