Sinii Karandach e o poema-blecaute
Por Rafael Bonavina
Os últimos anos foram marcados por duas comemorações importantes para a literatura russa: em 2024, o poeta nacional Aleksandr Púchkin completou 225 anos; e, no ano passado, sua maior obra, o romance em versos Evguêni Onéguin, completou seu bicentenário. Os dois eventos receberam relativamente pouca atenção no Brasil,¹ mas na Rússia foram ambos muito importantes. Foram organizadas diversas palestras, cursos, homenagens e até edições comemorativas das suas obras.
Em meio a todas essas homenagens, a editora moscovita Individuum lançou um curioso volume do artista urbano Sinii Karandach, intitulado Blecaute (Блекаут, 2025). A obra trava um diálogo direto com Evguêni Onéguin, cuja capa é reproduzida logo depois da folha de rosto, como parte integrante do livro. Embora o texto de Púchkin seja a base de Blecaute, a intertextualidade entre os dois é extremamente tensa, senão conflituosa, pois Karandach intervém no texto oitocentista por meio do blecaute, isso é, apagando diversas de suas passagens.
Por isso, quando abrimos o livro, encontramos os dizeres: “Evguêni Onéguin: romance em versos”. A tarja preta esconde a palavra “romance”, que deveria estar ali, mas é suprimida pelo autor contemporâneo. Essa pequena intervenção no título cria uma quebra de expectativa, pois, ao invés da inserção da obra em um gênero literário claro, Blecaute rejeita o rótulo de romance, mas não propõe outro no lugar. Ao mesmo tempo, podemos ler esse subtítulo como uma espécie de menção ao próprio silenciamento, como se a tarja preta fosse o próprio tipo textual. Algo como silêncio em versos, apagamento em versos etc.
Como se trata de um autor pouco conhecido no Brasil, talvez seja interessante dizer algumas poucas palavras a seu respeito. Em primeiro lugar, Sinii Karandach, que poderia ser traduzido como Lápis Azul, não é, evidentemente, o nome verdadeiro do artista, mas um pseudônimo. A escolha desse nom de plume vem da sua marca registrada, o uso do azul-escuro nas suas intervenções de rua, às quais se dedica há mais de uma década. Sabemos que ele nasceu em 1986 e que seu principal centro de atuação é Nijny Novgorod, mas que suas obras também se espalham por várias cidades da Rússia, como Moscou, São Petersburgo, Ekaterinburgo e até mesmo Suzdal, cidade famosa pela preservação de sua história. Fora da Rússia, Karandach também atuou em diversos países europeus, como Berlim, Praga, Amsterdam etc.
A arte produzida por Sinii Karandach mistura-se à paisagem urbana convidando os passantes à reflexão sobre questões sociais contemporâneas e o urbanismo, o que pode ser percebido pelas obras que ele divulga em seus perfis nas redes sociais. É interessante de se notar que o artista urbano considera que seu tema principal seria a memória e as possibilidades de materializá-la, como a permanência da historiografia e o apagamento dos locais de memória. Esse ponto de vista nos ajuda a compreender um pouco melhor o tipo de diálogo que Karandach propõe com a obra de Púchkin, e de onde vem a tensão entre os dois artistas. Vejamos um exemplo das intervenções urbanas desse artista, o que nos ajudará a compreender na prática como essas questões são postas em jogo.
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| Headless Lenin and two Lenin Heads / Ленин без головы и две головы Ленина. Reprodução a partir do Instagram de Sinii Karandach. |
Na obra acima, por exemplo, vemos no primeiro plano a estátua de um homem segurando seu colete, e o público mais acostumado com as representações dessa figura logo reconhecem que se trata do bolchevique Vladimir Ilitch Lênin. Vale ressaltar que as imagens desse líder revolucionário eram um elemento muito presente na vida cotidiana dos cidadãos soviéticos, seja na forma das artes visuais ou mesmo a sua constante menção em discursos políticos. Ao lado desse corpo, encontram-se duas enormes cabeças de Lênin. Quando Sinii Karandach escreve, em alfabeto latino e não cirílico, a palavra “Lenin”, ele chama a atenção do espectador para essa composição, causando o efeito que Viktor Chklóvski conceituou como estranhamento. Em outras palavras, o observador é convidado a desautomatizar seu olhar e adotar uma perspectiva estética, buscando o que haveria de simbólico ali.
