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Nossas noites, de Ritesh Batra

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Por Maria Louzada Kent Haruf escreveu o livro (a propósito deste autor, a renomada, inteligente e arguta autora Ursula K. Le Guin escreveu: “Pelo que eu saiba, a coragem e o nível que Haruf alcançou em sua exploração das formas simples de amor — o eterno estado de frustração, o custo de um longo prazo de lealdade, o conforto do carinho cotidiano — não têm iguais na ficção contemporânea.”). A Netflix produziu o filme.  Mais de cinquenta anos depois de terem estado juntos no sucesso das telas  Barefoot in the Park (Descalços no parque, 1967), Jane Fonda e Robert Redford se reencontram neste Our Souls at Night (Nossas noites, 2017). Ele aos 81, ela aos 79 anos. Eles haviam atuado juntos pela última vez em 1979, em um filme de Sydney Pollack, o western The Electric Horseman . Nossas noites é um filme para saudosistas? Ora, não se deve menosprezar o mérito maior do filme que é o de retratar um envolvimento entre duas pessoas que são viúvos, septuagenários e sol...

O que nos ensinam os grandes romances sobre a peste

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Por Orhan Pamuk Pieter Bruegel. O triunfo da morte , 1562, aproximadamente.  Desde há quatro anos estou escrevendo um romance histórico ambientado em 1901, durante o que é conhecido como a terceira pandemia de peste, um surto de peste bubônica que matou milhões de pessoas na Ásia, mas não tanto quanto na Europa. Nos últimos dois meses, amigos e familiares, editores e jornalistas que estão cientes do tema do romance, Noites de peste ¹ , me fizeram muitas perguntas sobre pandemias. O que move essa curiosidade é, sobretudo, as semelhanças entre a atual pandemia de coronavírus e os surtos históricos de peste e cólera. E há uma superabundância de relações. Em toda a história da humanidade e da literatura, no que as pandemias se assemelham não é apenas a coincidência de vírus e bactérias, mas o fato de que nossa primeira reação é sempre a mesma. A resposta inicial ao surto sempre foi negá-lo. Os governos nacionais e locais sempre demoram a reagir, distorcem os dados e...

Duas separações: A arte de produzir efeito sem causa e Dias de abandono

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Por Joaquim Serra Ilustração: Matthew Saba As notícias são recebidas por seres de diferentes perspectivas. Coincidentemente, nas duas narrativas há uma Olga envolvida. A Olga de Ferrante em Dias de abandono é uma mulher que se refaz para viver os primeiros dias de aflição com todas as contas e filhos que agora pesam e forçam o cotidiano da mulher que foi trocada por outra. A Olga de Mutarelli em A arte de produzir efeito sem causa é a mãe já falecida do protagonista Júnior, mas que acaba por ser o centro de um drama familiar que é contado em segundo plano. Através do narrador em terceira pessoa, sabemos sobre a traição da mulher de Júnior e os primeiros dias após a separação que aparecem por meio das frases lacônicas e nas palavras repetidas que ao mesmo tempo repelem e encontram os personagens na narrativa vertiginosa de um dos grandes narradores da chamada “literatura underground ”. Mutarelli é um escritor visual, certamente fruto dos anos como quadrinista. Isso s...

Boletim Letras 360º #376

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DO EDITOR 1. Estimado leitor, como está? A pergunta mais difícil para os dias de então inteira aqui uma maneira de reafirmar que, do lado de cá, partilho com vocês dos medos, das angústias, das expectativas sobre um momento tão terrível para a humanidade e, mais ainda para nós brasileiros, entregues nas mãos de gente facínora que nos joga à própria sorte e se ri de nossa tragédia. Partilho também da centelha de esperança, afinal é fundamental acreditar em alguma coisa. E, peço, o quanto puder ajudar os nossos semelhantes nessa hora, ajudemos. Reforço o pedido que se tornou universal: se puder, fique em casa. E estar em casa é sempre uma oportunidade de ouro para ler. 2. Este Boletim, já sabe, reúne as informações disponibilizadas (ou não) na página do Letras no Facebook e traz uma variável de recomendações que podem servir de companhia para estes e dias vindouros. Obrigado pela companhia e, boas leituras! Romance inédito de Simone de Beauvoir é publicado até o final de...

Fim de semana em Cabo Frio

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Por Paula Luersen José Pancetti. Cabo Frio . 1947. (Detalhe) Ocupei-me da tarefa: escrever a partir do título de uma crônica de Paulo Mendes Campos, o meu próprio texto. Este que lhes apresento. Porém, amigos, já advirto: nunca estive em Cabo Frio. O que não impede, por certo, que eu me atreva aqui a uma crônica de memória. Uma crônica-suspiro, à moda de Gilda Marinho, a moça que Luís Fernando Veríssimo narrava sentar-se, ainda criança, na porta de casa em Pelotas, confessando ao mundo: “Que saudades de Paris!”. Ela nunca havia estado no Arco do Triunfo, na Champs-Elysées, ou mesmo na Torre Eiffel. Ainda assim, por lá já passeava sua alma pueril, que suspirava sôfrega, do outro lado do mundo, a falta que fazia ao espírito a sua Paris inventada. Pois Paris, sem se conhecer, conhece-se. Mas e o que dizer de Cabo Frio? Segundo Paulo Mendes Campos, que o lugar ofertava os finais de semana mais alegres, de uma forma tão excessivamente perfeita que chegava ao ponto da felic...

O templo, de Stephen Spender

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Por Pedro Fernandes A obra de Stephen Spender é longa e se inscreve entre a dos principais nomes da poesia de língua inglesa de meados do século XIX: T. S. Eliot, quem o descobriu; W. H. Auden, de quem foi amigo muito próximo; Ted Hughes, Joseph Brodsky, entre outros. Afora as relações de amizade e de profissão, sua obra poética é reconhecida por figuras de grande relevo na literatura europeia dentro e fora de seu tempo. Assim, que os leitores brasileiros tenham por referência primeiro sua prosa é uma daquelas circunstâncias inusitadas mas não raras. O templo , cuja irretocável e primorosa tradução executada por Raul de Sá Barbosa foi recuperada nos anos finais da primeira década de 2000 depois de há muito esgotada, é um dos poucos trabalhos do escritor inglês em ficção. Fora este romance, restam Engaged in Writing e The Fool and the Princess (novelas), The Backward Son (romance) e The Burning Cactus (uma coletânea de contos). O templo foi escrito entre 1929 e 1932...