Doença e genialidade: o espírito trágico de Adrian Leverkühn em Doutor Fausto
Por Juliano Pedro Siqueira

Doutor Fausto, de Thomas Mann, é considerado, tanto pela crítica quanto por ele mesmo, como a obra da velhice. O grande empreendimento romanesco exigiu-lhe esforço hercúleo, custando-lhe sacrifícios físicos e intelectuais. A entrega sem medida culminou na versão mais melódica e filosófica da lenda do Fausto, colocando-a, talvez, em nível de paridade com o clássico poema trágico de Goethe.
Em A gênese do Doutor Fausto: romance sobre um romance — sua obra póstuma e autobiográfica —, Mann relata o percurso intelectual que o conduziu a escrever o romance de 1947. Segundo o romancista, o projeto é fruto do acúmulo de leituras e escritos, os quais reuniu por anos. A ideia de transformar os materiais disponíveis em forma de romance ocorreu-lhe quase que acidentalmente, quando estava finalizando a tetralogia, José e os seus irmãos.
Naquela altura, o autor era um septuagenário, e seu vigor físico oscilava continuamente. Além do ofício de escritor, possuía uma vasta agenda de compromissos: reuniões com intelectuais, encontros familiares e, já na condição de exilado, produziu uma gama de discursos no rádio aos alemães, em oposição ao regime de Hitler. Foi em meio a tantas tarefas exaustivas que encontrou coragem — ainda que temerária — para iniciar as primeiras páginas do Doutor Fausto.
Devido à complexidade do tema, Mann anteviu o grau de dificuldade que envolveria a elaboração narrativa do romance; e, por esta razão, optou pela construção psicológica e filosófica do seu protagonista, o jovem estudante, Adrian Leverkühn. É no construto dessa criatura densa, cheia de vitalidade criativa e inclinada ao espírito trágico, que, de momento, pretendo discorrer.
Segundo Thomas Mann, a inspiração do seu personagem principal nasce das leituras prévias do filósofo Friedrich Nietzsche (1 844-1900). O autor de A montanha mágica tomou nota de que a doença crônica que acometeu o filósofo até a morte exerceu decisiva influência sobre o seu pensamento. O romancista alemão identificou em Nietzsche que sua paixão musical wagneriana, o estilo de escrita poético e aforístico e a própria sífilis contraída em um bordel poderiam servir como matéria-prima para moldar o caráter amoral e trágico do seu protagonista. A partir dessa percepção, Mann iniciou o emprego de tais elementos na criação da identidade de Adrian.
A analogia entre o pensador alemão e o personagem Leverkühn torna-se consciente à medida que o leitor penetra nas camadas sinfônicas da obra. A trajetória intelectual do jovem transitou da teologia à música. E é justamente durante sua travessia artística que sucumbe à loucura — proveniente da sífilis, ora adquirida de uma meretriz. Inevitavelmente, ele herda das mãos de Mann a porção criativa e genial que encontrou na vida pessoal de Nietzsche. E não lhe reservou apenas o poder da criação, mas também a maldição da doença e do desatino. A vida do protagonista, que transita entre a genialidade e o trágico, se enquadra perfeitamente ao conceito do eterno retorno cunhado pelo próprio filósofo alemão.
O amigo Serenus — voz ativa que narra a ascensão, o pacto e a ruína de Adrian — destaca a existência vazia e controversa do músico. Cercada por ambição, luxúria, criatividade, doença e tragédia, Leverkühn pendula entre a genialidade e a loucura, ambas causadas pela doença e pela ambição desmedida. O peso dessa metamorfose intelectual e espiritual não paralisa o musicista, que leva a cabo sua magnum opus — a ópera cômica, baseada na peça Trabalhos de amor perdidos, de Shakespeare.
Adrian visava representar o zeitgeist da cultura alemã e revolucionar os ideais e valores do seu tempo. Em nome do ápice criativo, é consumido pelo fascínio do pacto diabólico, cujo preço é a perda da sua humanidade, representada pela incapacidade de amar. A premissa filosófica e humanista de Adrian não via nenhum sentido metafísico no homem; e que o mesmo não passava de um produto humano, demasiadamente humano. O gênio salvou a sua arte, mas sacrificou a si e ao mundo!
