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Os livros e as armas

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Por Alba Piñar Calcula-se que no mundo existe um arsenal de 650 000 000 de armas. O número é assustador, mas em países como Estados Unidos é ainda pior: calcula-se que existam mais armas que pessoas. Em agosto de 2010, o Google recorreu alguns de seus misteriosos algoritmos para determinar o número exato de livros que havia no mundo e deu esta quantidade: 129 864 880. Apesar de passado alguns anos desde então e de que tenham sido publicados vários milhões de novas histórias e vários milhões de armas tenham sido colocadas em circulação, podemos afirmar com toda segurança que no mundo há mais armas que livros. Um livro e uma arma não se parecem em nada, mesmo os livros tendo folhas como espadas, mesmo podendo disparar verdades e às vezes falharem. Acredito que concordará comigo ao considerar que, a priori , qualquer pessoa descartaria considerar que são coisas parecidas, inclusive são coisas que podem chegar a conviver, mas a realidade se empenha em nos contradizer: em vár...

Frida Khalo: do hieratismo perante a dor

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Por Márcio de Lima Dantas Calo-me diante das telas de Frida Khalo. Silencio numa melancólica aquiescência dos que aprendem desde cedo a respeitar, e se identificar, com os assinalados, doadores de sangue e martírio para a sombria deusa Hécate, ergo a cabeça apenas para contemplar os que tomam a iniciativa inglória de se confrontar com um destino aziago, lançando exércitos suicidas contra o implacável poder das Parcas. Eis-me despido diante das cores fulgurantes da pintora mexicana, mulher que me despe de pronto, deixando-me frágil, nu, atirando-me em direção aos recônditos abissais do meu ser, arrancando flâmulas arquetípicas das minhas aras interiores, chafurdando no movediço do meu imo. A existência-obra de Frida é o discurso plangente do órfão que ama uma madrasta perversa chamada Vida. É o “sim” primoroso e ardente de quem aceita as migalhas atiradas com desprezo e parcimônia pelos deuses. Frida teve a coragem de desdenhar dos donos da situação, contrapondo-se a um...

O progresso do amor, de Alice Munro

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Por Pedro Fernandes Neste livro, fica ainda mais visível a grandiosidade de Alice Munro com uma forma literária sobre a qual é especialista. O parâmetro para a constatação é pequeno – o da relação com Ódio, amizade, namoro, amor, casamento – e por isso mesmo pode ser questionado facilmente. Sobretudo, porque deve ser, dada a peculiaridade da escritora em se dedicar apenas à narrativa curta, prática recorrente noutras obras. Mas, esta afirmação se dá porque nela o leitor encontrará o elemento fundamental que sustenta a afirmativa de abertura deste texto. Por longa data, construiu-se uma tradição do conto a partir dos postulados por Edgar Allan Poe. Isto é, a narrativa curta, dada a brevidade precisa obedecer uma estrutura que zele pela unidade e isso só é possível alcançar se o escritor for capaz de condensar ao limite a informação crucial do enredo e ainda assim não revelá-la integralmente no seu desfecho, obrigando o leitor à leitura de um só golpe e à suspe...

Seishi Yokomizo, o rei do romance policial japonês

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Por Sergio Vera Hoje quando vemos, tão educados e tímidos, não podemos esquecer: os japoneses são guerreiros. Passaram séculos lutando entre eles, nunca a katanazo limpa, desde quando Tokugawa Ieyasu venceu na batalha de Sekigahara (1600). Assim que, para recuperar o tempo perdido, quando o Japão abriu suas fronteiras de novo em finais do século XIX, em apenas cinquenta anos, o país do Sol Nascente se meteu numa diversidade de confrontos. Sem perder a ironia, pouca coisa. Só uma guerra contra os chineses (entre 1894 e 1895) e outra contra os russos (1904-1905). E por onde os japoneses saíram? Em 1937 voltaram a invadir a Manchúria, começando a Segunda Guerra chino-japonesa que logo se diluiu na Segunda Guerra Mundial. E não contentes com tudo, em 1941, a Marinha Imperial Japonesa atacou a Pearl Harbor, base naval dos Estados Unidos e quartel-general da frota estadunidense do Pacífico, na ilha de O’ahu, no Havaí. Se até então foram bem sucedidos, no fim de tanta guer...

Clara dos Anjos: a chaga dos anos 20

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Por Thaís Farias Vargas Di Cavalcanti.  Lima Barreto: o triste contemporâneo Clara dos Anjos é um romance do “escritor maldito”, alcunha dada a Afonso Henriques de Lima Barreto pelo literato e jornalista H. Pereira da Silva. A trama é desenvolvida nos bairros do subúrbio do Rio de Janeiro, que se transforma em palco de denúncia social, onde o cotidiano da mestiçagem é destrinchado sem floreios, sem rodeios, marcando a exclusão daqueles que residem no “refúgio dos infelizes”, como enuncia o narrador desta triste novela. Cabe dizer antes de qualquer escrito que Lima Barreto foi avaliado negativamente no mundo literário, não só durante a existência corpórea, mas também postumamente. Muitos críticos, em especial aqueles que organizam os manuais sobre a história da literatura brasileira, relatam que o romancista escreveu sobre suas vivências, não dissociando as mazelas pessoais das obras; muitos desses críticos são ferozes no que concerne ao estudo de s...

Boletim Letras 360º #229

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Lima Barreto. Nunca se falou tanto sobre o autor e sua obra nunca foi tão reeditada como no ano sabático de 2017. Nesta semana vieram online as duas novidades divulgadas no último Boletim Letras 360º: o blog recebeu uma nova colunista, a poeta Fernanda Fatureto ; e iniciamos a promoção que sorteará os quatro volumes da série napolitana, da Elena Ferrante, editada pela parceira Globo Livros / Biblioteca Azul. No nosso Instagram . Segunda-feira, 03/07 >>> Brasil: A infância de Aninha. Uma coletânea reunirá textos da poeta Cora Coralina para os mais jovens A edição é da Global Editora, responsável pela obra de Coralina no Brasil. Lembranças de Aninha  reunirá 12 textos escritos pela poeta sobre sua infância em Vila Boa de Goiás, no final do século XIX. São textos já publicados em outros livros da autora, mas reunidos agora numa edição ilustrada. A antologia compila, entre outros, "O boi de guia", "A fala de Aninha – é abril e as meninas", ...