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João Guimarães Rosa, o feiticeiro das palavras

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Guimarães Rosa “― Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram e briga de homem não, Deus esteja. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente ― depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucaia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde um criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães é questão de opiniães... O sertão está em toda parte.” Este belíssimo fragmento de Grande Sertão: Veredas , o...

Hilda Hilst

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Por Rosanne Bezerra de Araújo  Atraco-me comigo, disparo uma luta. Eu e meus alguéns, esses dois dos quais dizem que nada têm a ver com a realidade e é somente isto que tenho: eu e mais eu. H. Hilst Desejo de eternizar-se. Desejo de abdicar da vida social para se dedicar totalmente à literatura. Desejo de alcançar a verdade, o conhecimento, a compreensão da vida e da morte. Desejo de ser santa aos oito anos de idade, quando era interna no colégio de freiras. Desejo de escrever um livro a cada novo amor que surgia em sua vida. Desejo de traçar um roteiro para a sua obra, mesmo que o seu final dê no silêncio : "eu fui atingida na minha possibilidade de falar". Eram tantos os desejos dessa autora, leitora de Joyce, Beckett, Kafka, Nietzsche, Kierkegaard e Kazantzákis, só para citar alguns de seus autores preferidos. A literatura de Hilda de Hilst (1930-2004) traz como tema, entre outros, o sentido da existência humana. A autora escreveu poemas, contos, romances, crônic...

A poesia de Antonio Cicero

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Por Pedro Fernandes Antonio Cicero, um dos nomes mais proeminentes da poesia brasileira do século XX, dedicou-se a várias frentes da escrita, além do gênero no qual se destacou; foi letrista e ensaísta. Dessas várias faces, ficou mais conhecido pelas suas letras que tomaram forma e ritmo na voz de alguns dos mais expressivos intérpretes da nossa rica cena musical; produção que se deu desde jovem, mas só se torna popular por sua irmã, a cantora, compositora e também escritora Marina Lima. A formação de Antonio Cicero é na área da filosofia, curso iniciado na Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio) depois de cumprir o ensino médio em Washington, nos Estados Unidos, onde morou quando o pai, o economista Ewaldo Correia, foi nomeado para um cargo no recém-fundado Banco Interamericano de Desenvolvimento e a família precisou deixar o Brasil.  O curso superior só foi concluído na Universidade de Londres. Como muitos de sua geração, Cicero também se viu obrigado a deixar...

Helio Pellegrino

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Helio Pellegrino é mineiro, de Belo Horizonte. Nasceu no dia 05 de janeiro de 1924 e morreu no dia 23 de março de 1988, no Rio de Janeiro, cidade para onde se mudou em 1952. Quatro anos depois de nascido, conhece ninguém menos que Fernando Sabino. Ou seja, o grupo que na cena literária brasileira ficou conhecido como os Quatro Mineiros - se juntariam mais tarde aos dois Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos - começa de alguma maneira ainda no jardim-de-infância.  É em 1939 que começa a escrever seus primeiros poemas, fortemente inspirado pelas leituras de Carlos Drummond de Andrade. E é por essa época ele publica um poema, o seu primeiro, no jornal O Diário . Mas não é ainda com a literatura que Helio Pellegrino passa a viver somente; em 1942, incentivado pela família, ingressa na Faculdade de Medicina, também na capital mineira; vai ao curso contra sua vontade, porque segundo dizia entre os amigos, queria mesmo era fazer Filosofia. Em 1943, já decidido pelo ramo ...

Uma crônica de José Saramago sobre Jorge de Sena

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1.  Há alguns meses cumpriu a longa travessia pelo Atlântico, não por mares mas por ares, um livro dos muitos de José Saramago que estão sem publicação no Brasil. Chama-se Folhas Políticas  e recolhe textos publicados em meios diversos da mídia portuguesa entre os anos de 1976 e 1998. Apesar do título notei que os textos percorrem temas e idéias das mais variadas. E os textos são de gêneros também diversas; a grande parte é de crônicas, mas há discursos, como o que leu  no recebimento do Prêmio Cidade de Lisboa, em 1981, pelo livro Levantado do chão . 2. Na segunda-feira, faz 30 anos da morte do escritor Jorge de Sena. Para quem não o conhece, o português viveu uma parte de sua vida no Brasil; fez doutorado aqui e foi professor em Araraquara. Suspeito que quase ninguém saiba disso. Se viveu aqui, aqui escreveu então boa parte de sua obra. Veio para cá perseguido pela ditadura em seu país e foi embora do Brasil pelo mesmo motivo. Passou a viver nos Estados Unidos e lá...

O fabuloso destino de Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet

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Por Pedro Fernandes Exibido nas chamadas sessões Cults O fabuloso destino de Amélie Poulain é certamente um dos filmes mais delicados (e fofos), sem ser piegas, das produções contemporâneas. Marcado por um narrador em off tão metódico com os detalhes quanto a natureza das personagens que pretende analisar (alguns caricatos e parece que saídos de um conto de fadas), trata-se de uma produção reveladora sobre a nossa relação individual com os mundos que fabulamos e o quanto esses interferem na vida coletiva. Quer dizer, ao menos o universo de Amélie e porque ela, movida por um certo espírito quixotesco, de heroína contemporânea num mundo sem heróis, decide reanimar a rotina desvalida de sentido das vidas dos que estão ao seu redor. Isso significa dizer que, da mesma maneira que a personagem central da história faz com que seu mundo particular possa intervir de alguma maneira (como se obra do acaso na vida dos que lhe são próximos), a vida repentina e monótona destes são r...