Passarinho que se debruça — o voo já está pronto! Considerações na biografia de João Guimarães Rosa por Leonencio Nossa (I)

Por Herasmo Braga




Como bem enaltecido por grande parte da crítica e dos leitores, a espera por uma biografia à altura de João Guimarães Rosa chegou ao fim. Possivelmente, não a definitiva, mas, com certeza, entre as melhores. O sertão está em toda parte na prosa de Leonencio Nossa, e no seu interior encontrou e teceu o escritor mineiro. Desmitificou o gênio e humanizou o criador imaginativo que muito viveu e dialogou com tudo que o identificou. Entre as inúmeras possibilidades presentes no livro, delimitam-se algumas considerações sobre o fazer literário em Guimarães Rosa. Neste primeiro momento, destacaremos a memória em três acepções contempladas no livro de Nossa: a memória criadora, a memória regionalista como matéria-prima para as narrativas e a memória como processo de autoconhecimento ficcional e real.

O biógrafo apresentou, por meio de pesquisas, imagens, trechos das obras e de outros documentos, os caminhos que levaram o autor de Grande sertão: veredas a ser detentor de uma prosa vigorosa, digna de estabelecê-lo como o maior do século XX no Brasil. Rosa fez valer, no uso, no manejo, na observação, no escutar, no interagir, no imaginar, uma das maiores riquezas presentes em nosso solo e que, além de ser tão presente na cultura e na história, faz parte da constituição do ser brasileiro, da sua identidade, da sua formação: o espírito do regionalismo, oriundo de toda uma memória singular, que faz o ideário romântico do século XVIII se consolidar em torno do sentir-se pertencente a um lugar, de ter em si a ideia de uma unidade nacional. Isso se distancia das ideias tão rasas, propagadoras daqueles que ainda estão imbuídos de uma mentalidade colonial: do bom ser apenas o externo, do fetiche europeu, do não reconhecer para exaltar o que nada traz a respeito. Assim, o regionalismo nada tem a ver com sinônimo de atraso ou traço que evidencia o Brasil ser um país subdesenvolvido, como sinalizou equivocadamente Antonio Candido em alguns textos, como em “Literatura e Subdesenvolvimento”.

Ao apresentar Guimarães Rosa, Leonencio Nossa o vê de onde sempre esteve, no sertão, como demonstra o olhar imaginativo e criativo em torno dele. Há alguns pequenos deslizes — perdoáveis até — porque são alguns apontamentos questionáveis que boa parte da crítica costuma fazer, como, por exemplo, quando menciona que o estilo rosiano fascinou gerações sem deixar discípulos. Ora, muitos acorrem pelas sendas dessa prosa regionalista e, agora, neorregionalista com semelhante grandeza na literatura brasileira, como se pode destacar a obra do sergipano Francisco J. C. Dantas,  um dos nossos melhores autores contemporâneos. Quem se lançar em seus enredos, como em Coivara da memória, logo reconhecerá a influência e as mesmas preocupações de elevar a nossa língua nos interstícios regionais e neorregionais.

Além da presença da identidade nacional neorregional brasileira, o autor da biografia apresenta os processos de desenvolvimento e consolidação da literatura rosiana, incluindo os obstáculos que precisou superar não apenas no início da sua trajetória como escritor, mas durante todos os momentos posteriores, que apenas mudavam de forma, enquanto as dimensões continuavam as mesmas, variando entre um e outro momento. No processo de escrita, ao demonstrar ânsia para se refugiar em um silêncio, como é destacado, entende-se que seria uma forma de dialogar com a memória e dela servir-se para imaginar e também afastar-se de tudo aquilo da limitação do presente que reduz a vitalidade da relativa intemporalidade, vista como requisito básico para a grandeza de um texto literário, qualidade também referido por Antonio Candido, agora em Literatura e sociedade.

Outro ponto interessante em meio a essa discussão: de Riobaldo como um alter ego de  Guimarães Rosa é evidenciado pela biografia a partir das entrevistas do escritor: “Posso afirmar, até o ponto onde poderei saber, que sou um dos escritores menos autobiográficos”. Diante desta assertiva, Rosa possivelmente compreendia que ser um escritor menos autobiográfico constituiria ser alguém que valorizava a imaginação, as experiências a serem compartilhadas, a refração expressiva da vida e das suas singularidades, em detrimento da exposição exaustiva e tão corriqueira na literatura contemporânea, que compromete todas as potencialidades da literatura na sua força expressiva para tornar-se um instrumento de propagação de si.

A memória cultural regional em Rosa é vital para a sua imaginação e criação das narrativas. Como ele mesmo expressa em Tutameia: “Tudo, para mim, é viagem de volta”. Essa ideia aproxima-se de sujeitos que pensavam e pensam a Literatura como uma força de expressividade que não se condiciona a uma temporalidade datada ou reduzida. De uma produção reflexiva dos aspectos humanos, sociais e culturais, com um olhar sempre atento aos momentos do homem nas suas múltiplas dimensões. Aqui, pode-se relacionar essa perspectiva a uma ideia formulada por E. M. Forster em Aspectos do romance, de que quem atualiza o presente é o passado, e a literatura promove encontros dos sujeitos ao longo da escrita, como ocorre com Riobaldo, já que, à medida que vai narrando sua história para um interlocutor presente, como também para aquele que se fará presente — os leitores —, vai se transformando e se autoconhecendo enquanto narra; nas palavras de Riobaldo, “Viver é um descuido prosseguido”. Nisso, o jagunço se reconhece, como também os sujeitos que imergem em suas narrativas.

Sob a égide deste contexto, também se pode estabelecer uma relação com o próprio autor, diante da sua postura de ouvir e contar histórias, como Leonencio Nossa traz em uma fala de Aracy, segunda esposa de Guimarães Rosa: “A paixão dele era escrever e ler. Às vezes escrevia, escrevia, escrevia e depois não gostava, rasgava tudo”. Assim, como um dos seus grandes personagens, que se conhecia quando contava os acontecimentos, lembranças, estórias, cantigas, lendas e superstições, o autor se autodescobria no seu processo de escrita e reescrita, porque, para ele, como é apresentado em sua produção literária, escrever é pensar, pensar é lembrar, lembrar o que está na memória, e esta memória é mergulhar em si para desenvolver-se em toda a sua potencial existência.


______
João Guimarães Rosa: biografia
Leonencio Nossa
Nova Fronteira; Topbooks, 2026
736p.

Comentários

AS MAIS LIDAS DA SEMANA

11 Livros que são quase pornografia

Dez poemas e fragmentos de Safo

16 + 2 romances de formação que devemos ler

Pensando os desencantos de um desenvolvimentista — ou Pequeno manual para elaborar reflexões sobre autores que ficaram pelo caminho

Dez filmes a partir da obra de Agatha Christie

Boletim Letras 360º #682

Com licença poética, a poeta (e a poesia de) Adélia Prado