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Sete poemas de “Animal de bosque” (2021), de Joan Margarit

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Por Pedro Belo Clara Joan Margarit. Foto: JM Website     OS DOIS NEVÕES   Vendo nevar tanto em todo o lado, sem sairmos de casa, tu e eu lembrámos a neve onde encontrámos o nosso amor. Ainda mal nos conhecíamos e passámos o dia até de madrugada a passear pelas ruas iluminadas por uma branca luz, cálida e fria. E descobrimos uma nova intimidade pelos dois até então desconhecida. A tua mão, enluvada na minha, tinha começado a salvar-me a vida. Passaram já sessenta anos, luminosos e escuros: mesmo nos mais duros sentimos o calor dessas ruas nevadas. Neste último também, quando, debilitado pelo linfoma e pela químio que não me cura, com o mesmo sorriso, e ao meu lado, me ajudaste a compor estes poemas. Ofereço-tos agora. Este é para mim um dos anos mais felizes da minha vida.     MUSEUS   Sempre me aborreceu e me cansou observar os retábulos de igrejas, quadros representando cenas bíblicas, monarcas a cavalo, luxuosas vestes onde o pintor se exibe em cada pre...

Boletim Letras 360º #636

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Rubem Fonseca. Foto: Arquivo do escritor. LANÇAMENTOS   O experimental teatro de Dylan Thomas chega em língua portuguesa — uma amostra .   Ao pé do bosque torto (Under Milk Wood) é a mais radical das obras de Dylan Thomas. Escrita por encomenda do departamento de drama da BBC, a peça estreou na rádio em 1953, sendo depois remontada em 1964. Nas duas ocasiões, quem orquestrou a coisa toda foi o grande Richard Burton, o que transformava tudo numa reunião de talentos galeses. O País de Gales, sua realidade e sua língua, está também por trás de boa parte da tal radicalidade do texto: a liberdade que ele toma com o vocabulário, a morfologia e a sintaxe do inglês (claramente seguindo os passos do James Joyce do Finnegans Wake ) pode ser diretamente ligada a essa situação de “biculturalismo”. Elementos da língua, da onomástica, da realidade e do cotidiano da terra natal do escritor são parte central do que acaba por gerar na peça uma paisagem sonora absolutamente singular. Na peça o...

“Um certo sorriso”, de Françoise Sagan: breve romance sobre o tédio

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Por Amanda Fievet Marques Françoise Sagan. Foto: Pictorial Parede   O segundo romance da escritora francesa Françoise Sagan, Um certo sorriso , publicado em 1956, possui aparentemente uma trama simples. Uma jovem estudante de Direito, Dominique, tem um caso fugaz com um homem bem mais velho, Luc, o tio de seu namorado que é, além disso, casado.   Mas, na verdade, trata-se de um breve romance sobre o tédio. O caso com Luc é somente o contraponto aventuresco à sensação predominante de tédio, de vazio. É Luc quem propõe logo nas primeiras páginas a Dominique “uma aventura”, nesses termos (cf., Sagan, 1956, p. 37).   Para o filósofo francês Vladimir Jankélévitch, que publica apenas alguns anos depois, em 1963, o livro A aventura, o tédio, o sério , “o tédio está no centro de um universo minguado e diáfano onde todas as coisas estão envoltas pelo véu cinza da indiferença” (Jankélévitch, 2017, p. 79, tradução nossa).   Pode ser que apesar do enredo simples, portanto, a ...

O abismo de São Sebastião, de Mark Haber

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Por Pedro Fernandes Mark Haber. Foto: Nina Subin Mark Haber se mostra com O abismo de São Sebastião um escritor fascinante devido sua capacidade inventiva de forjar todo um universo no interior daquele que já conhecemos fazendo da ficção não uma extensão da realidade, como é recorrente na literatura, mas uma realidade autônoma porque crível e sustentável pela sua própria estrutura. Essa qualidade é alcançada pela maneira sutil de se infiltrar na ordem histórica como conhecemos, sem o interesse de desarticulá-la, mas de mostrar como suas engrenagens, fruto das relações humanas, se organizam e constituem o que percebemos com o valor de verdade.   O entrecho narrativo é simples, mas não as possibilidades de leitura, sempre a depender de como o leitor se inicia no texto ou dele coloca em evidência certos extratos de acontecimentos. Trata-se do convívio entre dois críticos de arte unidos, separados e talvez reunidos, em torno de um interesse obsessivo: uma tela de aproximadamente trint...

Grand tour, de Miguel Gomes, um filme capaz de fazer milagres

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Por Alonso Díaz de la Vega   Entre as cenas do cinema que mais me comove está a de uma multidão de crianças que, extasiadas, assistem a um espetáculo de marionetes em Os incompreendidos (1959). François Truffaut se concentra nos rostos dos pequenos, e assim os planos abrangem o que parece ser uma infinidade de sorrisos desdentados, de olhos brilhantes, assustados ou até entediados. De repente, atravessa um plano com dois meninos mais velhos, Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) e seu melhor amigo, René Bigey (Patrick Auffay), que planejam um furto sem prestar muita atenção aos bonecos que narram aparentemente o desfecho de “Chapeuzinho Vermelho”. O papel dos protagonistas é semelhante ao do crítico, que não deve se deixar ficar muito impressionado, enquanto as outras crianças representam o público ideal: aquilo que veem (mãos disfarçadas de lobo e outros personagens) é claramente falso, mas as crianças presumem que seja real; algumas parecem que vão chorar, enquanto outras gritam d...

Nos 50 anos de Feliz Ano Novo, a história de uma censura

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Por João Victor Uzer Rubem Fonseca, anos 1970. Arquivo do escritor. Em 2025, Feliz Ano Novo , de Rubem Fonseca, completa 50 anos. Uma das coletâneas mais lembradas do autor, o livro ganhou notoriedade devido seu histórico com a ditadura. O fato de ter sido censurado sob a alegação de atentar contra a “moral e os bons costumes” é bem conhecido, mas outro aspecto importante desse evento é normalmente negligenciado: o escancaramento da ignorância dos censores.   Fonseca é bem celebrado pelo seu estilo caraterístico, denominado brutalismo pela crítica. Com personagens periféricos e o uso de uma linguagem marcada por gírias, a literatura fonsequiana se destacou nos anos 1960. Assim, quando Feliz Ano Novo foi publicado, o autor não era nenhum anônimo; já havia publicado outras três coletâneas de contos — Os prisioneiros (1963), A coleira do cão (1965), Lúcia McCartney (1969) — e o romance O caso Morel (1973). Com Lúcia McCartney recebera o prêmio Jabuti. Destaque que se reafirma ...