Nos tempos de Casanova

Por Thiago Teixeira 

A fuga de Giacomo Casanova da prisão de Piombi em 1756. Ilustração do século XIX da revista Scribner's Monthly.



Iniciei, não há muito, um percurso pelas quase quatro mil páginas das Memórias de Casanova (ou História da minha vida). O fim desse caminho ainda está bem distante, mas por ora o viajante já tem lá suas impressões de viagem, versando principalmente sobre a questão da memória humana e sobre o mundo representado pela obra. 

Pois uma das coisas que me surpreendem até agora é a capacidade daquela mente em juntar tantos acontecimentos, detalhes, nomes — claro, desde que, inocente e provisoriamente, contemos com a boa-fé do pacto não ficcional. 

A memória do autor é surpreendente: quase quatro mil páginas de relatos, descrições minuciosas, reconstituição de diálogos, uma miríade de nomes. Por ela simplesmente conhecemos o século XVIII europeu, seus costumes, classes sociais, códigos, valores, cultura, o que levou Blaise Cendrars a dizer que as Memórias são uma enciclopédia do século XVIII — com o perdão dos Enciclopedistas. 

Mas a obra também aponta para as limitações da memória humana, talvez o fator mais interessante. Podemos dizer que a memória faz parte do grupo de recursos cognitivos do homem que realizam a presença de algo ausente. E se pensarmos nas lições de Paul Ricœur, os gregos já tinham uma palavra com que designar a presença de algo ausente, a palavra eikon, que significa imagem, semelhança, retrato. Para Ricœur, a eikon não é mera cópia ou reprodução do real, mas representação interpretativa que reconfigura fatos passados, ou o que preferimos aqui chamar de elaboração. A memória traz imagens, presentifica aquilo que não está mais aqui e que, no entanto, trago para cá como uma realidade específica.  Acontece que a imaginação coparticipa dessa missão, ela também é eikon nesse sentido, quando cria algo que também não está aqui a não ser como coisa elaborada por mim, algo que não existe factualmente e passa a existir enquanto imagem mental, com uma realidade própria. 

No famoso episódio da Prisão dos Chumbos — i Piombi —, nos deparamos com um acontecimento significativo para essas nossas reflexões.  

A vida de libertino do autor — à maneira Iluminista — acabou provocando a sociedade em que vivia, pelo que acabou sendo condenado à prisão. Foi acusado de desrespeito pela religião, espalhar ateísmo e ter em casa livros proibidos. Sobre os livros, eles são listados com naturalidade pelo autor — embora tenham sido censurados nas edições correntes das Memórias —, e consistiam, boa parte, em livros de ocultismo e Cabala, o que demonstra erudição de Casanova, ao modo renascentista, considerando o interesse pelo intelectual renascentista por esses assuntos. Outros livros são listados ao longo da obra por meio de citações de versos e autores, consolidando o autor como um intelectual de formação clássica, versado em gregos e romanos, conhecedor de literatura e filosofia, um pensador inquieto que já formava o caldo cultural daqueles philosophes do Iluminismo. 

Os Chumbos, que inspiraram a Torre Farneses de A cartuxa de Parma de Stendhal, são descritos como a prisão mais temida da época, localizada em Veneza, no sótão do palácio ducal. Uma torre inacessível, em uma cela inacessível: era impossível evadir-se; quem ali caia e não contasse com a simpatia dos promotores e carrascos, corria sério risco de morrer esquecido, acometido por alguma doença dos pulmões. Aliás, sem a vergonha de confessar algo tão íntimo, Casanova viu a própria saúde arruinar-se com a piora das hemorroidas e constipações. 
Ele foi a primeira pessoa da história a fugir da prisão. Mas o que nos interessa mais de perto é o momento em que ele, diante da pesada porta, sente-a tremer. 

Nesse mesmo tempo aconteceu-me um incidente que me deu o retrato da miserável situação de minha alma. Eu estava de pé, no sótão, olhando para cima em direção à claraboia: eu olhava igualmente a grande trave da porta. Laurent, meu carcereiro, saia de minha cela com dois de seus homens, quando vi a enorme trave não propriamente balançar, mas pender para o lado direito e voltar à posição inicial em movimento contrário, lento e atravancado: ao mesmo tempo, tendo sentido que eu havia perdido o prumo, fui convencido de que se tratava de um tremor de terra, e meus homens também o perceberam: eu não disse nada e me senti regozijado com este fenômeno. Alguns segundos depois, esse mesmo movimento se repetiu; e eu não pude impedir que estas palavras escapassem de minha boca: un’altra, an’altra, gran dio, ma più forte [mais uma, mais uma, grande Deus, e mais ainda mais forte]. Os arqueiros, assustados com o que para eles parecia a blasfêmia de um louco, fugiram de horror. Em exame posterior, dei-me conta de que, avaliando os fatos possíveis, o desmoronamento do palácio ducal era uma oportunidade de recuperação da minha liberdade: o palácio demolido deveria lançar-me sem o menor dano, a são e salvo e livre, sobre o belo calçamento da praça de S. Marc. Foi assim que comecei a enlouquecer. Esse abalo veio do mesmo tremor de terra que esmagou Lisboa. 

