Postagens

Verdades às gargalhadas: a sátira aguda de Zóschenko

Imagem
Por Rafael Bonavina Mikhail Zóschenko. Foto: V. Presniakov Ao longo de toda a história da literatura russa moderna, e inclui-se aqui também a soviética, a censura foi uma desagradável e permanente instituição da vida literária. Em alguns momentos, claro, os atentos olhos dos censores fizeram vista grossa para alguns excessos e para as críticas feitas nas obras publicadas. Já em outros, a censura parecia a espada de Dâmocles, sempre pronta a cair sobre algum desavisado, e até mesmo um avisado, mas inconveniente.   Apesar desses breves momentos de respiro nessa longa história de mordaças, a sátira sempre esteve sob estrita vigilância, pois esse tipo textual é capaz de incomodar profundamente os defensores de pensamentos totalitários com sua cáustica derrisão. Além disso, quando habilidosos, os satíricos conseguem trazer à tona as contradições da sociedade por meio de coisas do cotidiano. Uma conversa no trem, uma reunião de colegas, uma visita desagradável… todos esses são excel...

Boletim Letras 360º #634

Imagem
Christopher Isherwood. Foto: George Platt Lynes    LANÇAMENTOS   Romance mais conhecido de Christopher Isherwood ganha nova tradução e edição no Brasil pela Companhia das Letras .   Em 1929, o escritor britânico Christopher Isherwood viajou por dez dias a Berlim, onde esperava encontrar a liberdade sexual ausente em sua terra natal. O curto período que passou na Alemanha foi tão impactante que decidiu se mudar de vez para lá em novembro do mesmo ano. Sua vivência na época da República de Weimar inspirou Adeus a Berlim , obra semiautobiográfica que pincela diferentes personagens da cidade efervescente enquanto a ameaça nazifascista crescia a olhos vistos. As diferentes criaturas que cruzam o caminho do protagonista — uma dona de pensão fofoqueira, uma família de judeus endinheirada, sob o risco crescente do antissemitismo, e, por fim, um homem enciumado com a atenção que o namorado recebe nas noites da cidade — ajudam a compor um panorama no qual a melancolia é escon...

“Poética” ou “Cantos intermediários de Benvirá” — convite à leitura e breve esquema

Imagem
Por Lucas Paolillo   A rosa do povo mora dentro do meu coração; escuta, bem, que a viola viola tua intenção; e a rosa do povo mora dentro do teu coração Se a rosa do povo mora dentro do teu coração Se a viola que viola, viola, da história, o vão, ilumina-se a memória, fortalece-se a razão fortalece a tua história dentro do meu coração   — Geraldo Vandré Geraldo Vandré. Foto: Leo Caldas No último dia 27 de março, Beatriz Malnic se apresentou no Bourbon Street Music Club, em São Paulo, junto ao grupo vocal Brazilian Voices. Na plateia, logo na primeira fila, um senhor de cabelos brancos e longos, cabisbaixo, bem-vestido e de boné, estava sentado próximo ao palco. A certa altura da apresentação, Malnic apresenta-o aos presentes: “Queria agradecer a presença sua, Geraldo Vandré, aqui.” O antigo compositor paraibano, do alto dos seus 89 anos, acena à plateia e é aplaudido de pé por alguns minutos.  Depois da deferência, Malnic dá prosseguimento às flores em vida c...

O vermelho e o negro: a tragédia da grandeza temporal

Imagem
Por Guilherme França Julien Sorel. Ilustração de Jean-Paul Quint para edição francesa de O vermelho e o negro , 1922. Arquivo BNF. Publicado em 1830, O vermelho e o negro , de Stendhal, inscreve-se como uma das obras mais representativas da literatura francesa, não apenas por sua qualidade estética, também muito debatida, mas sobretudo por seu bom aproveitamento analítico no tratamento de temas como a mobilidade social, a construção da personalidade e os impasses ético-existenciais do indivíduo moderno. Longe de se limitar à moldura de um romance de formação, de um relato psicológico ou de crônica social, a narrativa permite, em alguma medida, o exame das tensões entre as ambições pessoais e as virtudes, a partir das quais surgem essas forças invisíveis que acabam por moldar o destino dos homens, servindo como um alerta quanto às pretensões desmedidas, que podem corroer a essência de nossa vida. Este ensaio propõe, portanto, uma leitura da obra a partir de uma perspectiva exclusivament...

Larraín com sua Maria Callas, um ventríloquo a mais do streaming

Imagem
Por Alonso Díaz de la Vega Parece que cada novo filme do diretor chileno Pablo Larraín é uma tentativa de negar a si mesmo. Se compararmos a montagem dos seus filmes de há uma década, mais ou menos — Neruda e Jackie (2016), Ema (2019) —, com a dos mais recentes — concretamente O conde (2023) e Maria Callas (2024) —, poderemos assistir à dolorosa extinção de uma individualidade em ascensão, formada por imagens incoerentes como a consciência, e por uma narrativa difusa que dava mais interesse à sensação do que à história. Em seu lugar surge um estilo cada vez mais claro — para não dizer óbvio —, melodramático e mecânico. Larraín não foi um dos grandes cineastas contemporâneos em seu auge, mas naqueles filmes ele demonstrou o potencial de se refinar até se tornar um, apesar de excentricidades como seu olhar ansioso em um filme de libertação feminina ( Ema ) ou a expressão frequentemente grotesca de abuso infantil dentro da igreja católica em O clube (2015). Aquele Larraín mais livre...