E, aceitando esse convite, podemos perceber que as estátuas do líder revolucionário em pedra estão incompletas e abandonadas ao relento. A partir disso, podemos perceber que há uma tensão fundamental nessa imagem: a imagem de Lênin, que simboliza em certa medida a glória revolucionária, está abandonada à condição de ruína. Com isso, a nosso ver, Karandach aponta para o crescente vão entre o desenvolvimento social contemporâneo e o conteúdo dessa memória simbólica coletiva, sintetizada na estátua soviética.
Também na nossa opinião, a intervenção sintetiza bem o diálogo tenso com a memória e com a história que Karandach propõe com sua obra e nos ajuda a entender um pouco melhor o sentido de Blecaute. É possível que o artista tenha sentido a necessidade de inserir-se no debate público da obra de Púchkin, fazendo um contraponto às louvações, algumas em tom demasiadamente triunfalista, ao poeta nacional russo com uma obra tão marcada pelo tensionamento da memória dessa figura histórica. Resta saber, no entanto, como ele dá forma estética a essa questão.
Por um lado, e ao contrário da sua arte de rua, Karandach não cria seu Blecaute por meio da adição de informações a algo já criado, pelo contrário, ele apaga o que estava ali. Para ser mais preciso, ele reproduz integralmente o romance Evguêni Oniéguin e intervém diretamente nesse material, apagando a maior parte das palavras com tarjas pretas. Dessa forma, só podemos ler uma fração mínima do original, o que cria um texto a partir das palavras antigas. Emerge desse passado cultural, portanto, novos sentidos, novos textos. Se observarmos por outro ângulo, por mais que haja um contraste entre adição e remoção de informações do original, também poderíamos dizer que há um fio condutor que permeia a obra de Karandach. Em ambos os casos que vemos existe uma criação de sentido a partir de um processo de bricolagem, compreendido aqui em sentido próximo ao de Lévi-Strauss; ou seja, cria-se algo a partir de algo já existente.
Se a explicação parecer pouco clara, certamente um exemplo viria a calhar. O problema é que o texto se encontra em russo, uma língua pouco acessível para a grande maioria do público leitor brasileiro. Além disso, como Blecaute se baseia na própria materialidade do texto de Púchkin, a obra depende diretamente da sua concretude, das próprias palavras utilizadas pelo poeta oitocentista, o que torna sua tradução muito difícil. A solução que encontramos para esse impasse foi a de recriar o percurso criativo a partir das traduções já existentes em português. Fizemos um cotejo de três edições diferentes e, por fim, elegemos como base a tradução de Rubens Figueiredo, lançada em 2023 pela Penguin.
Ainda assim, não se poderia escolher uma estrofe ao calho, já que seria necessário encontrar um trecho em que coincidissem as decisões tradutológicas de Figueiredo com os campos semânticos e os posicionamentos das palavras na ordem pensada por Sinii Karandach. Como se sabe, a tradução — principalmente a de poesia — é um processo de escolhas e adaptações. Em alguns casos, as palavras originalmente utilizadas por Púchkin acabam sendo modificadas para melhor se adequar à métrica da língua portuguesa; em outros, a posição da palavra na estrofe pode vir a ser alterada, o que não permite a recomposição do verso de Karandach em língua portuguesa. À luz desses problemas, escolhemos a estrofe 53, que a nosso ver mantém todas as características necessárias para a recriação da intervenção de Blecaute.
LIII
Deparou com a multidão de criados.
Amigos ou não, antigos e atuais,
Acorriam de todos os lados,
Bem como amantes de funerais.
Por fim enterraram o defunto.
Padres, convidados, todos juntos,
Comeram, beberam: missão cumprida.
Sérios, foram embora cuidar da vida.
