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Milan Kundera, o apátrida que vive na literatura universal

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Por Jesús Ruiz Mantilla Milan Kundera. Foto: Gisèle Freund Nos romances de Milan Kundera, você raramente lê a palavra Tchecoslováquia. Tampouco algo que venha do lugar. Por outro lado, não há autor vivo que tenha retratado melhor a alma efêmera de um país que mal resistiu ao seu próprio nome por setenta anos. As figuras que povoam seu mundo pertencem à Boêmia. O que também é algo redutivo para alguém que nasceu na Morávia: especificamente em sua capital, Brno, em 1º de abril de 1929. Convenhamos que, a partir da soma de ambas as terras, junto com a Silésia, existe hoje o que conhecemos como República Tcheca e que Kundera procede dessa convenção territorial, além de ter usado essa língua para criar a maioria de suas obras-primas. É apenas por isso, não porque esteve retido da nacionalidade e do seu passaporte roubados em 1979 e que seus compatriotas, não isentos de vergonha e pedindo perdão, fizeram retornar para as mãos do escritor. O episódio recente se deu na intimi...

O seminarista, de Bernardo Guimarães

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Por Pedro Fernandes Nicholas Chistiakov. The Black Pope   Toda vez que o nome de Bernardo Guimarães aparece para os leitores mais assíduos de literatura brasileira, ou mesmo para aqueles que guardem um mínimo conhecimento sobre os principais escritores e obras literárias do nosso cânone, será sempre associado ao romance A escrava Isaura . Essa associação não é, obviamente, gratuita. A história de uma escrava branca envolvida no sem-número de crueldades de um carrasco obcecado foi não apenas sucesso de vendas aquando de sua publicação como terá perdurado no nosso imaginário depois das adaptações para a TV como telenovelas: primeiramente pela Rede Globo, obra vendida para uma quantidade sem fim de países; e, mais tarde, por puro capricho de copiar sucessos, pela Rede Record. Mas, não é essa obra mais conhecida o melhor do escritor mineiro. Antonio Candido, em Formação da Literatura Brasileira , caracteriza Bernardo Guimarães como um contador de casos, uma fusão de ...

Kholstomer – história de um cavalo

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Por Davi Lopes Villaça Lendo Tolstói parecemos escutar duas vozes que se contradizem sem jamais atentar à existência uma da outra. Pois esse autor, que tão severamente investe contra os vícios humanos, é também o maior admirador da vida desregrada, guiada apenas pelos ímpetos do corpo e dos instintos. Ele nos fala às vezes como um velho cristão, sinceramente arrependido dos pecados da juventude; mas eis que, no momento seguinte, parece esquecer-se de sua conversão para recordar aqueles dias felizes de entrega, quando a consciência do pecado não havia e, por isso, tampouco o próprio pecado. Thomas Mann o descreveu como um “filho da natureza”, marcado por “tentativas imensamente desajeitadas e jamais bem-sucedidas de espiritualização moral de sua corporalidade pagã”. É tentador imaginá-lo assim como um símbolo da própria Rússia do século XIX, esse país, como o viam muitos russos, ainda mal civilizado pela cultura europeia e que vivia na nostalgia de sua antiga barbárie. Um bo...

É possível ler “A montanha mágica” em nossos dias?

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Por Karl Krispin   “...mas quando olho para trás, em retrospectiva, tenho a sensação de trazer aqui quem sabe há quanto tempo, e que uma eternidade se passou desde o dia em que cheguei e, desde o início, não percebi que já havia chegado e você me disse: ‘Você não vai descer?’” Thomas Mann, A montanha mágica Nosso mundo contemporâneo parece ter uma relação um tanto contraditória com os romances de grande extensão. Obras como Dom Quixote de La Mancha , Guerra e paz ou A montanha mágica foram acusadas de serem muito volumosas e, portanto, incompatíveis com a civilização atual que leva um tempo curto. Alguns especialistas pontuam que a leitura que melhor se ajusta à nossa era é a da ficção breve. O que foi exposto nada mais é do que uma falsidade e uma pretensão na mesma categoria daquela que diz “uma imagem vale mais que mil palavras” (por que essa frase tão reciclada nunca foi expressa com uma imagem?). A literatura do consumo em massa fabric...

Rebecca West, o clássico da literatura britânica ainda por se descobrir

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Por Ana Marcos Rebecca West, 1980. Foto: David Montgomery / Getty Images Rebecca West conseguiu percorrer parte do século XX desfazendo qualquer possibilidade de que seu nome e obra fossem associados com algum rótulo ou uma ideologia. Conseguiu isso com um olhar particular sobre a história da Iugoslávia, os julgamentos de Nuremberg do regime nazista e sua maneira de entender o feminismo – então concebidos como ódio aos homens. “Eu nunca fui capaz de descobrir exatamente o que é feminismo; só sei que as pessoas me chamam de feminista toda vez que expresso sentimentos que me diferenciam da condição de um capacho”, disse ela. Foi assim, até se tornar uma das figuras mais relevantes da literatura do último milênio. West nasceu em 1892 em Londres com o nome Cecily Isabel Fairfield que rapidamente mudou para Rebecca West em homenagem à heroína rebelde da obra A Casa de Rosmer , de Henrik Ibsen. Aos 16 anos, ela deixou a escola para se tratar de uma tuberculose e desde...

Boletim Letras 360º #355

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Outra semana para a conta da nossa história. E as histórias que fizeram a semana em nossa página no Facebook estão disponíveis abaixo com as seções de costume desde certa altura das publicações do Boletim Letras 360º: as dicas de leitura, de materiais extra-blog e ligados aos nossos conteúdos e a revisitação no universo de quase quatro mil entradas nesses já 13 anos online. Boas leituras e obrigado pela sua fundamental companhia.  Foto: Pavel Vacha, 1968. Milan Kundera tem sua cidadania tcheca recuperada.  Segunda-feira, 2 de dezembro Editora portuguesa publicará fotobiografia de Jorge de Sena . O anúncio vem no final do ano do centenário do nascimento do poeta português. Segundo a editora Guerra e Paz, responsável também pela publicação das cartas entre Jorge e e Sophia de Mello Breyner Andresen, a edição é organizada pela pela filha mais velha do escritor, Isabel de Sena. Com este livro se publicará um outro: com a correspondência entre Jorge e o capitão J...