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Rachel de Queiroz

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Primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. O ano que finda marcou o centenário de nascimento da escritora nascida em Fortaleza (CE). Quando Rachel de Queiroz se estreia na literatura com o seu romance O quinze , em 1930, já a seca do sertão nordestino figurava enquanto elemento na ficção. O fato é Rachel não apenas ambienta a seca, mas faz dela tema e persona na sua obra. Além do que ela inaugura, como faz todo grande escritor, um estilo próprio. Dona de uma prosa árida, despojada, o avesso completo das possibilidades que se vinham sendo experimentadas nos territórios de escrita de sua época, Rachel de Queiroz está situada no início de um dos movimentos mais ricos de nossa literatura - o movimento regionalista. Além romancista, Rachel foi cronista e dramaturga, sendo desta última profissão textos como Lampião (1953) e  A beata Maria do Egito (1958). Depois de poemas esparsos publicados em li...

A pedra do reino, de Ariano Suassuna

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Por Pedro Fernandes Li este romance ainda no período de minha Graduação em Letras. Ainda não estava contaminado por essa coisa que vai infestando a quem se debanda para a vivência acadêmica. A coisa que digo é a teoria. A necessidade de apelo ao jogo teórico que corrói e adoece as mentes acadêmicas. Era o período em que o tempo ainda me sorria. Encarar um catatau de mais de 600 páginas foi proeza rara só vencida quando tive diante de mim a leitura do Dom Quixote . Por falar nesse clássico da literatura universal, enxergo, guardando, é óbvio, as devidas proporções, muito do romance-epopeia de Cervantes. Já veremos o porquê. A pedra do reino foi publicado em 1970, e é até o presente, um romance cuja completude não é firme. Isso porque, o próprio escritor, ao comentar do projeto de escrita desse romance, assinala a existência de duas outras partes, compondo, assim, uma trilogia. Entretanto, nenhuma das duas vieram a público; fato justifi...

Alguma poesia: o livro em seu tempo

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Alguma poesia foi o livro de estreia de Carlos Drummond de Andrade. Sem a possibilidade de publicar a obra por alguma editora, o poeta não hesitou em pagar do próprio bolso a primeira tiragem de quinhentos exemplares. Quando publicado, logo se destacou no âmbito da cena literária modernista no Brasil. É nele que o leitor encontra peças como "Poema de sete faces", "No meio do caminho", "Cidadezinha qualquer", "Quadrilha" - poemas reconhecidos dos  leitores pela presença em jornais e revistas da época.  Mas, os louros não foram unanimidade. O livro e o poeta encontraram pelo caminho algumas pedras. E as contradições da recepção de Alguma poesia  foram catalogadas atenciosamente por Drummond. Agora, parte desses registros mais outros acumulados aquando da publicação em 1930 estão documentados nessa primorosa edição publicada pelo Instituto Moreira Salles (IMS), instituição que guarda no seu acervo um rico espólio do poeta. A edição de Alguma poe...

A 18, encontro com José Saramago (VI)

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Pintura de José Santa-Bárbara para Memorial do convento . ...tudo quanto é nome de homem vai aqui, tudo quando é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende, Alcino, Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias, uma letra de cada um para ficarem todos representados, porventura nem todos estes nomes serão os próprios do tempo e do lugar, menos ainda da gente, mas, enquanto não se acabar quem trabalhe, não se acabarão os trabalhos, e alguns destes estarão no futuro de alguns daqueles, à espera de quem vier a ter o nome e a profissão. [José Saramago, Memorial do convento , p. 233] * Iniciativa posta na rede desde o dia 18 ...

Novamente, a escrita

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Por Pedro Fernandes "Mulher escrevendo uma carta". Frans van Mieris Já dizia o saudoso poeta Carlos Drummond de Andrade que a luta com palavras é coisa vã. E é. Surgida com o pretexto de traduzir e organizar a fala, o processo da escrita configura-se como um processo doloroso, dramático, infinito, solitário. Doloroso e dramático porque sempre que nos deparamos com um tema para desenvolvermos um texto qualquer, oscilamos e, não são poucas as vezes que até desistimos pelo simples fato de não conseguirmos colocar/expor no papel aquilo que poderia ser nossa fala, nossa opinião. E não apenas isso. Articular ideias e signos é mais complicado do que possa parecer ao mais entendido de fluxos verbais e gramaticais. Agora, infinito é tal processo porque, quando retomamos um texto nosso qualquer subtraímos ou adicionamos ideias. Encontramos absurdos. Coisas que supostamente não diríamos ontem se tivéssemos os olhos de hoje. E solitário porque para produzir temos, na ...

Junichiro Tanizaki

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Por Ednodio Quintero Se tivéssemos que eleger um autor emblemático e representativo do romance moderno japonês, aquele que melhor expressa mediante o uso estético da linguagem as diversas transformações que aconteceram no século XX em seu país e no mundo, muitas delas induzidas por razões históricas, econômicas, políticas e culturais, este seria, sem nenhuma dúvida, Junichiro Tanizaki (1886-1965). Embora no Japão se considere que o escritor clássico por excelência é Natsume Soseki (1867-1916), quem soube dar à língua falada um lugar próprio na literatura e que segue sendo lido com fervor e interesse, Tanizaki leva ainda algumas vantagens em razão da amplitude e variedade de sua obra, além dos atributos decididamente modernos, audazes, vanguardistas e em ocasiões geniais. Tanizaki, um escritor multifacetado e dotado de um talento excepcional, se manteve ativo durante quase seis décadas, realizando uma viagem vital – expressada numa obra vasta e inesgotável – em paralelo c...