Eis nosso Oniéguin, senhor agrário,
Dono de bosques, águas e engenho,
E que, até o momento, era um ferrenho
Inimigo da ordem e perdulário,
Feliz de trocar a velha rota
Por outra. Qual será, não importa.²
A estrofe descreve a resolução de um problema apresentado logo no início do romance: o tio doente de Evguiêni, depois de muito sofrimento dele e do sobrinho, morre. O protagonista do romance finalmente se vê livre da obrigação de cuidar do tio, e por isso há nessa passagem certo otimismo, na medida em que ela nos apresenta um desenlace. Vejamos agora a intervenção de Sinii Karandach, que recriamos a partir do original russo.³
LVIII
Deparou com a multidão de criados.
Amigos ou não, antigos e atuais,
Acorriam de todos os lados,
Bem como amantes de funerais.
Por fim enterraram o defunto.
Padres, convidados, todos juntos,
Comeram, beberam: missão cumprida.
Sérios, forma embora cuidar da vida.
Eis nosso Oniéguin, senhor agrário,
Dono ode bosques, águas e engenho,
E que, até o momento, era um ferrenho
Inimigo da ordem e perdulário,
Feliz de trocar a velha rota
Por outra. Qual será, não importa.
A intervenção de Karandach é brutal e apaga toda a descrição do enterro do tio de Oniéguin, deixando apenas sete palavras das 77 que compõem essa estrofe. O leitor consegue apenas formar uma frase: “de todos os lados, a velha rota” (“со всех сторон, прежний путь”). Tem-se a impressão de que o eu-lírico se vê em um beco sem saída, cujo único caminho é o de onde ele veio, o retrocesso, o caminho “antigo”. Podemos perceber, portanto, que o tom de desenlace da estrofe puchkiniana é invertido pela intervenção do artista urbano, dando lugar a uma sensação intensa de estagnação.
Embora, aqui, não tenhamos espaço para a incorporação de mais exemplos, vale ressaltar que a maior parte das intervenções de Karandach trazem à tona uma visão de mundo extremamente desencantada, como a que pode ser vista nessa estrofe. Seria possível questionar o quão otimista era, de fato, a visão de mundo de Púchkin, pois ele, poeta romântico que era, havia recebido forte influência de Byron. Porém essa discussão não é tão pertinente em Blecaute, pois a obra é composta por uma linguagem árida, que pode ser lida como fruto do desencanto com o poder de mudança da poesia, paradoxalmente manifesto por meio da própria poesia.
Para concluir, podemos nos perguntar sobre o sentido geral da intervenção de Karandach sobre Evguêni Oniéguin. Deve ter ficado claro ao longo da nossa discussão, que Blecaute não deve ser lido, necessariamente, como um esforço de dessacralização de um símbolo nacional que estava em alta naquele momento. Pelo contrário, vimos que o livro possui grande ressonância com a sua obra como um todo e reafirma um programa estético defendido pelo próprio artista urbano. Ou seja, Sinii Karandach parece nos chamar a atenção para a ruína do universo ali representado, afinal os salões aristocráticos não fazem mais parte da nossa realidade, muitos dos costumes ali representados chegam a ser obscuros e alguns até pouco verossímeis. Nesse sentido, o nosso contato com a história é mediado pelos seus resquícios, pelos fragmentos ainda acessíveis hoje em dia, mas que, ao mesmo tempo, pouco a pouco estão se perdendo.
Notas:
1 Entre essas comemorações, é importante ressaltar que, em 2024, essa data tão importante foi sublinhada em um evento duplo na USP, pois coincidiram os 60 anos do curso de russo e os 225 anos de Púchkin. O evento contou com a presença de diversas figuras importantes para a russística brasileira, como a professora Aurora Fornoni Bernardini, e com a participação à distância de Serguei Leônov, professor do Instituto Púchkin de Moscou.
2 PÚCHKIN, Aleksandr. Evguêni Oniéguin. São Paulo: Penguin, 2023, p. 68.
3 KARANDACH, Sinii. Блэкаут (Blekaut). Moskva: Individuum, 2025, p. 98. Disponível aqui.

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