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Borges e Paracelso

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Por Roberto Bolaño Carlos Estévez, La Rosa de Paracelso (2009)   Como todos os homens, como todas as coisas vivas da Terra, Borges é inesgotável. Em um de seus livros menos conhecidos, A memória de Shakespeare (1983), um pequeno conjunto de quatro contos, três deles aparecidos anteriormente em outras publicações, mas em um novo, o que dá título ao volume, o leitor pode encontrar e ler ou reler “A rosa de Paracelso”, um texto muito simples, transparente, onde se narra a visita que recebe Paracelso de um homem que deseja ser seu discípulo. Isso é tudo do conto.   Ele, nem é preciso dizer, é mostrado com um certo langor que corresponde à época; a visita do desconhecido ocorre quando a tarde começa a cair e Paracelso está cansado e a lareira queima um fogo minguado. Então cai a noite e Paracelso, que está cochilando, ouve alguém batendo à sua porta. Entra um estranho que deseja ser seu discípulo.   As primeiras linhas da história são estas: “Em sua oficina, que abarcava os ...

O que se passou entre Roberto Bolaño e César Aira?

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Por Juan Tallón Roberto Bolaño. Foto: Revista Paula . Em julho de 2008, César Aira (Argentina, 1949) ministrou um curso em Santander, organizado pela Universidade Internacional Menéndez Pelayo. Custava cem euros e incluía uma bolsa para se hospedar quatro noites no Palacio de la Magdalena. Por acaso, naquele exato momento eu tinha o dinheiro e me inscrevi. No primeiro dia, uma hora antes de começar, desci para o café da manhã e encontrei Aira sozinho, tomando um suco de laranja vagamente natural, e com um ovo frito no prato, que era meu café da manhã favorito, mas para o jantar. Sentei-me ao lado dele e depois de um tempo me dizia que o nome do seu avô era Robustiano e que era de Sobradelo, em Ourense. Aira não sabia, nem eu, que em Ourense existem três vilas com esse mesmo nome. Pouco depois, Michel Lafon, professor de literatura argentina na Universidade Stendhal de Grenoble, romancista e tradutor de Aira, Borges e Bioy Casares para o francês, juntou-se ao café da manhã. Cascavilhamo...

Uma pasta de achados e perdidos

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Por Pedro Fernandes Roberto Bolaño. Foto: Giovanni Giovannetti    Tardou o tempo necessário para que os leitores brasileiros entrassem em contato com A Universidade desconhecida , de Roberto Bolaño, que nos chega através do exímio trabalho de tradução já reconhecido de Josely Vianna Baptista. Trata-se de um livro póstumo organizado pelos herdeiros responsáveis pelo arquivo do escritor, singularizado por Carolina López, a última mulher com quem ele conviveu. Embora, a generosa antologia reúna algum trabalho que Bolaño deu forma final, como os textos de “Gente que se afasta” apresentado como Amberes (Anagrama, 2002), e outros conjuntos tenham servido para pleitear algum lugar na concorrência dos vários prêmios literários que buscou, grande parte do material é inédita e foi organizada a partir de várias pistas deixadas por um homem assombrado com a morte e com o desamparo de um filho em criança.   Não tanto a crítica mais sistematizada pelos dogmas da teoria, mas se r...

A poesia de Roberto Bolaño, algo mais que um gesto incompleto

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Por Mónica Maristain — Quem o fez acreditar que é melhor poeta do que contador de histórias?   — A gradação do rubor que sinto quando, por puro acaso, abro um livro meu de poesia ou um de prosa. Eu coro menos com a poesia.   Lucero Andrade, Roberto Bolaño e Bruno Montané. Foto: Consuelo Karoly.   Ele não escreveu um Canto Geral , que entre outras coisas era seu livro favorito de Pablo Neruda. Não deixou a marca de outro de seus compatriotas, Raúl Zurita, que em A literatura nazista na América empresta a Carlos Wieder o hábito de escrever poemas no céu (Precisamente, em Cadernos de guerra , Zurita se refere ao “Hepático Bolaño” que nunca conheceu e muitas vezes recebe pouco crédito como poeta e romancista).   No entanto, Roberto Bolaño (1953-2003) escrevia poemas. Não foi um grafomaníaco como seu grande amigo Mario Santiago (1953-2008), mas atribuiu a uma inalienável vontade poética, além de publicar algumas coleções de poemas, incluindo sua primeira obra editada pel...

