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Simpatia pelo demônio, de Bernardo Carvalho

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Por Pedro Fernandes Bernardo Carvalho. Foto: Marco Castro Há várias acepções para o termo demônio e a mais comum delas é a de um espírito que se rebelou contra Deus e passou a lutar pela perdição da humanidade. Um endemoniado é um possesso por esse espírito, capaz de toda sorte de transgressões, que pensa e age de maneira diabólica. Assim, é possível dizer que Bernardo Carvalho estava possuído por um desses ao propor uma narrativa contada pelo seu avesso. Grande parte do que se conta é dissecado como uma invenção de uma das personagens que significa não o vivenciado por outrem e sim por ela numa sorte de dissimulações variadas ao ponto de no fim o leitor também se colocar em suspenso pela possibilidade: e se aquilo que o narrador projeta não é de alguma maneira a verdadeira persona (se há) da protagonista e não a da antagonista.  Num jogo diverso de personalidades, o narrador preserva todos os simulacros do eu no intuito de compreender o quanto nossa realida...

John Berger. Retrato de um emigrante

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Por Matías Serra Bradford John Berger quando completou 90 anos, em 2016. Foto: Eric Hadj Conheceu o inferno num colégio inglês, quando criança, onde casualmente nasceu sua ideia de armar “uma conspiração de órfãos” regidos pela impertinência. Um lugar que sem dúvida favoreceu a semente de sua ambição por escapar de uma ilha provinciana e ir para um continente com horizontes mais amplos, mas altos. Vivia na França, mas tinha uma queda especial pela Polônia, porque os poloneses “respeitam os segredos”. Sua cidade favorita era Bolonha, berço de seu admirado Giorgio Morandi, sobre quem disse, certa vez: “Seria fácil descartá-lo como um artista cuja sensibilidade é tão delicada que só poderia se considerar anêmica”. Obcecado com as migrações forçadas, era um homem que caminhava rápido porque lhe parecia mais cansativo caminhar devagar. A velocidade de sua adorada bicicleta exigia-lhe uma concentração absoluta no presente, algo que, admitia, o acalmava. Sua vida favorita de um p...

Boletim Letras 360º #203

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O primeiro Boletim do ano de 2017. Nesta semana, além das notícias publicadas em nossa página no Facebook, iniciamos a releitura de algumas das principais matérias de destaque no blog durante o ano que findou: é a #RetrospectivaDoLetras2016. Também adiantamos a segunda parte de uma promoção que se iniciou com a enquete aos leitores do Letras sobre os melhores de 2016; com essas respostas publicamos uma lista de leitura dos nossos leitores e sortearemos (de surpresa) alguns que levarão livros de sua preferência. Deixe está - o ano só está no começo e pensamos sempre em novos agrados aos amantes dos livros.  Apresentado como um dos mais importantes ficcionistas da literatura argentina recente, morreu Ricardo Piglia. Segunda-feira, 02/01 >>> Brasil: Prometido para 2016, Sátántangó  sairá em 2017. Considerado um dos favoritos ao Prêmio Nobel de Literatura, este é o romance mais conhecido do húngaro László Krasznahorkai. Tango de Satã  como se...

Duas peças de Harold Pinter

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Por Pedro Fernandes Toda criação artística resulta de uma obsessão do seu criador. No caso de Harold Pinter – apesar de não nos encontrarmos diante de um criador de narrativas – sua obsessão foi a linguagem. Essa preocupação não se é demonstrada a partir de um exercício estilístico no que isso possa significar num trabalho com a gramática de uma língua; essa preocupação se demonstra numa dimensão mais profunda porque se relaciona com um interesse de esgarçar, a partir das condições comunicativas mais triviais aquelas possibilidades que dizem ser a comunicação a mais perfeita das criações. Harold Pinter parece zombar desse preceito ou tomar como tese a constatação de que o caos é ordem da comunicação ao colocar em suspenso – seja pela repetição, pelo artificio da dúvida ante o dito ou mesmo pelo questionamento direto sobre as maneiras de dizer – a linguagem. Para isso, trabalha com as sentenças mais objetivas possíveis, aquelas usuais e pragmáticas do nosso cotidiano no...

Boletim Letras 360º #202

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Filme a partir da obra de Hilda Hilst deve sair no primeiro semestre de 2017. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Definitivamente o último Boletim de 2016, um ano que foi de um extremo ao outro em boas e más notícias, um ano, para nós do Letras, mais de planos que realizações. Não podemos passar às notas de a seguir sem lembrar aos leitores que responderam nossa enquete online no Facebook por quase uma semana interessada em saber qual livro havia marcado o ano que agora finda que a segunda parte (a que sorteará brindes e leitores) está disponível cf. notificamos nos comentários da post . Sortearemos três leitores que ganharão brindes surpresas para começar 2017 com o pé direito nas leituras. Por falar em Facebook, na segunda-feira, 2 de janeiro, inciamos a #RetrospectivaDoLetras2016, uma oportunidade de reencontrar alguns dos principais textos publicados por aqui durante todo o ano. Estejam conosco! Aproveitamos para desejar tudo bom a todos no ano que se inicia; q...

Os melhores de 2016

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Por Pedro Fernandes Há quem abomine as listas. Quem diga que elas se tornaram o clichê da nova web e de metidos a colecionar tudo e não terem contato com nada. Faço e copio listas no Letras desde quando lista era coisa vã e asseguro: elas têm um valor importante. Evidentemente que não discordo da posição dos rejeitadores – ardilosos estão em tudo –, mas no meu caso as listas são um norte entre tanta informação, uma meta entre tantos compromissos, um mea culpa entre tantos pecados cometidos. Quando organizo uma lista de final de ano como esta eu posso rever as jornadas de leitura, os afetos e desafetos construídos em torno de determinadas obras, a abertura de outros rumos na minha formação de preceptor da arte e da criação, o quanto ainda é preciso aperfeiçoar para se ler mais e melhor e como ainda tem chão a ser percorrido. Mas nenhuma angústia; ao contrário, a lista é um antídoto contra a angústia. 2016 foi um ano de muitos planos e pouco ou quase nada de ...