A ascensão e a queda de Leverkühn assemelham-se à figura do tirano, que, na altura, ver ruir todo o seu ideal político. É no mínimo curioso pensar que Nietzsche — como Adrian —, obscurecido pela doença, não veria prosperar sua ambiciosa filosofia que aspirava, no modelo de Além do Homem, a substituição da metafísica tradicional por valores que afirmassem apenas a vida mundana.
Mergulhado em um contexto de desolação e exílio, Thomas Mann tece uma profunda crítica quando a glória humana é conquistada separada da ética. O romancista aponta que o eu individualista, sem compaixão e humanidade, tende a descambar para a desgraça terrena. O apogeu criativo do anti-herói, Adrian, é forjado em ideais amorais, encarnado na figura do gênio trágico. A genialidade que envolveu o músico, adquirida pelo pacto, é o reflexo do declínio moral e espiritual de uma Alemanha que lançou mão do amor e da humanização do homem. A profunda formação cultural e intelectual que o autor identifica entre Adrian e Nietzsche envolve refinados gostos musicais, artísticos, linguísticos e filosóficos, mas nenhuma dessas habilidades intelectuais conseguiu evitar o declínio de ambos. Obscurecidos pela loucura, restou-lhes dançar até à vertigem existencial, ao som de notas dodecafônicas.
Mann veio de uma família com forte ligação à tradição musical. E, por isso, confessou o grande desafio em estabelecer o vínculo do personagem Adrian com a música clássica. Tanto o autor alemão, quanto Nietzsche e toda a classe intelectual alemã — incluindo a liderança política nazista —, detinham elevada educação musical. O romancista alemão contou com a ajuda sistemática de Adorno, que foi um hábil estudante de música.
Segundo Mann, Adorno não apenas colaborou com ideias essenciais para o romance em questão, como revisou inteiramente a parte musical da obra. O desempenho musical do protagonista Leverkühn é algo tão singular e profundo, que forma o núcleo da sua glória e ruína. E nesse pêndulo entre grandeza e queda no espírito da música — simbolizando o divino e o diabólico —, cria-se o fio condutor da ruptura de Nietzsche com Wagner. E assim, Adrian é impulsionado a romper com as formas artísticas tradicionais. Tanto o filósofo quanto o protagonista de Doutor Fausto sofreram do esgotamento criativo; e, a partir desse desalento artístico, buscaram novos estímulos e valores que comunguem com seus anseios humanistas.
O compositor Mozart é outro exemplo de gênio musical que, apesar da prodigalidade, faleceu precocemente, aos 35 anos. Há quem diga que ele viveu desmedidamente, dado a extravagância, jogatina e gastos excessivos. É pouco provável que tenha relação direta com a sua ruína, mas é intrigante que seu talento tenha sido interrompido justamente em meio à composição da inacabada Missa de Réquiem. Se é por intermédio da música e do trabalho exaustivo que Mozart gozou fartamente a vida, foi também neste mesmo mundo artístico que ele se deixou levar por ilusões que talvez não correspondessem à sua realidade e padrão de vida. É notável como o espírito da música na tradição cultural alemã costuma ser paradoxal para algumas mentes brilhantes.
Adrian Leverkühn encarna o gênio trágico. Na busca de um conhecimento que lhe fosse inesgotável, é levado a confrontar sua própria insanidade. A destruição do protagonista, narrada por seu amigo, soa como um evento apocalíptico, revelando aos leitores como pode ser amargo o espírito triunfalista — seja por meio das artes, da política ou da filosofia. Atormentado por novas inspirações, mergulha em devaneios místicos, que lhe garantam poder de criação infinita. Mesmo a arte, com todo seu encanto e beleza, quando extrapola os limites éticos, torna-se inescrupulosa e sombria. O gênio trágico não apenas rivaliza com o divino, mas subjuga e tiraniza outros homens. O perigo em divinizar criaturas excêntricas e gananciosas é a força motriz que as alimenta, encorajando-as a abraçar ideias radicais, inclusive, que envolvam sacrifícios de alta magnitude.
Referências
MANN, Thomas. Doutor Fausto: a vida do compositor alemão Adrian Leverkühn narrada por um amigo. Tradução de Herbert Caro. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
MANN, Thomas. A gênese do Doutor Fausto: romance sobre um romance. Tradução Ricardo Ferreira Henrique. São Paulo: Editora Mandarim, 2001.
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