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Boletim Letras 360º #404

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    DO EDITOR   1. Saudações, caro leitor! Neste 27 de novembro de 2020, o blog Letras in.verso e re.verso ultrapassa a linha para os 14 anos online. Neste tempo muita coisa aconteceu ― boas e ruins. Se olharmos de perto, não é gratuito que primeiro apareçam as coisas boas. Um espaço que nasceu sem quaisquer pretensões alcançar os limites que alcançamos talvez seja a melhor delas. 2. Vale partilhar com vocês alguns números que ainda servem de espanto para um blog num país acusado reiteradamente de pouco afeito à leitura. Pelo Letras, os leitores passaram 2,7 milhões vezes (dos recantos mais variados do mundo, p.ex., Hong Kong nos visita mais que o país-irmão Portugal e nosso maior público visitante depois do Brasil é dos Estados Unidos). 3. Em termos de conteúdo, já editamos mais 3,7 mil textos sobre livros das mais variadas feições literárias, perfis de escritores, comentários sobre filmes, listas de leituras e de filmes, ensaios sobre temas e questões das mais variadas...

Mecanosfera/Monoambiente e os desafios da escrita

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Por Paula Luersen Criticar até mesmo aquilo que está em risco. Sabemos que não é tarefa do escritor zelar por instituições. Afinal, na maioria das vezes, escritores têm pouca influência prática e imediata sobre o rumo dos eventos que definirão a permanência ou extinção daquilo que está posto. É um grande desafio, contudo, revelar contradições e injustiças de situações sob o alvo de ataques políticos que não preveem qualquer crítica construtiva, apenas o escárnio. Falo da situação atual do mundo acadêmico no Brasil, transformado por instâncias governamentais, através de um olhar infantilizado, em uma espécie de inimigo a ser combatido. Longe de ser aquilo que pintam as tintas de uma postura ideológica e mal intencionada, esse mesmo mundo acadêmico também não está isento de críticas. Ao performar os vícios do sistema no qual se inscreve, ele promove assimetrias entre produção de conhecimento e seus modos de circulação e mensuração. O livro de Fabrício Silveira Mecanosfera/Monoambiente s...

Billy Budd, de Herman Melville

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Por Pedro Fernandes   É verdade que o trabalho da literatura, por mais que se acuse do contrário, não se estabelece pela alteração das coisas ou dos destinos sociais. No entanto, nela se manifesta o espaço privilegiado para o aceso debate sobre aspectos que atuam nessas modificações. E, talvez por isso, toda vez que as sociedades recrudescem seus limites de liberdade, logo se encontre na literatura o papel de bode expiatório e, consequentemente lhe imprimam a censura. Exemplos sobre o tratamento questionador exercido por algumas obras estão em toda parte e este pequeno texto de Herman Melville é um deles.   Ainda nos instantes iniciais da narrativa, o narrador de Billy Budd recorre ao discurso de verdade para justificar o que conta. Diz estar fora do grupo de ficcionistas que ignoram o fatual e se deixam seduzir pelo fabular; as provas, apressa-se em mostrá-las, se oferecem por uma variedade de atalhos que adiam o acontecimento principal e ao mesmo tempo demonstram que é alg...

Há dois tipos de livros: os ilustrados e os não ilustrados por Gustave Doré

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    Por E. J. Rodríguez   “Gustave Doré teria sido um grande diretor de fotografia. Via as coisas a partir do ponto de vista uma câmera.” (Ray Harryhausen, profissional da área de animação stop motion )   “[O trabalho de ilustração de Gustave Doré para uma edição do Dom Quixote ] foi descrito como o ato de ilustrar uma obra. Eu acredito que foi ato de reescrevê-la. Ao invés de ter uma obra-prima, a humanidade tem agora duas.” (Émile Zola) O célebre registro de Gustave Doré para as duas personagens principais do livro de Cervantes: Sancho e Dom Quixote.      No século XIX, Dom Quixote foi a obra literária mais vendida do mundo, perdendo apenas para a Bíblia. Destas duas obras existiam muitas edições utilitárias lançadas por empresários oportunistas que buscam produzir de qualquer forma o que era uma demanda eterna. Mas, para os grandes editores, para os mais ambiciosos, a Bíblia e Dom Quixote foram as pedras de toque sobre as quais pode construir seu ...

O verdadeiro criador de tudo, de Miguel Nicolelis

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Por Davi Lopes Villaça   A ciência teve, nos tempos modernos, um papel importante no processo de desmitologização e dessacralização do mundo. Ela nos mostrou que o homem não ocupa o centro do universo e que a natureza, essa entidade impessoal, se desenvolve de acordo com leis próprias, insensível ao destino de suas crias. Foi um duro golpe para o nosso ego, que se amparava na ideia de que éramos os protagonistas da história universal ou, pelo menos, de que os astros não eram de todo indiferentes às nossas façanhas. A perda dessas ilusões contribuiu também para a ruptura de um vínculo precioso com o mundo exterior, outrora garantido pelo simbolismo de mitos e religiões, que determinavam nossa interação com o que acreditávamos ser algum tipo de ordem natural e divina ― mas que era, acima de tudo, uma ordem humana, engendrada em nós mesmos para dar forma mais compreensível à realidade. Depois, quanto mais passávamos a conhecer o mundo, menos familiar ele se tornava para nós. Entre o i...

Escritores suicidas frustrados

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Por Manuel Vicent Hermann Hesse. Foto: Gret Widmann  A lista de escritores que preferiram tomar o caminho rápido para o outro mundo a continuar escrevendo é magnífica e praticamente interminável. Desde os clássicos Sócrates, Sêneca e Petrônio, passando pelos famosos Salgari, Jack London, Virginia Wolf, Stefan Zweig, Sylvia Plath, Cesare Pavese, Walter Benjamin, Hemingway, a lista não está concluída porque se trata de um ofício sempre à beira de um despenhadeiro precipício, que nada mais é do que o ego do escritor sempre prestes a cair. Mas existiram dois importantes escritores que entraram para a grande história da literatura graças ao fato de que em sua juventude atormentada, apesar de tentado, não conseguiram se suicidar: Joseph Conrad e Hermann Hesse.   Na hora de embarcar, os marinheiros se dividem em dois ajuntamentos: alguns se tornam melancólicos porque deixam para trás mulher, filhos, amigos e prazeres sedentários; outros embarcam felizes por terem conseguido se livrar...