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Obra completa, de Raduan Nassar

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Raduan Nassar é um caso raro na literatura brasileira. Estreou muito tardiamente na literatura e a maneira como o fez parece demonstrar que nunca foi afeito ao exercício da escrita, no sentido de se constituir para si, como é para muitos escritores, uma contínua obsessão ou mesmo uma profissão. Afinal, essa sua estreia, quando contava quarenta anos se deveu, como tem sido demonstrado novamente agora, em 2016, ao esforço outras figuras que não o escritor. Não fosse isso possivelmente ninguém – fora do seu círculo familiar e de amizades saberia quem foi Raduan Nassar porque não teríamos notícia de Lavoura arcaica , seu livro de estreia, em 1975, tampouco de Um copo de cólera , publicado três anos depois. O primeiro livro só saiu graças ao intermédio de um ex-professor de Raduan que encaminhou os originais à Livraria José Olympio, do Rio de Janeiro em 1974; depois de conquistar alguns prêmios ( Lavoura arcaica recebeu um ano depois de sua publicação o Prêmio Coelho Neto da Acad...

Boletim Letras 360º #199

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Esta semana é a última para o recesso de final de ano do Letras. Os leitores que nos acompanham há alguns anos conhecem como esse intervalo de descanso funciona: as redes sociais diminuem o fluxo de postagens e por aqui, no blog, apenas estes boletins circulam a cada sábado, mas as matérias também ganham outro ritmo — e o ano só termina quando, no dia 31, entram online as listas com livros e filmes, uma das últimas da web  brasileira, pensando que muitos blogs e páginas já soltaram suas preferências ou soltarão nas duas próximas semanas. Ficamos assim por entre trinta e quarenta dias; é, como costumamos dizer, uma pausa para ganhar fôlego para mais um ano de atividades. Recado passado, vamos saber das notícias que compuseram o mural do Letras no Facebook em mais uma semana online. Ferreira Gullar. Foto: Márcio Vasconcellos Domingo, 04/12 Morreu Ferreira Gullar O poeta participou de todos os acontecimentos mais importantes da poesia brasileira. Quarto dos 11 filho...

Sete livros de ficção científica da literatura russa

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Isaac Asimov, possivelmente o mais conhecido da ficção científica russa, mas não o único. Exceto os autores clássicos da antiguidade cujas obras poderiam ser incluídas na classificação de ficção especulativa, a ficção científica europeia e, por inclusão, a russa, começaram sua trajetória em meados do século XIX, coincidindo com o começo do desenvolvimento científico e com a percepção de que a ciência continha em si mesma a semente para ser uma disciplina sujeita a evolução; o que haviam sido tentativas isoladas e anedotas se converteu, por acumulação de títulos, numa corrente que desembocou na configuração de todo  um gênero literário. Os autores russos que se destinaram a este nascente gênero, diferentemente dos franceses e anglo-saxões, não foram muito conhecidos e nem suas obras passaram a fazer parte da literatura popular; é possível que o peso específico dos romancistas realistas nessa verdadeira Idade do Ouro da literatura russa relegou ao desconhecimen...

Voltar para casa, de Toni Morrison

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Por Pedro Fernandes Está na transformação entre a ideia de cópia como uma reprodução e cópia como criação, isto é, na revisão de um dos conceitos mais caros ao estudo da narrativa nascido na Poética de Aristóteles, a compreensão de que o narrado é também a história possível ou a construída através das impressões da memória imaginativa e não meramente reafirmação no interior do narrado daquilo que se passa na realidade externa da narração um dos feitos mais importantes na arte de contar histórias. Mesmo correndo o risco de dizer alguma inverdade sobre o tema, porque esta é uma visão construída pela leitura de obras da literatura contemporânea, a ideia de narrativa enquanto possibilidade é uma tendência que melhor tem servido aos escritores atualmente e que melhor comprovam essa variação do conceito aristotélico. Também Toni Morrison não deixou de contribuir para essa constatação. Voltar para casa , o romance mais recente da escritora Prêmio Nobel de Literatur...

Jack London, vozes do além

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Se o gênio saísse da lâmpada e nos desse a possibilidade de pedir estes três desejos que só ele pode conceder, cada um teria seguramente ao menos um ente muito querido, desses que nos marcam com sua partida, com quem gostaríamos de trocar as últimas palavras, os últimos olhares, antes do adeus. É esse impulso o que nos leva, ante uma perda importante, à sua fotografia, sua última mensagem de telefone, ou qualquer coisa que signifique um rastro seu. No último filme de Ariel Rotter, Luz incidente , com fortes toques autobiográficos, Luisa (Erica Rivas) cheira com intensidade a camisa de seu companheiro recém-falecido para tentar reter através do cheiro que deixou aí algo dele. Volta ao lugar do acidente para buscar, entre outros restos dispersos, algo sem o qual não pode continuar respirando, nem seguir adiante. Eram os anos 1970. Hoje recorremos à técnica na procura desses restos dispersos. No último dia 22 de novembro passaram-se 100 anos da morte do romancista Jack London – ef...

Os sertões, de Euclides da Cunha

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Numa lista de obras fundamentais para compreender o Brasil, uma, certamente, nunca deverá faltar: Os sertões . Ela é, como Grande sertão: veredas , de Guimarães Rosa, Vidas secas , de Graciliano Ramos, Macunaíma , de Mario de Andrade Quarup , de Antonio Callado, Viva o povo brasileiro , de João Ubaldo Ribeiro, entre outros, elemento de nosso genoma; são visadas muito coerentes sobre nossa identidade e sobre a quantidade diversa de questões que nos afligem enquanto povo, sendo que, o livro de Euclides da Cunha,  trata-se de um projeto que visa amalgamar a força e a riqueza da nossa linguagem com a escrita de registro e denúncia sobre um dos episódios mais tristes e dramáticos da luta de classes no Brasil. Há algo nesta obra que faz dela ponto de acesso entre o tempo que lhe antecede e este que agora o sucede: a constatação sobre, em nome de um desnecessário alinhamento das conjunturas internas com as transformações internacionais, promover toda sorte de inte...