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Rei Lear na pandemia

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Por Santiago González Sosa y Ávila Rei Lear. Benjamin West (1788). Museu de Belas Artes, Boston Que imagem mais sugestiva do que a de Londres em 1606, atingida pela praga? As ruas desertas, as lojas fechadas, um ou outro cachorro sem dono, os teatros vazios, o estrídulo dos sinos que dobram diante das dezenas de mortos e William Shakespeare isolado escrevendo Rei Lear em seu ócio produtivo. Sem dúvida, uma lenda demasiado romântica para não repetir até a exaustão. Ou seria, se ao menos não falássemos da mais tremenda tragédia shakespeariana, a mais excruciante, aquela que “melhor reflete a mentalidade apocalíptica e o medo do declínio do mundo”. Vários meios de comunicação se envolveram na divulgação dessa anedota, talvez para nos inspirar ou discutir a probabilidade de que isso realmente aconteceu. Até James Shapiro, o especialista que serviu de fonte para muitos desses artigos, esclareceu que Shakespeare não compôs a peça quando a praga atingiu os londrinos, mas dura...

Breve história da ficção científica soviética e russa

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Por Rémy Bastien van der Meer O comunismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país. (Lênin) A Terra é o berço da humanidade ― mas ninguém pode viver no para sempre. (Konstantin E. Tsiolkovski) Se considerarmos o romance utópico  O que fazer?  (1863), em tradução livre, como os demais títulos referidos neste texto, de Nikolái Chernishevski como literatura investigativa ou fantasia científica (o termo russo original que seria equivalente a ficção científica nos Estados Unidos a partir de 1926), então ― sabendo que Lênin foi profundamente influenciado por esse trabalho, e que ele escreveu em 1902, um tratado político com o mesmo título ― este poderia ser incluído entre os livros mais influentes da história da literatura soviética e russa. 1 E, por mais curioso ou estranho que possa parecer, é provavelmente na União Soviética e na Rússia que esse gênero literário teve a maior influência, em todos os aspectos, e particularmente na h...

Boletim Letras 360º #386

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DO EDITOR 1. Caros leitores, abaixo estão as notícias divulgadas durante a semana na página no Facebook (ou não) e a atualização das demais seções deste Boletim com as recomendações de leitura, assuntos de arredores do campo de interesse do blog e a sugestão de visita a algumas das publicações apresentadas aqui. Obrigado a todos pela companhia ― sigamos juntos. Boas leituras! Alexandre O'Neill. Foto: Nuno Calvet. Obra do poeta português é publicada pela primeira vez no Brasil.  LANÇAMENTOS Nova edição e tradução de um clássico de Robert Louis Stevenson . Nas sombrias ruas de Londres, um criminoso sem escrúpulos espreita. Seu nome é Sr. Hyde, e sua conexão íntima e injustificada com um respeitável médico da vizinhança, o Dr. Jekyll, é motivo de suspeita. Publicado pela primeira vez em 1886 com o título Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde , esta novela é um clássico do autor escocês Robert Louis Stevenson. Seus personagens se tornaram célebres e influ...

O mito inesgotável de “O Grande Gatsby”

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Por Greil Marcus O Grande Gatsby , de Baz Luhrmann (2013).  Um artigo interessante foi publicado no The New York Times há alguns anos: uma matéria em sua primeira página, em 23 de abril de 2013, com a manchete: “Julgar Gatsby pela(s) capa(s)”. Na ocasião da adaptação cinematográfica de O Grande Gatsby , a cargo do diretor australiano Baz Luhrmann, que seria lançada duas semanas depois, foram publicadas duas novas edições de bolso do romance que F. Scott Fitzgerald escreveu em 1925. A primeira era uma versão explicitamente relacionada ao filme, uma moldura art déco dos anos 20 com um recorte, por dentro, de Leonardo DiCaprio interpretando Jay Gatsby; com Carey Mulligan, no papel de Daisy Buchanan, localizada abaixo dele, e ambos cercados por pequenas imagens de Tobey Maguire como Nick Carraway, Elizabeth Debicki como Jordan Baker, Isla Fisher como Myrtle Wilson e Joel Edgerton como Tom Buchanan. A outra era a versão não explicitamente vinculada ao filme: uma edi...

De amor e trevas, de Amós Oz

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Por Pedro Fernandes Amós Oz. Foto: Leonardo Cendamo. “Aqui está você ― aqui é o centro do mundo”. A lição aprendida por Amós Oz a partir da leitura dos contos de Sherwood Anderson explicitada no desenvolvimento final deste longo itinerário memorialístico que percorre da infância ao nascimento do escritor é uma das chaves de acesso sobre De amor e trevas e este livro uma espécie de farol que ilumina todo o restante de sua vasta produção literária. A expressão assim deslocada de seu contexto pode favorecer ao leitor compreender à luz de certo narcisismo que se imiscui na gênese e por entre um texto autobiográfico. Isso porque se colocar como centro do mundo é, por si só, uma atitude egotista e marcada por um certo pretenciosismo. Mas, nada disso é o que se imprime neste livro e o sentido da expressão relaciona-se com outro gesto, este sim, fundamental a todo escritor porque integra seu longo itinerário de aprendizagem: o mundo sobre o qual escreve é o seu próprio mundo...