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A aranha negra, de Jeremias Gotthelf

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Por Pedro Fernandes Ao tratar sobre a simbologia da casa Mircea Eliade observa o valor da fundação do que então constituirá uma reinauguração do episódio mítico da origem do mundo; como pensador que define o homem enquanto complexidade aberta a várias dimensões, entre elas a de se incluir num âmbito da repetição ritual ou da reatualização dos gestos paradigmáticos que o constitui desde sua origem, na construção da casa reúne-se todas as atribuições de reafirmação do cosmos. Na antiguidade, a pedra de fundação do lar reunia todo o valor dessa ordem – por isso, os ritos de sagração que são repetidos até hoje de alguma maneira pelo homem moderno, seja o registro fotográfico da concepção do novo lar, seja o festejo da inauguração, a benzedura das chaves etc. A pedra de fundação era para o homem primitivo sempre o elemento sagrado, disposto no umbral da casa e se constituía o centro do novo cosmos.   Em A aranha negra , de Jeremias Gotthelf, é em torno desse elemento que...

Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi, de Dee Rees

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Por Pedro Fernandes O enredo desse filme de Dee Rees parece saído de algum dos romances de William Faulkner; não é pelo tema ou mesmo pelas situações narradas e sim pela complexa e dramática atmosfera que dão coloração a um impasse de relações familiares e coletivas, sobretudo as hierarquias entre brancos e negros no sul profundo dos Estados Unidos no período de meados para o fim da Segunda Guerra Mundial. É claro que, no âmbito das primeiras relações e porque de uma alguma maneira se retrata uma decadência do poder hegemônico branco, a narrativa de Mudbound bebe das criações do escritor estadunidense. Figura fracassada, Henry McAllan tenta arranjar sua vida depois de se casar com uma solteirona que à primeira vista preenche todas as condições da figura ideal para manutenção da ordem do lar. Tudo começará a ruir com a necessidade de McAllan deixar a cidade para ir morar numa fazenda no delta do Mississipi, onde vivem como meeiros a família Jackson, negros que trab...

Machos nus: Walt Whitman, José Martí e Thomas Eakins

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Por Daniel Céspedes Góngora O século XIX começa já dominado por homens e – herdado da cultura judaico-cristã mediada pelo catolicismo – teve suas preferências pelo nu feminino “ao natural” contra a tradição acadêmica historicista e de assuntos mitológicos. Esquecia que a Adão – embora coberto por uma vestimenta de graça ou de luz, como recorda Giorgio Agamben – se deve a primeira “ostentação inconsciente” de sua natureza num mundo onde logo surgiria Eva, quem o acompanhará em sua ingênua nudez. Sem dúvida, o arquétipo machista e hétero-sexista do cânone humano provinha do olhar masculino. Uma mulher nua numa academia de belas artes no século XIX? Uma projeção imoral, sem dúvida. Mas as mulheres se desnudaram nos estúdios de pintores e fotógrafos. E fez-se acreditar que a sensualidade e a erotização eram apenas propriedades delas. O artista estadunidense Thomas Eakins mudará tudo ao reconsiderar o nu na própria academia. Eakins experiencia o quanto pode na Paris do ...

O fracasso de escrever

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Por Manuel de Lorenzo Liev Tolstói, autor do gigantesco Guerra e Paz Sempre pensei que há algo de aberrante em escrever. Em tentar passar para o papel uma história. É uma dessas coisas que nunca, jamais, saem como se quer. Assemelha-se, suponho, a criar um filho ou plantar um jardim. O texto sempre parece ir dizendo seu próprio caminho à margem da vontade do seu autor. É um processo utópico e infeliz. Repleto de insatisfações. O escritor nunca consegue estar à altura de suas próprias aspirações. Do que esperava de si mesmo como autor. Por isso, escrever é, sobretudo, fracassar. Fracassar uma e outra vez com a absurda esperança de não morrer na tentativa de vencer algum dia. Como se Sísifo tivesse alguma possibilidade de alcançar no futuro o alto da colina. Philip Roth escrevia em Pastoral americana sobre uma conversa entre as personagens Nathan Zuckerman e Jerry Levov em que este comenta que “a sala de cirurgia transforma a gente em uma pessoa que nunca está errada”, a...

Boletim Letras 360º #276

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Outra semana vivida do Letras. A seguir as notícias que deram forma a ela em nossas publicações diárias na página no Facebook. Boas leituras e é sempre um gosto revê-lo, revê-la. Ah! A gente tem pensado sobre uma próxima promoção numa de nossas redes sociais. Apesar de não termos detalhes avisamos como uma alternativa a dizer que não perdemos o gosto em agradar nossos leitores. Segunda-feira, 28/05 >>> Brasil: Nova edição para O paraíso são os outros , de Valter Hugo Mãe A primeira edição do conto publicada no Brasil pela extinta Cosac Naify trazia ilustrações de Nino Cais. Agora, o selo Biblioteca Azul / Globo Livros reúne ilustrações do próprio autor – seguindo o padrão editorial apresentado recentemente em Portugal, onde a obra de Mãe também passa por uma reedição. Em O paraíso são os outros , uma menina volta seu olhar pueril para os casais. Casais de pessoas e de animais, de homem e mulher, de mulher com mulher, de golfinhos e de pinguins. Uma...

Philip Roth no cinema

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cena de  Goodbye, Columbus , de Larry Peerce (1969) A morte do grande escritor estadunidense Philip Roth nos leva a revisitar uma grande quantidade de materiais, entre eles os audiovisuais, em torno de sua obra. Incluindo adaptações de seus romances para o cinema – mesmo que estas em grande parte não correspondam aos interesses de figurar em listas de bons filmes –, documentários e entrevistas reveladoras. Esta lista recolhe algumas dessas produções sobre e em torno de um dos maiores escritores do século XX. Dois documentários Philip Roth Unleashed , de Sarah Aspinall (2014) A BBC britânica é um dos melhores exemplos de que o investimento público em cultura pode render substanciosos frutos. Este documentário da série “Imagine”, dividido em duas partes e transmitido em 2014 confirma isso, embora o título deixe um pouco a desejar; o “desacorrentado” é que soa mal, como se o escritor fosse um preso censurado a quem fosse necessário dar “rédea solta” para falar com...