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Aleksandr Blok

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Por Ekaterina Ignatova   O nome do poeta Aleksandr Blok (1880-1921) ainda retorna com frequência, como um eco persistente, na literatura russa, seja em inumeráveis escritores que se inspiram na sua obra, seja nos leitores que recordam e transmitem adiante sua palavra. Com a passagem do tempo, na violenta história russa — reconhecida por sua efervescência — a aura mística que acompanha a memória de Blok tem sido uma constante. Sua diferença em relação a boa parte dos seus colegas de profissão é dada por uma vida afastada do burburinho literário, ainda que isso não o qualifique como um artista misantropo, destituído de ironia. Anna Akhmátova recorda a única vez quando visitou Blok em sua casa: “comentei com ele sobre um poeta chamado Benedict Livshits (bastante reconhecido então) que se queixava de que ‘a simples existência de Blok o afetava na atividade de escrever poesia’. Blok, sem rir, respondeu seco: ‘Isso eu sei bem. No meu caso Liev Tolstói me afetava na escrita’.”   Depo...

Boletim Letras 360º #453

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DO EDITOR 1. Caro leitor, durante a semana, esteja atento às redes do Letras: divulgaremos os três livros enviados pela editora Mundaréu para o primeiro sorteio no âmbito da rede de apoio que iniciamos para manutenção deste blog. 2. O sorteio acontece no próximo mês. Na edição 448 deste Boletim já revelamos um deles . E você pode se inscrever até a dia 25 de novembro. Todas as informações sobre essa proposta estão disponíveis no menu ao lado, no final desta publicação ou aqui .   3. Esteja em paz, fique bem, boas leituras e muito obrigado por sua preciosa companhia por aqui e noutras redes do Letras ! Paulina Chiziane, prêmio Camões 2021. Foto: Liliana Henriques.   LANÇAMENTOS   Três romances de Paulo José Miranda reunidos pela primeira vez .   Este volume reúne os três primeiros romances do autor, através dos quais procurou penetrar, em linguagem límpida e pensamento fino, nos meandros da criação a partir de três notáveis artistas: Cesário Verde, João Domingos Bomte...

Breve ensaio sobre a beleza na arte

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Por Marcelo Moraes Caetano Emily Kame Kngwarreye. Ntange Dreaming, 1989.   Para Cassirer, a beleza é uma constante do fenômeno humano, sem necessidade de teorias metafísicas sutis e complicadas para a sua explicação.   No entanto, ela sempre foi alvo de paradoxos em meio às diversas correntes filosóficas. Até a época de Kant, a filosofia da beleza era ligada a fatores estranhos e exógenos, principalmente nas culturas “civilizadas” (ou “policiadas”, como diriam Auroux ou Derrida) a que se vinculavam a experiência estética e a própria arte. Em A crítica do juízo , entretanto, Kant deu a prova convincente da autonomia da arte no Ocidente em face de conexões obrigatórias com outros ramos do saber, como, na época, principalmente em relação à teologia ou, pior ainda, à ciência. É claro que a Arte Poética de Aristóteles, séculos antes, e embora remanescente apenas em fragmentos, dera o primeiro passo nesse sentido, com o qual se dialogou (e se dialoga) desde a sua vinda à luz a...

Teatro, de Bernardo Carvalho

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Por Pedro Fernandes Bernardo Carvalho. Foto: Edilson Dantas O pensamento e toda a formação de nossa civilização ocidental apresentam-se articulados sob o signo de uma dicotomia que dispensa as continuidades entre as formas pela cisão. Em parte, isso nos serviu compreendermos sobre os organismos e seus sistemas, do mais simples ao mais complexo, e disso engendrarmos outros modelos que estabelecem alguma ordem no funcionamento da coletividade. Por outro lado, a dissociação está na base das crises que enfrentamos enquanto sistema e, desde o advento da psicanálise, como indivíduos. A essa altura, sabemos — se não, ao menos desconfiamos — que a dicotomia distintiva é ela própria a crise, o que ao longo da nossa história cobrimos com remendos capazes de disfarçar suas cisuras, não sem uma dose de força e barbárie.   Desde o começo da sua literatura, Bernardo Carvalho parece consciente disso e poderíamos designar como o seu principal interesse os impasses estabelecidos no conflito entre ...

Entre os mecanismos de Aira

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Por Tiago D. Oliveira Depois de atravessar as páginas de A trombeta de vime , de César Aira, fiquei pensando sobre os limites de um texto e percebi que entrava paulatinamente em um universo que se revigora conforme o mundo gira em torno de seu próprio eixo. São doze textos que dificilmente serão classificáveis, o que promove o livro para um lugar que corta o próprio tempo em que foi escrito para se apresentar além, muito além do que nos acostumamos a conformar.   A mistura de gêneros e de discursos faz com que as narrativas desenvolvam um híbrido entre as palavras, leva o leitor a sentir analiticamente a expansão das fronteiras e limites do fazer literário. Ao ponto que a leitura acontece, percebe-se que o atravessamento dos textos acontece como parte do projeto estético e filosófico que Aira pensou e conseguiu desenvolver lançando seu livro para fora, em um lugar que não para de crescer. Logo no primeiro texto do livro fiquei ensimesmado com a datação, o que me fez pensar em ...

O tempo em A montanha mágica: anotações da leitura de Paul Ricœur

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Por Joaquim Serra   Thomas Mann. Foto: Bridgeman Imagens   É inegável, diz Ricœur, que A montanha mágica seja um romance sobre o tempo. Hans Castorp, o homem comum escolhido pelo narrador, passará sete anos no sanatório “até que o trovão da declaração da guerra de 1914 o arranque do feitiço da montanha mágica; a erupção da História, porém, só o restituirá ao tempo dos de baixo para entregá-lo a essa ‘festa da morte’ que é a guerra” (p. 200). Para Ricœur, o fio condutor da obra é o confronto de Hans Castorp com o tempo abolido do sanatório Berghof. O filho enfermiço da vida, em visita ao primo Joachim (tuberculoso e há seis meses internado), adentrará o mundo dos mortos para se tornar íntimo dele, se aclimatar e vivê-lo na pele. O projeto frustrado de Hans Castorp é o de passar três semanas com aqueles que não reconhecem essa medida de tempo, o que irá gerar, num primeiro momento, a convivência dos contrários para aflorar a significância do tempo. Segundo Ricœur, “as primeiras...