As almas mortas de Machado de Assis

Por Rafael Bonavina 

Machado de Assis e Nikolai Gógol (montagem)



Circulou recentemente uma informação que me pareceu bastante curiosa: Machado de Assis escreveu um texto a partir de um mote tomado do romance Almas mortas, de Nikolai Gógol. Assim que vi isso, parei imediatamente o meu dia e comecei a pesquisar o assunto e não sosseguei até conseguir o acesso a essa crônica de Machado. A crônica faz parte daquelas publicadas anonimamente na Gazeta de Notícias, mas emolduradas pelos dizeres “Bons dias!” e “Boas noites.”; e no caso, é a de 26 de junho de 1888. Com o texto em mãos, não se pode duvidar da intertextualidade, embora seja bem específica, pois o romance gogoliano não é só mencionado no corpo do texto, como lhe é creditada uma importância fundamental: “Conhece o leitor um livro do celebre Gógol, romancista russo, intitulado Almas mortas? Suponhamos que não conhece, que é para eu poder expor a semente da minha ideia.”¹  Como se vê, o livro russo é “a semente” da ideia que ele vai nos apresentar ao longo da crônica e de que falaremos um pouco mais adiante.

O tom ácido é usado por Machado de Assis para satirizar o tema mais importante da sua época: a libertação dos escravos. A essa altura, talvez já possamos nos perguntar: ora, mas o que o tal russo tem a ver com isso? A questão é que Nikolai Gógol escreveu seu romance em um momento em que os senhores de terra pagavam imposto sobre as “almas”, expressão que usavam para designar os servos. Porém não havia um censo anual para saber quantas elas eram; pelo contrário, a contabilização dessas “almas” demorava bastante para acontecer e, enquanto isso, o valor pago se mantinha o mesmo. O impulso inicial é de pensar que nasceriam pessoas e, portanto, o valor devido seria menor do que o esperado, mas o problema abordado por Gógol é justamente o contrário. Ou seja, essas “almas” poderiam morrer entre os censos — daí o título do romance Almas mortas —, mas seus senhores continuariam pagando o imposto sobre elas, mesmo que não pudessem contar com o dinheiro ganhado às suas custas.

Nikolai Gógol explora essa contradição da sociedade russa por meio de uma pungente sátira em que o protagonista Pável Tchítchikov tem uma ideia genialmente simples: visitar as terras de vários aristocratas e comprar os títulos dessas “almas mortas” a preço de banana. Os senhores tinham muito interesse em se verem livres desse peso morto em suas finanças e, apesar de certas dúvidas, acabavam aceitando vendê-las, mas não conseguiam entender por que o estranho homem as queria. Mas aí é que se esconde o segredo do pulo do gato. De um ponto de vista legal e burocrático, essas “almas mortas” continuavam vivas até que o próximo levantamento fosse feito, ou seja, até que se verificasse sua morte, Tchítchikov dispunha de uma grande quantidade de trabalhadores que lhe gerariam, supostamente, uma renda bastante significativa. E, assim, o vigarista iria até um banco para pedir um empréstimo, usando esse lastro fictício como garantia. 

O romance, infelizmente, não chegou a ser finalizado, e boa parte do que havia sido escrito foi queimada pelo seu próprio autor, então não sabemos ao certo como a história terminaria. Podemos supor, claro, que o empréstimo nunca seria honrado, e assim que o banco fosse cobrar a dívida descobriria a triste notícia de que não passavam de papéis sem valor. Mas não podemos ter certeza de quais seriam as consequências desse golpe, se é que haveria alguma. Se o final fosse algo parecido com O inspetor geral, a obra-prima dramatúrgica de Gógol, o romance provavelmente acabaria no momento em que o golpe fosse descoberto.