A nuvem escura de Roberto Bolaño

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Por Guillermo Ortiz Roberto Bolaño. Arquivo Revista Paula.   A noite cai e Udo sai do seu hotel de férias para procurar Quemado, resgata-o de um bar e leva-o de volta para o quarto onde os dois se desafiam diante de um tabuleiro repleto de posições militares, bases e conquistas. O jogo se chama “O Terceiro Reich” e recria a Segunda Guerra Mundial à maneira de um Risk descomunal, uma costa mediterrânea já abandonada, quase outubro, as tardes mais curtas e frias, um frio inesperado para o turista.   Às vezes é o contrário, às vezes é Quemado que acorda Udo. Principalmente porque ele decidiu que vai ganhar o jogo. Aparece em Del Mar e espera em silêncio que seu rival desperte ou pelo menos acorde, para não jogar com vantagem. Pode-se imaginar Quemado com óculos frágeis, cabelos cacheados, meio sorriso e um cigarro nos lábios, mas não, Roberto Bolaño prefere que seja um homem musculoso, cheio de cicatrizes, um guerreiro valente e torturado num país estrangeiro que não sabemos qual...

A literatura nazista na América, de Roberto Bolaño

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Por Pedro Fernandes As discussões crítico-teóricas sobre o que determinam as textualidades para o literário costumam citar a intertextualidade e a autorreflexão como dois elementos fundamentalmente recorrentes; isto é, pensando que a principal tarefa dos escritores têm sido a de renovação – e essa quase sempre se determina pela ruptura com forças já estabelecidas – é que se acredita que todo texto literário decorre do trabalho de revisão e da reflexão sobre esse trabalho. É evidente que, como todas as definições sobre o literário, essa não é (ou pelo menos não funciona como) uma verdade universal e absoluta. E sua recorrência aqui se apresenta porque A literatura nazista na América se filia a uma tradição que permitiu o pensamento crítico-teórico alcançar essa compreensão intertextual e autorreflexiva sobre a literatura. Isso porque a dicção do romance de Roberto Bolaño se constitui de uma estreita relação com o sistema literário e, por sua vez, com a materialidade que o ...

Sepulcros de caubóis: uma oportunidade única e fascinante

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Por Patricio Pron Rigoberto Belano, narrador de “Pátria” (o primeiro dos três textos que compõem Sepulcros de vaqueros [Sepulcros de caubóis]), recorda que quando era criança brincava com seus irmãos a “converter os momentos felizes em estátuas”; e enquanto foge de Santiago do Chile no carro de Patricia Arancibia, se descobre desejando que “alguém, um anjo que nos observasse do céu, convertesse [em estátua] a velocidade e a fuga”. Poucas literaturas são mais relutantes a adotar uma rigidez estatuária que a do seu autor, Roberto Bolaño; catorze anos depois de sua morte, essa obra nem sequer pode ser dada como concluída: de 1996 a 2003 (seus anos de maior visibilidade), Bolaño publicou 11 livros; desde esta última data até a atualidade publicaram 10, entre eles 4 imprescindíveis: 2666 (2004), A universidade desconhecida (2007), As agruras do verdadeiro tira e Bolaño por sí mismo [Bolaño por ele mesmo] (estes dois últimos de 2011). A existência de outros inéditos cujo ...

Roberto Bolaño: “Escreve tu a poesia por mim”

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Por Toño Angulo Danieri Da esquerda para a direita: Roberto Bolaño, Álvaro e Bruno Montané. Arquivo Roberto Bolaño. Augusto Monterroso deixou por escrito os três destinos que esperam o latino-americano que pretende dedicar sua vida à leitura e à escrita: exílio, isolamento ou esquecimento. Não acrescentava exemplos, mas qualquer um que pense em Vallejo ou em Osvaldo Lamborghini ou no próprio Monterroso sabe a quem se referia o guatemalteco. As cartas que Bolaño enviou ao seu amigo e também escritor chileno Bruno Montané entre setembro de 1976 e uma data indeterminada de 1997, e que acabam de chegar à Biblioteca Nacional de Espanha (BNE), situam o autor de Estrela distante ao menos em duas esquinas dessa latino-americaníssima trindade literária. Nelas aparece o Bolaño desterrado (“para os velhos o exílio é algo insuportável, para os jovens é a promulgação natural da aventura”), mas sobretudo o “ermitão que permanece recluso” (assim o descrevem numa revista chilena e em...