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Anna Kariênina, de Lev Tolstói

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Por Joaquim Serra Anna Kariênina , o maior romance social da literatura mundial, como escreveu Thomas Mann, oferece ao leitor a possibilidade de entender um modo de representação que já não existe mais, uma história pensada e a serviço da suposição de um mundo visto em sua totalidade – por isso, perfeitamente trabalhada no modo de narrar. Essa representação épica das características individuais que levavam ao modo de vida de uma época, ali mesmo, na Rússia da segunda metade do século XIX, convivia com o mundo visceral e distorcido de Dostoiévski e seria abalada pelos contos de Anton Tchekhov, o “realista do colapso”, como o chamou Raymond Williams. Thomas Mann, numa síntese comparatista invejável, escreve: “É do elemento homérico que falo, do eterno-narrativo como arte-natureza, como ingênua magnificência, corporeidade, objetualidade, saúde imortal, realismo imortal. Isso era forte em Tolstói, muito mais forte do que em qualquer artista épico da época moderna, o que diferencia seu gên...

Boletim Letras 360º #437

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DO EDITOR   1. Caro leitor, inicio a edição deste Boletim voltando a lembrá-lo sobre a disponibilidade de vendas de livros para arrecadar fundos no intuito de quitar os gastos com o domínio do blog na internet.   2. Você pode consultar sobre os livros disponíveis aqui ou enviar e-mail pedindo consulta . Mesmo que não tenha interesse em comprar, ajude a compartilhar essa informação.   3. Reitero os agradecimentos pela companhia. Tiago Rodrigues. Foto: Filipe Ferreira.   LANÇAMENTOS A editora 34 apresenta aos leitores brasileiros a obra do premiado dramaturgo português Tiago Rodrigues .   Um dos mais inquietos criadores da arte contemporânea, o premiado dramaturgo português Tiago Rodrigues combina em seus textos o teatro, a ficção, o ensaio e a poesia, com uma liberdade verdadeiramente revolucionária. By Heart e outras peças — primeiro livro do autor publicado em nosso país — reúne cinco obras, incluindo Natalie Wood , Três dedos abaixo do joelho , Antonio e C...

Manuelito: para além de um mestre da fotografia

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Por Márcio de Lima Dantas   Oriundo do Ceará, veio residir em Mossoró, permanecendo e trabalhando até o final de sua vida. Suas fotografias deixavam entrever um indivíduo ancho nos limites estabelecidos pela vida. A maneira como gostaria que fosse representado pela posteridade o conduziu a se fazer fotografar com seus atributos: o material fotográfico parecia relacionar o sentido que deu à vida, ou seja, o predomínio do sentido visão sobre os demais sentidos, plasmando-se no ato de produzir retratos do seu entorno. Eis o sal que neutraliza o insosso dos dias. Não trabalhava por obrigação, mas por uma necessidade interior de registrar seu derredor, opondo-se ao movimento de Cronos, que faz e desfaz.   Ao carbonizar tempo e espaço, fez transcender os habitantes da pólis e sua paisagem, bem como detalhes e objetos prosaicos que passam impunes ao espectador pouco atento ao que o circunda. Manuelito estancava o tempo, não parece inconsciente, na medida em que mudou de assinatura, n...

Debaixo do vulcão, de Malcolm Lowry

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Por Pedro Fernandes   Os últimos dias para a resolução de um conflito amoroso que se arrasta desde há muito quando dos primeiros encontros dos amantes noutra vida de sentido talvez mais vivo — como é sempre caso nas histórias de amor. É este o tempo de duração da narrativa de Debaixo do vulcão , o principal romance do escritor inglês Malcolm Lowry, e é também uma boa maneira de sintetizar a complexa tessitura da narrativa. O que essa síntese denuncia, à primeira vista, parece ser a utilização do consagrado modelo da tragédia: o drama encenado constitui apenas a parcela superficial de uma história muito mais profunda. Acontece que este não é um texto para teatro e o seu narrador desafia o limiar elastecendo-o até oferecer (com altos e baixos) as minúcias dos seus protagonistas soterrados ora por aquilo que criaram ora porque neles escasseiam certa vontade própria de, assumindo seus defeitos, conseguirem contornar desacertos e estabelecerem certa ordem possível que os livre do total ...

Duplo Ford

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Por Guillermo Cabrera Infante Ford Madox Ford. Foto: E. O. Hoppé.   Talvez Ford Madox Ford não concordasse com seu pseudônimo. Não foi, como Mark Twain, a adoção de uma medida do rio Mississippi ou, como Joseph Conrad, uma cortesia ao leitor inglês. O nome de Ford sofreu variações significativas por ser neto de Ford Madox Brown, famoso pintor da época, e suas relações familiares incluíam outros pré-rafaelitas, como o sobrinho de William Rossetti, irmão de Dante Gabriel e Cristina, e seu nome verdadeiro era Ford Hermann Hueffer, até que durante a Primeira Guerra ele o mudou para o sonoro nome repetido de Ford Madox Ford. Ele também era um católico convertido que mantinha relações mais ou menos legais com várias vitorianas avançadas, como Violet Hunt. Tanto sua conversão ao catolicismo quanto sua mudança de nome foram tardias, entre outras coisas porque seu germanismo não lhe fez bem durante a guerra, à qual ingressou muito tarde.   Além disso, foi sua sorte — ou azar — ter cola...

As ruínas em movimento: As Naus e o espólio de uma utopia

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Por André Cupone Gatti António Lobo Antunes. Foto: Leonardo Cendamo.   I. O imperialismo português dos séculos XIX e XX foi alimentado por certa ideia ufanista de um Portugal áureo, por uma dimensão simbólica de um império central, herdeiro ininterrupto do tempo das grandes navegações. Os séculos XV e XVI marcaram a nação lusitana com a signo do esplendor e da riqueza; essa marca, perpetuada séculos afora, ao mesmo tempo mostrou-se maldição e benesse: benesse porque alçou o imaginário de um Portugal grandioso, maldição porque teimou em encobrir a realidade das subsequentes épocas com a máscara mitológica dos feitos quinhentistas. Salazar, em sua ditadura, soube aproveitar e reaproveitar essa coleção de lendas, valendo-se da utopia para afirmar “grandes certezas” da nação e tingir de glória os seus desmandos, dissuadindo as atenções da realidade e prolongando a imagem áurea do seu despotismo.   Não seria eterna a ilusão. A partir dos anos 1950, algumas contestações surgiri...