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A graça imortal de David Foster Wallace

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Por Rodrigo Fresán Um fantasma percorre a América do Norte (e o resto dos continentes) e esse fantasma é o de David Foster Wallace. E seu cada vez mais vital espectro (seu corpo nascido em 1962, sua alma aparecida em 2008, previu rapidamente o suicídio) reaparece trazendo nas mãos as sagradas escrituras do romance pelo qual é melhor lembrado e, talvez, pior compreendido e apressadamente imortalizado. Graça infinita , publicado em 1996, aqui e agora, figurando em toda em toda e qualquer lista sobre as jovens marcas do fim e começo do milênio literário (ao lado de American Psycho , de Bret Easton Ellis, quem considera Wallace um farsante hipervalorizado). Graça infinita não cai de moda porque é uma moda em si mesma. Um desses livros – como A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy , Moby Dick , O homem sem qualidades , Ulysses ou Em busca do tempo perdido – que permanecem, mesmo sem sequer ser aberto, nas mesas de cabeceira ou nas listas de promessas a não se ...

Revisitando Mário de Sá-Carneiro: uma homenagem no ano do centenário da sua morte

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Por Maria Vaz Escrever sobre um grande vulto é sempre assim: difícil. Uma alma que escreve vagueia sempre por mundos envoltos em sentidos, em que as palavras se perdem ou não ecoam a devida intensidade da sua mundividência. Sobra-nos a tarefa de adivinhar, nas entrelinhas daquilo que se disse e se escreveu, um pedaço de céu ou um qualquer brilho que alguém esqueceu. Dito isto, falar de Mário de Sá-Carneiro implica subir e descer as escadas dos deuses e, inevitavelmente, confrontar a iluminação do cume do Olimpo com o submundo de Hades. Teorias há no sentido de que um homem se resumiria a uma previsibilidade de acontecimentos entre duas datas: o nascimento e a morte. Mas quando falamos de poetas e de poesia, tocamos um mundo do absoluto em que a morte nada significa além da transformação da matéria: o corpo vai, mas ficam as palavras e os sentimentos petrificados em estrofes, combatendo a energia destrutiva de um tempo em que tudo perece. Eles permanecem. Estão condenados à ...

Boletim Letras 360º #187

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Machado de Assis preside sessão na Academia Brasileira de Letras Enquanto fechávamos a edição deste boletim, encontramos a notícia publicada no Estado  sobre a descoberta de um livro de Machado de Assis que nunca foi veio a lume (leia mais no fim do boletim). A descoberta alinha-se a outras três feitas recentemente em torno do escritor brasileiro: a da crônica desconhecida em que o autor chora a morte da mãe, a do poema “O grito do Ipiranga” e a desta fotografia, publicada no último final de semana na Folha de São Paulo : trata-se da primeira imagem que se tem notícia de Machado de Assis a presidir uma sessão da Academia Brasileira de Letras. Foi publicada na revista Leitura para todos , de 1905. E só é possível dizer que o escritor está na imagem por causa da descrição apresentada no rodapé que diz ser o escritor o espectro que está entre dois homens, na mesa, à esquerda da foto (cf. marcado). A foto foi encontrada pelo pesquisador Felipe Rissato, o mesmo, que em junho r...

Jean-Marie Gustave Le Clézio

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Jean-Marie Gustave Le Clézio em Saint-Malo, França, 1999. Foto: Raphael Gaillarde Jean-Marie Gustave Le Clézio (ou, simplesmente J. M. G. Le Clézio) publicou seu primeiro romance, Le Procès-verbal em 1963. Tinha 23 anos e com aquele livro torrencial onde mergulha o leitor no isolamento de um jovem com amnésia que se perde gradualmente entre alucinações, ganhou o Prêmio Renaudot e o reconhecimento de titãs da crítica como Michel Foucault e Gilles Deleuze. Os estudiosos da obra de Le Clézio sempre dividem sua carreira literária em duas fases. A primeira, marcada por sua inquietude experimental, o pós-estruturalismo, a exploração da loucura e uma retórica enervante; foi esta que lhe valeu os adjetivos de inovador e rebelde além da comparação com o também francês Albert Camus. A relação dá-se ainda pela preocupação do escritor com questões do indivíduo a partir do que denominadamente foi criada pelo autor de O estrangeiro , o absurdismo. A segunda, em que recusa a anterio...

Cravos, de Julia Wähmann

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Por Pedro Fernandes No que tem se transformado parte dos romances herdeiros daquela tradição fundada em parte por Marcel Proust? Como o leitor poderá encontrar nas páginas de Cravos , em fio de uma sensível tessitura lírica. Isto é, uma quase fusão entre a prosa e a poesia; aquela só se mantém pela forma estrutural enquanto a última é meio através do qual o escritor elabora algo que já não é mais narrativa, no sentido tradicional como é geralmente empregado este termo.  Embora me sinta inclinado para a história mais comum e que tenha uma nesga de diálogo com o fora do hermetismo verbal porque tenho uma opinião de que a literatura e as artes são sistemas na complexa engrenagem social sempre sou fisgado pela engenhosidade criativa de alguns escritores – em grande parte, nesse território, embora sempre seja arrastado para o vale das decepções; sim, esse domínio da linguagem que se mostra /deve se mostrar pleno na superfície do texto nem sempre é alcançado pelos escritor...

Virginia Woolf - entre cartas e diários, a impressão de nunca estar pronta

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Por Carmen G. de la Cueva Virginia Woolf, 1939. Foto: Gisèle Freund Entre outras coisas, por esses dias estive lendo uma biografia de Virginia Woolf publicada no Reino Unido em 2011. A autora, Alexandra Harris, professora da Universidade de Liverpool, tinha então trinta anos. Este dado passaria totalmente despercebido para qualquer leitor, mas para mim, uma jovem aspirante a escritora que não cumpriu ainda os trinta anos, qualquer sucesso de alguém dessa idade, me consola. E, tristemente, penso: “Oh, apenas trinta anos! E ainda tenho vinte e nove, tenho tempo de escrever uma biografia literária de Anne Carson ou, quem sabe de Joan Didion – ainda vivas e jovens de coração – ou talvez uma grande tese sobre a poesia feminina ou os mais belos poemas sobre a passagem do tempo”. Enquanto minha cabeça sonha uma voz como que de desesperada diz: “não conseguirei, só me restam três meses para publicar antes de completar os trinta”. Os trinta são, irremediavelmente, a fronteira d...