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Nossas noites, de Kent Haruf

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  Por Pedro Fernandes Kent Haruf. Foto: Barry Gutierrez / Rock Mountain News O ponto de partida da narrativa de Nossas noites é inusitado; seus desdobramentos nem tanto; seu desfecho, inesperado. Para o lado que for, somos levados para observar sobre a vida naquela pequena região, onde, se a alcançarmos, funciona como seu prolongamento. Assim é que, por baixo da afirmativa suscitada por algumas das personagens já não tenho mais nada a perder , circula a pergunta: uma vez entrarmos no instante último das nossas existências, o que faríamos? É possível que, entre a maioria das pessoas, essa pergunta sequer ocorra; e, se sim, seja apenas acompanhada daqueles desejos de fim de ano, manifestados com todo fervor e esquecidos no primeiro minuto de se cumpri-los. Como toda circunstância humana, essa não é uma regra universal. E se as exceções não chegam a alterar a superfície total das coisas não se deve ao caso de serem poucas.   Neste que foi o último romance publicado de Kent Haru...

Walter Scott, um certo afeto

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Por Álvaro Cortina   Ao contemplar a história, os homens buscaram conceitos para forjar teorias e fatos para armar relatos verdadeiros. Por sua vez, artistas e poetas tentaram extrair o elemento emocional dessas histórias. É comum, e talvez inevitável, admiração ou desprezo por um governante específico, a devoção a um santo ou herói, a veneração ou rejeição de uma civilização passada: os artistas e poetas sempre trabalharam sobre os materiais do passado mais eminente para estimular estes e outros afetos. Pois bem, os manuais nos dizem que a poética da história muda, de alguma forma, no início do século XIX, quando irrompe o romance histórico. Não se havia olhado para o passado antes? Bem, já não parece tão necessário um passado eminente. Roma ou Atenas servem tanto quanto qualquer outro lugar.   Segundo esta nova afeição romântica, o principal é o passado, o que se aprofundou infinitamente como uma grande noite. No romance histórico, tudo está subordinado ao exotismo de viver ...

Curzio Malaparte

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Por Álvaro Corazón Rural   Curzio Malaparte. Foto: Kitti Bolognesi Eu poderia procurar mil desculpas para elogiar a figura do escritor italiano Curzio Malaparte, mas não vou enganar você. Este homem não entrou na minha vida por causa de seu talento e sim por causa de seu sobrenome.   Quando criança, não conseguia acreditar que na biblioteca dos meus pais tivesse um nome tão duvidoso. Ma-la-part-te. E o que me perturbou muito, ao entrar na adolescência, foi que um de seus livros se intitulava Técnicas de golpe de Estado . Parecia-me um manual sobre algo ruim, muito ruim, que as democracias inocentes e boas sofriam. Eu não podia acreditar. Que tipo de pessoa tinha que ser, me perguntava, para publicar tal coisa. Então, um dia dei uma longa olhada na capa de sua obra-prima, Kaputt , com os soldados da Wehrmacht passando por maus bocados, em vez de aparecer como vilões desafiadores como meus esquemas morais exigiam. Isso fez o resto. Fui seduzido pela incorreção, que é muito atrae...

Entre a vida e a literatura ronda a morte

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  Por Carlos Chimal Ilustração: Elicia Edijanto   Vamos fazer um breve percurso pelas diferentes atitudes dos escritores em face de dois atos extremos da existência: viver e morrer. “Por que eu deveria temer a morte?”, Mark Twain se perguntou uma vez, “antes de nascer, fiquei sem vida por milhões e milhões de anos e nunca tive o menor inconveniente.” Twain era dotado de um humor negro, tanto que, confessando seu sincero humanismo, astutamente afirmou que, com o tempo, seria difícil encontrar uma pessoa verdadeira entre todos os bebês humanos nascidos diariamente no limiar do século XX. Pouco importava, pois, de qualquer modo, as duas guerras mundiais daquele século levaram embora a maioria, principalmente os melhores, fossem são ou não.   Talvez seja por isso que o poeta estadunidense Robert Lowel afirmou que, se você consegue distinguir uma luz no fim do túnel, é porque uma locomotiva está vindo em sua direção. Algo semelhante pensaria a poeta de Amherst, Massachusetts, ...

Boletim Letras 360º #402

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DO EDITOR   1. Saudações, caro leitor! Coincidiu desta edição do Boletim Letras 360º cair numa data especial demais para a literatura brasileira ― hoje é Dia D. Foi neste 31 de outubro, em 1902, que nasceu Carlos Drummond de Andrade. Desde 2011, esta data ficou marcada no nosso calendário cultural, numa iniciativa do Instituto Moreira Salles, como um dia celebrativo sobre o nosso poeta maior. 2. Além do Dia D, celebramos nesta data o Dia Nacional da Poesia! Pois, façamos de hoje com tantos encontros especiais um momento para lermos e inundar nossos mais próximos com poesia. Estamos muito precisados nesses tempos difíceis que correm.   3. Abaixo copiamos as notícias divulgadas durante a semana em nossa página no Facebook. E, claro, as seções correntes com dicas de leitura para alguns títulos da nossa literatura. Obrigado pela companhia por aqui e noutros canais do blog. Boas leituras! J. M. Coetzee. Foto: Ulla Montan   LANÇAMENTOS   Duas coletâneas com ensaios inédit...

Juan Rulfo, literatura e sobrevivência

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  Por Roberto García Bonilla Juan Rulfo. Foto: Daisy Ascher.   Juan Rulfo estava prestes a completar trinta e oito anos quando Pedro Páramo foi publicado. Entre a publicação de seu romance e a morte de seu autor, passaram-se mais de três décadas que viram crescer o prestígio do escritor; seu romance e as histórias reunidas em Chão em chamas (1953) foram traduzidos para mais de cinquenta línguas e as tiragens em espanhol foram reproduzidas por centenas de milhares. Com a idade de dezessete anos, o escritor abraçou sua liberdade e começou seu trabalho literário. Ele assimilou os conflitos da fé e uma espinhosa disciplina formativa que alimentava do confinamento no orfanato e no seminário (1927-1934). Sua vocação surgiu e um de seus germes foi o assassinato de seu pai quando o futuro escritor tinha seis anos. A crise da perda se acentuou quatro anos depois com a morte da mãe. A criança mergulhou e elaborou o duelo entre os livros da casa mãe de São Gabriel onde estava a bibliot...