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“Por favor, ajuda-me, meu bom Deus, a ser uma boa escritora”

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Por Cristina Sánchez-Andrade Em 1958, depois de Flannery O’Connor mergulhar no manancial com propriedades curativas do Santuário de Lurdes, disse – parafraseando uma amiga e com o sarcasmo que a caracterizava – que “o verdadeiro milagre era não contagiar-se por uma epidemia através dessa água suja”. Mesmo relutantemente, havia ido ali como parte de um grupo – “mulheres católicas levadas em manada de um lugar a outro”, como ela própria explicou – de peregrinação à Lurdes, viagem promovida pela diocese de Savannah. A escritora, afetada pelo lúpus, era consciente de que não lhe restavam muitos anos de vida e nessa viagem pela Europa quis tentar de um tudo; entre outras coisas, uma audiência com o papa Pio XII na Basílica de São Pedro. Morreria seis anos depois, mas em todo caso o acontecimento ilustra perfeitamente duas importantes chaves de sua escrita: a ironia e sua dimensão religiosa. O primeiro aspecto é algo que salta à vista numa primeira leitura de sua obra. O...

Boletim Letras 360º #296

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As notícias que copiamos da última segunda a sexta-feira em nossa página no Facebook estão, como de costume há 293 sábados, disponíveis a seguir. Aproveitamos a ocasião para relembrá-los que esta é a última semana para se inscrever na promoção que realizamos em parceria com a editora HarperCollins Brasil; o sorteio de um exemplar da belíssima biografia de J. R. R. Tolkien escrita por Humphrey Carpenter acontecerá no próximo dia 26 de outubro. Para participar é muito simples .  Uma biografia de Jorge Amado chega às livrarias brasileiras em novembro. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Segunda-feira, 15/10 >>> Brasil: Peça inédita de Ariano Suassuna ganha edição As conchambranças de Quaderna  é publicada no mês de novembro pela Editora Nova Fronteira. No dicionário regional, conchambrança significa um acordo, um combinado, um conchavo. Escrita em 1987, depois de mais de duas décadas sem se dedicar ao teatro, a pe...

Sobre bolhas sociais e debates políticos em redes sociais

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Por Rafael Kafka Ontem me peguei discutindo com um defensor do fascismo. Um defensor eloquente, não o tipo irritante de cada dia que usa das notícias falsas para propagar a defesa de seu candidato. Mas uma mente que sabia disfarçar sua ignorância com o uso bem arquitetado de alguns conceitos econômicos, os quais expuseram a mim brechas em minha formação leitora. Mesmo sendo da área de Letras, comecei a me sentir irritado por não dominar tais conceitos e usar contra aquela pessoa numa tentativa, mesquinha e egotista, de impedir que a mesma espalhe boatos por aí, inverdades tolas baseadas em cortes de direitos sociais e trabalhistas para garantir o bom desempenho numérico do país. Na mente de pessoas assim, um mercado forte e que se auto regula garante emprego, poder de compra e felicidade a todos. A desigualdade social é algo que deve ser superado por esforço pessoal e pelo Estado deixando as empresas explorarem tal esforço de seus empregados. No afã dos debates acalorados...

O anel do general, de Selma Lagerlöf

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Por Pedro Fernandes “Tinham se embebido de medo de malfeitores com o leite de suas mães; tinham sido ninados até dormir com cantigas sobre bandidos. Consideravam todos os ladrões e assassinos como abominações e demônios, que não deviam mais ser considerados seres humanos. Não achavam necessário lhes mostrar qualquer compaixão” – a reflexão é do narrador de O anel do general na altura em que acompanha, pelo levantamento dos ânimos do pequeno povoado de Broby, o julgamento de três acusados de assassinato de um jovem para o roubo da peça de extrema valia que ocupa do título ao núcleo principal da narrativa. O excerto é trazido aqui porque justifica em parte uma compreensão dos elementos motivadores da obra. Noutra passagem, como se num arroubo metanarrativo, o narrador interpõe: “A caneta cai de minhas mãos. Não é inútil tentar escrever essas coisas? Essa história me foi contada ao crepúsculo à luz de uma fogueira”. Selma Lagerlöf é, por assim dizer, quem se embeb...

Contra o ensimesmamento: Montaigne e a escrita da leitura

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Por Guilherme Mazzafera Salvador Dalí, ilustração para Ensaios , de Montaigne A palavra é metade de quem fala, metade de quem a escuta. Este deve se preparar para recebê-la, segundo o movimento que ela faz. Montaigne, “Sobre a experiência” Meu encontro com Montaigne se deu em circunstâncias precisas. A seleta d’ Os ensaios acumulava pó na estante há mil dias, comprada unicamente pelo encanto causado pela leitura, na faculdade, do ensaio sobre “Os canibais”. Livros comprados enfrentam sinas diversas: alguns são lidos antes de encontrar alojamento; outros, maturam-se por anos de espera e resignação. Ao saber da morte de meu avô, da iminência da viagem e dos dias difíceis que se seguiriam, coloquei-o na mochila e parti rumo a Minas Gerais. Sua leitura incutiu-me um sabor pessoal de descoberta.    Momentos profundos de perda instilam uma necessidade estranha de tudo repensar, em uma tênue linha contemplativa que avoeja da experiência íntima, individual da ...

Madame Bovary: erotismo e sensualidade

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Por Nesfran Antonio González Suárez "Nude on coastal rocks", Warren B Davis Madame Bovary é considerado por uma unanimidade de vozes o romance mais refinado no âmbito literário. É um manual de indução, um curso intensivo do gênero escrito de meados do século XIX e cuja vigência não se vê ameaçada com transcorrer dos anos. Mario Vargas Llosa faz alusão em seu estudo A orgia perpétua a um ponto principal no qual coloca Flaubert; para o escritor peruano, o francês é o primeiro romancista moderno, seguindo a opinião de Ernst Robert Curtius no ensaio Reencontro com Balzac : “Balzac sente um ardente interesse pela vida e nos contagia com seu fogo; Flaubert, com sua náusea”. É por causa de Madame Bovary que Gustave Flaubert (Ruan, 1821; Croisset, 1880) enfrenta em 1857 um processo judicial por ofender a moral e bons costumes; depois de sua absolvição o romance é publicado e obtém enorme êxito. A obra narra a experiência de Emma Rouault, uma jovem ...