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Um Estado contra dois escritores

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Por David Toscana Boris Pasternak. Boris Pasternak não viajou a Estocolmo em 1958 para receber o Prêmio Nobel de Literatura, horrorizado com a possibilidade de que o governo soviético, liderado por Nikita Khrushchov, não o permitisse voltar para sua terra natal. A mesma coisa aconteceu doze anos depois com Aleksandr Soljenítsyn, agora com uma União Soviética sob o comando de Leonid Brejnev. Os dois escritores foram perseguidos e intimidados pela imprensa oficial, por colegas de classe ligados ao sistema, pelos serviços secretos, por funcionários comunistas, pelas gentes covardes. Doutor Jivago , Um dia na vida de Ivan Denissovitch , O primeiro círculo , Pavilhão de cancerosos apresentavam a arte literária e a realidade através da pena de dois homens de espírito livre, o que significava ter uma visão crítica de seu mundo, seu governo, seu país, seus tempos e suas próprias experiências. Acima de tudo, esses romances exaltavam o indivíduo acima da massa. A enxurrada de insultos, ameaças ...

E se Shakespeare não fosse Shakespeare (dúvida de Linguística Forense)

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Por Teresa Galarza Foi Shakespeare Shakespeare ? Sabemos quem foi Shakespeare. Mas foi ele quem escreveu toda a sua obra? Existem algumas teorias sobre isso. De acordo com os céticos, Shakespeare poderia ter sido, na verdade, Christopher Marlowe, ou Edward de Vere, ou uma mulher italiana — Emilia Bassano —, ou Sir Francis Bacon ou, talvez, ao invés de um único autor, um coletivo que incluiria vários atores e escritores.   Nos últimos anos, uma peça de Morgan Lloyd Malcolm despertou a curiosidade de alguns fãs de teatro e fofoqueiros: Emilia . A peça é sobre uma contemporânea de Shakespeare chamada Emilia Bassano. Nascida em Londres em 1569 em uma família de imigrantes venezianos — músicos e fabricantes de instrumentos, possivelmente judeus —, ela foi uma das primeiras mulheres a publicar um volume de poesia na Inglaterra.   A obra de Bassano, adequada aos padrões religiosos da época, também é considerada feminista. Sua existência foi descoberta em 1973 pelo historiador de Oxfo...

Ruy Guilherme Barata

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Por Pedro Fernandes Em alguns casos, não fosse a presença de um nome entre as referências da crítica ficaríamos por conhecer e cairia no total esquecimento determinados autores e obras, ou ainda, ficaria a obra circunscrita à lembrança dos mais próximos e do chão onde habitou o seu autor. Entre essas circunstâncias de limbo ― recorrente mesmo entre escritores vivos ― está o caso de Ruy Guilherme Barata. Para muitos, sobretudo os de fora da terra de origem do poeta, o primeiro contato com este nome se desenvolve a partir da leitura de um texto, nem tão conhecido assim na farta obra que escreveu, de Antonio Candido. Chama-se “Poesia ao norte” e foi publicado pela primeira vez quando o jovem crítico havia assumido, há não muito tempo, uma coluna no importante jornal Folha da manhã ¹.   Foi nesta seção, batizada de “Rodapé”, que Candido deu a conhecer alguns nomes que mais adiante se tornariam fundamentais na cena literária brasileira, entre eles Clarice Lispector e João Cabral de Mel...

Boletim Letras 360º #396

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    DO EDITOR   1. Caros leitores, fica disponível para leitura e partilha com os amigos uma nova edição do Boletim Letras 360º. E, em nome do Letras, reitero o agradecimento pela sempre companhia do fiel leitor e deixo o pedido de trazer aqui os seus mais achegados que admiram os livros e a literatura. Fique bem. Boas leituras! Ray Bradbury. Dois novos livros do escritor estadunidense publicados no Brasil, um deles é a edição especial do seu romance mais conhecido. LANÇAMENTOS   Livro reúne textos pouco conhecidos da produção ficcional de Walter Benjamin.   O contador de histórias e outros textos propõe uma nova tradução anotada do clássico ensaio de Walter Benjamin, no qual a figura do contador de histórias é apresentada a partir de um comentário crítico da obra do contista russo Nikolai Leskov. Além do célebre ensaio, nas primeiras traduções intitulado O narrador, o livro também reúne textos da ainda pouco conhecida produção ficcional do autor: quinze contos...

A superfície de Hemingway (II) – O moderno em A volta do soldado

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Por João Arthur Macieira Ernest Hemingway. O escritor esteve na Primeira Guerra Mundial e trabalhou para a Cruz Vermelha na Itália como motorista de ambulância.  No ensaio de Eric Auberbach, “A cicatriz de Ulisses”, é comentada a forma como o reconhecimento da cicatriz do herói – disfarçado de mendigo, ocultando-se de sua esposa Penélope e dos demais – é suficiente para fazer com que sua antiga ama, Euricléia, perceba a verdade escondida sob aquela superfície. O evento é marcado por diversas características da narração homérica, onde tudo “modelado com exatidão e relatado com vagar”. Na epopeia, essa narração atinge as superfícies dos objetos com iluminação ; cuja potência é capaz de arrancar o leitor do Canto XIX, e levá-lo aos tempos do acidente que garantiu a cicatriz a Ulisses, em sua juventude. A coexistência de temporalidades distintas só pode ser percebida na passagem a partir da percepção de Euricléia; que, mesmo sob a imagem do mendigo, é capaz de atravessar a superfície e...

Desonra, de J. M. Coetzee

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Por Pedro Fernandes   É recorrente entre os leitores de J. M. Coetzee que uma de suas principais frentes criativas reside em revelar a complexidade étnica-social de seu país natal com o acurado interesse de alguém em distanciamento mas incapaz de negar os estreitamentos da pertença. É possível que este conceito seja derivado de Desonra uma vez ser este o romance do escritor sul-africano mais provocativo nesse sentido, principalmente se atentarmos para as implicaturas entre campo e cidade, ou mesmo certa dificuldade entre as leis pessoais e o estamento jurídico herdado, como se sabe, dos modelos ocidentais. Nele repousa a síntese de perfeita e radical impotência do sujeito, capaz de nos colocar entregue a certo fatalismo do fim, com todas as características do ocaso, a ruína, a perdição, a usura, a penúria, o opróbrio, a injustiça, marcas que transformam o futuro numa impossibilidade, o recomeço numa utopia inviável. Isso significa que este lugar forjado pelo romancista não é exclu...