Retomando, então, o texto de Machado de Assis, podemos perceber que ele toma esse plano do trapaceiro russo como inspiração e propõe seu próprio golpe ficcional, porém com um pouco mais de malandragem. Como se sabe, depois de um longo e acalorado debate sobre a libertação dos escravizados, foi decidido legalmente que os seus “donos” deveriam receber uma indenização pela perda de “propriedade”. Deixemos de lado o absurdo que está por trás disso e fiquemos apenas com o plano literário. Machado cria, então, um narrador-personagem que queria se aproveitar dessa indenização e lucrar algum dinheiro às custas do governo. O narrador-personagem nos apresenta esse plano por meio de uma negociação:

“Suponha o leitor que possuía duzentos escravos no dia 12 de maio, e que os perdeu com a lei de 13 de maio. Chegava eu ao seu estabelecimento, e perguntava-lhe:
— Os seus libertos ficaram todos?
— Metade só; ficaram cem. Os outros cem dispersaram-se; consta-me que andam por Santo Antonio de Padua.
— Quer o senhor vender-mos?
Espanto do leitor; eu, explicando:
— Vender-mos todos, tanto os que ficaram, como os que fugiram.
O leitor assombrado:
— Mas, senhor, que interesse pode ter o senhor…
— Não lhe importe isso. Vende-mos?
— Libertos não se vendem.
— É verdade, mas a escritura de venda terá a data de 29 de abril; nesse caso, não foi o senhor que perdeu os escravos, fui eu. Os preços marcados na escritura serão os da tabela da lei de 1885; mas eu realmente não dou mais de dez mil réis por cada um.
Calcula o leitor:
— Duzentas cabeças a dez mil réis são dois contos. Dois contos por sujeitos que não valem nada, é porque já estão livres, é um bom negócio. […]
Naturalmente, o leitor à força de não entender, aceitava o negócio. Eu ia a outro, depois outro, depois a outro, até arranjar quinhentos libertos, que é até onde podiam ir os cinco contos emprestados [inicialmente]; recolhia-me à casa, e ficava esperando.
Esperando o quê? Esperando a indenização, com todos os diabos! Quinhentos libertos, a trezentos mil réis, termo médio, eram cento e cinquenta contos; lucro certo cento e quarenta e cinco.”

De um ponto de vista formal, o excerto chama a atenção por tornar o leitor um personagem ficcional, atribuindo-lhe uma voz e pensamentos. Com isso, Machado puxa o seu interlocutor para dentro da obra e o incorpora à narratividade. Se, contudo, olharmos pela perspectiva da intertextualidade, veremos que o paralelo com o romance gogoliano que vinha mencionado agora se intensifica pela repetição de um procedimento narrativo: a visita a vários personagens para comprar títulos inúteis, por assim dizer, mas que se mostram muito valiosos nas mãos de um espertalhão. 

Ao contrário do texto de Gógol, em que o golpe é arquitetado de maneira bastante orgânica, ou seja, baseando-se na falta de atuação do próprio Estado russo, o personagem machadiano se vê obrigado a cometer uma fraude dupla. Além de comprar títulos vazios a fim de receber uma indenização indevida, ele também precisa forjar um documento de compra anterior à publicação da lei. Parece ressoar, nesse sentido, a famosa frase de Antonio Candido sobre a maior violência da realidade brasileira que, enquanto a Europa diz “mata”, o Brasil grita “esfola”.

Com isso, a nosso ver, Machado de Assis veicula duas mensagens simultâneas ao seu leitor. Em primeiro lugar, o tom satírico do texto — muito presente em Gógol, diga-se de passagem — consegue criticar a libertação dos escravizados por meio da derrisão, porém de uma maneira mais sutil e ardilosa, e talvez justamente por isso mais efetiva, do que um embate direto com a ideologia que fundamenta a ideia de uma indenização. Ou seja, ao apontar que essa restituição cria uma excelente oportunidade para vigaristas, a que ele torna pública por meio da sua crônica, Machado põe em xeque o acerto dessa medida e o quão bem-acabada ela de fato se mostrava.

Ao mesmo tempo, por utilizar uma sátira social que se centra em um problema tão específico da sociedade russa, Machado de Assis também consegue aproximar a Rússia, um país tão distante, da realidade brasileira. Por sua vez, a própria gênese do texto evidencia a necessidade de estudarmos paralelos entre essas duas culturas. A empreitada, contudo, significa mediar duas tradições muito peculiares e distintas, tanto de um ponto de vista literário quanto acadêmico — e que tiveram pouco contato entre si —, por isso esse tipo de pesquisa exige um pesquisador muito atento e independente. 


Notas:
1 O texto está disponível integralmente na Hemeroteca, por aqui

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