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Coetzee e a negra flor da civilização

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Por Rafael Narbona J. M. Coetzee. Foto: Jakob Hoff   John Maxwell Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura de 2003, é um escritor cru e demolidor. Embora em seus romances aborde o tema da expiação e da redenção a partir de uma perspectiva não religiosa, ele não traça ilusões sobre a possibilidade de uma humanidade libertada de seus egoísmos, mesquinhezes e aberrações morais. Seus livros são breves e seu estilo minimalista.   Inteligíveis e de estrutura linear, não representam um desafio à compreensão, mas a sua aparente simplicidade não é sinônimo de banalidade, mas de uma aguda exigência estética e moral. A sua ficção reflete sobre o sexo, os afetos, a solidão, a discriminação racial, a violência da cultura ocidental, a criação literária, a ligação entre o ser humano e a terra, o horror da colonização, que é o caso da África do Sul, o seu país natal, desembocado no monstruoso apartheid .   Apesar do pessimismo predominante no entorno desse mundo literário, há sempre áreas on...

“Som da liberdade”, o filme de extrema direita que nos convida a perguntar o que é a propaganda

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Por Alonso Díaz de la Vega Há algumas semanas, o romancista Juan Pablo Villalobos tuitou que Oppenheimer (2023) é uma peça de propaganda política estadunidense por atingir seu clímax no primeiro teste da bomba atômica, e não na destruição de Hiroshima e Nagasaki. Além de ser outro argumento a favor da pornografia da violência — muitos progressistas insistiram que era melhor assistir ao massacre para moralizar, em vez de evitar a sua espetacularização —, a posição assume que toda representação politizada é propaganda. É claro que o filme se filia à ideologia libertária de seu diretor, Christopher Nolan, obcecado em livrar o gênio homônimo. Claramente, seu objetivo ao mostrar J. Robert Oppenheimer usado e perseguido é nos dizer que se ele pudesse ter inventado num mundo onde a ciência não dependesse do poder político, ele teria contribuído muito, em vez de ter sido cúmplice do extermínio. Será que esta conclusão, e especificamente uma das raras decisões éticas de Nolan, faz de Oppenheim...

Escrita e exílio em Serguei Dovlátov

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Por Marta Rebón Sergei Dovlatov Foto: Mark Serman Com menos de cinquenta anos de idade, em 1990, Dovlátov morreu no seu exílio em Nova York, resignado a aumentar a lista de escritores russos cuja obra moldou a experiência do desterro. Autores tão diversos e de diferentes épocas como Aleksandr Púchkin, Mikhail Lérmontov, Marina Tsvetáeva, Gaito Gazdanov, Vladimir Nabokov ou Joseph Brodsky são um bom exemplo disso. Não foi à toa que um escritor afirmou que os russos parecem ter o monopólio do exílio.   Em O ofício , uma espécie de livro de memórias, ou melhor, uma tragicomédia autobiográfica, composta por duas partes muito distintas (uma soviética e outra americana), o brilhante escritor humorista de origem judaica e armênia capta as contradições do homo sovieticus tanto em seu país natal como na expatriação. O resultado é uma coleção de situações grotescas, diálogos imprevisíveis e indivíduos surreais imersos numa realidade que contrasta de forma dolorosa e jocosamente com os dogm...

O legado de Milan Kundera

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Por Norbert Czarny Milan Kundera. Foto: Ferdinando Scianna.   Pouco depois da publicação de A insustentável leveza do ser , indiquei a Milan Kundera que a nota biográfica na contracapa do livro afirmava que ele nascera em Praga. “Mas você é de Brno, não é?” Ele sorriu para mim e, com seu sotaque arrastado, rolando os erres, disse: “Tudo bem, isso não é importante.”   Tudo o que tinha a ver com a sua biografia lhe era indiferente. Não queria que a Pléiade contivesse a menor indicação biográfica. Uma nota sobre a obra, para ele, já era o suficiente. E é isso que escreve em A arte do romance : “Romancista (e sua vida). Pergunta-se ao romancista Karel Čapek por que ele não escreve poesia. Sua resposta: ‘Porque detesto falar de mim mesmo’. Hermann Broch sobre ele, sobre Musil, sobre Kafka: ‘Nós três não temos uma biografia verdadeira’. O que não significa que a vida deles fosse pobre de acontecimentos, mas que não era destinada a ser distinguida, a ser pública, a virar biograf...

Boletim Letras 360º #550

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José Paulo Paes. Foto: Cláudia Guimarães. (detalhe) LANÇAMENTOS   Dois volumes organizados por Fernando Paixão e Ieda Lebensztayn reúnem os textos resultados da atividade crítica de José Paulo Paes .   1. O primeiro volume de José Paulo Paes: crítica reunida sobre literatura brasileira e inéditos em livros reúne em mais de cinco centenas de páginas, o célebre ensaio “As quatro vidas de Augusto dos Antunes, e textos que vão da literatura colonial, passando pela literatura do Brasil império até alcançar os modernistas de 1922 e alguns dos escritores que foram seus contemporâneos. O livro conta com textos de discussão e apresentação realizados pelos organizadores e um ensaio do amigo Alfredo Bosi para quem “Ler o crítico José Paulo Paes é um contínuo desafio para enfrentar o percurso que vai das partes ao todo e vem do todo ao particular. E é um convite para reconhecer no detalhe o sentido que ilumina a obra inteira”. Você pode comprar o livro aqui .   2. No segundo volum...

O professor, de Cristovão Tezza

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Por Guilherme França Cristovão Tezza. Foto: Alexandre Mazzo. Recordo que certa vez conversava com um amigo sobre escritores brasileiros e passamos a refletir sobre a influência ou mesmo necessidade do meio acadêmico para a produção de obras literárias. E como que puxando escritores pelo pensamento fomos percebendo que, ao menos no Brasil, poucos ou pouquíssimos escritores haviam saído do mundo acadêmico “propriamente dito”. Ou seja, poderiam até ter passado, como alunos, por cursos de graduação aqui ou ali, mas não eram professores universitários, pesquisadores etc.; aliás, Machado de Assis, o maior literato brasileiro, nunca esteve nos bancos da academia escutando uma aula de literatura preparada por um professor com extensa lista de diplomas.   Este fato me lembra uma música de Gabriel o Pensador sobre outra das minhas paixões, o futebol, cuja letra, se referindo às qualidades de um jogador, diz em um trecho: “futebol não se aprende na escola”. A literatura se aprende na escola, ...