Aqui se notam alguns movimentos intencionais. Em primeiro lugar, a repetição de que a trave da porta era enorme, realmente para ressaltar a impossibilidade de ela ter se mexido de forma natural. Uma trave como aquela, sugere o autor, só poderia ter se mexido por um terremoto. Para reforçar a veracidade do relato, ele recorre ao testemunho: não somente ele, Casanova, presenciou o estranho acontecimento: seus homens também o viram, os arqueiros chegaram a sair correndo.  A estranheza de o protagonista clamar, com regozijo, que houvesse mais tremores explica-se adiante: ele via no tremor a oportunidade de evadir-se; tanto que, percebendo a oportunidade eclipsar-se, ele começou a enlouquecer.  

O problema está no começo e no final do parágrafo. No começo ele confessa que sua alma não estava em boas condições, leia-se: com o tempo já decorrido de prisão, suas faculdades não estavam saudáveis — seriam os primeiros sintomas do citado enlouquecimento? Depois, para piorar, ele afirma com convicção que o abalo sentido era o mesmo que vitimara Lisboa, a mais de dois mil quilômetros dali. Ora, se para o leitor da época esse fato é impressionante, afinal, o terremoto de Lisboa foi um dos fatos mais marcantes na Europa do século XVIII e Casanova estaria se afirmando como uma testemunha desse fato histórico, para nós, leitores modernos, munidos de mais informações, o impressionante do relato recai em outra direção: é que Casanova estava simplesmente enganado, pois não era possível que ele sentisse de Veneza o terremoto de Lisboa.

E é aqui que oscila toda a confiabilidade da memória de Casanova. Teria mesmo acontecido um tremor de terra? Quanto da memória de Casanova há de misturas temporais, confusões geográficas e históricas, interpretações errôneas e meros achismos?  Questionamos a veracidade, se não do relato, ao menos da interpretação. Se realmente houve movimentação da porta, a causa ou seria desconhecida ou seria psicológica, e sendo psicológica recairia em suspeitas tais como: Casanova realmente viu a porta oscilar ou imaginou que ela oscilava? Os arqueiros fugiram dos tremores ou dos gritos do blasfemo? Teria havido uma falsa memória? Teria Casanova simplesmente inventado ou mentido? Ele, no final das contas, acabou descrevendo um não registrado terremoto local?

Ele estava doente, preso já há bastante tempo, debilitado e, certamente, em más condições intelectivas, ainda que tentasse manter-se intelectualmente ativo com as leituras, de maneira que não seria impossível ele ter tido alguma visão ou simplesmente tivesse as faculdades fragilizadas. Afinal, ele mesmo confessa  “a miserável situação de [sua] alma”. Ele pode muito bem ter criado uma falsa memória. 

Em sendo afirmativa alguma das perguntas levantadas, a confiabilidade do narrador se contamina pela suspeita de que sua imaginação possa ter influenciado a memória, ou de que a memória tivesse sido criativamente preenchida nos pontos cegos. Quando não, que sua interpretação do relato seria imprecisa, contaminando o relato em si mesmo. O fato é que a memória humana é criativa, não mero relato do real, mas uma elaboração condizente com o papel da literatura em dar unidade a uma biografia. É preciso escolher pontos de vista, ângulos, detalhes ou generalizações, panoramas e cenas, trazer diálogos, dar efeito e causa aos acontecimentos, gerar o narrativo com quadros descritivos. Sendo criativa a memória, apostamos que as de Casanova são relato literário em pleno sentido, formatadoras de um mundo, em vez de espelhos do real. Dão-nos, ao mesmo tempo, o mundo que foi e que poderia ter sido. 

E que mundo é esse que levou estudiosos a ver em Casanova um fiel cronista do século XVIII? O episódio dos Chumbos nos ajuda também aqui, pois evidencia o aspecto aventureiro da obra, mostra o mundo como um campo inesgotável de possibilidades para a experiência humana. Um homem da aristocracia europeia, rico, livre, chega a ponto de fugir da mais hermética das prisões, iniciando o topos que vai de um D’Artagnan de Dumas a um Estácio de José de Alencar, de uma Cartuxa a um Papillon. Há em Casanova a concepção de um mundo grande, cheio de experiências possíveis, de aventuras, um mundo aberto e convidativo à liberdade humana, uma concepção que, nós modernos, mal conseguimos vislumbrar. 

Não é à toa que o já envelhecido Casanova escreva no prefácio, muitos anos depois dos acontecimentos narrados: “Ninguém vai poder dizer que não me diverti”. Ecoa, claro, o primeiro dos que confessaram a intimidade, Montaigne, e seu “Não faço nada sem alegria”. 

Sim, Casanova, aquele seu mundo e aquela sua condição social lhe deram a possibilidade de diversão real, pelo que nós, homens de um mundo agonizante (um mundo em que, mostrou Adorno, nem a diversão é possível) invejamos. E talvez seja esse mundo de alegria para os homens o que nos imanta às Memórias de Casanova: queremos saber como foi esse mundo, queremos descobrir como abrir novas possibilidades para o nosso real. A obra de Casanova, ainda que escrita no passado, talvez seja para nós, desmemoriados leitores modernos, uma utopia — a qual, como toda utopia, pode habitar o nosso futuro. 

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