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Contra o ensimesmamento: Montaigne e a escrita da leitura

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Por Guilherme Mazzafera Salvador Dalí, ilustração para Ensaios , de Montaigne A palavra é metade de quem fala, metade de quem a escuta. Este deve se preparar para recebê-la, segundo o movimento que ela faz. Montaigne, “Sobre a experiência” Meu encontro com Montaigne se deu em circunstâncias precisas. A seleta d’ Os ensaios acumulava pó na estante há mil dias, comprada unicamente pelo encanto causado pela leitura, na faculdade, do ensaio sobre “Os canibais”. Livros comprados enfrentam sinas diversas: alguns são lidos antes de encontrar alojamento; outros, maturam-se por anos de espera e resignação. Ao saber da morte de meu avô, da iminência da viagem e dos dias difíceis que se seguiriam, coloquei-o na mochila e parti rumo a Minas Gerais. Sua leitura incutiu-me um sabor pessoal de descoberta.    Momentos profundos de perda instilam uma necessidade estranha de tudo repensar, em uma tênue linha contemplativa que avoeja da experiência íntima, individual da ...

Madame Bovary: erotismo e sensualidade

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Por Nesfran Antonio González Suárez "Nude on coastal rocks", Warren B Davis Madame Bovary é considerado por uma unanimidade de vozes o romance mais refinado no âmbito literário. É um manual de indução, um curso intensivo do gênero escrito de meados do século XIX e cuja vigência não se vê ameaçada com transcorrer dos anos. Mario Vargas Llosa faz alusão em seu estudo A orgia perpétua a um ponto principal no qual coloca Flaubert; para o escritor peruano, o francês é o primeiro romancista moderno, seguindo a opinião de Ernst Robert Curtius no ensaio Reencontro com Balzac : “Balzac sente um ardente interesse pela vida e nos contagia com seu fogo; Flaubert, com sua náusea”. É por causa de Madame Bovary que Gustave Flaubert (Ruan, 1821; Croisset, 1880) enfrenta em 1857 um processo judicial por ofender a moral e bons costumes; depois de sua absolvição o romance é publicado e obtém enorme êxito. A obra narra a experiência de Emma Rouault, uma jovem ...

Lydia, de Pedro Belo Clara

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Por Maria Vaz   Lydia encontra as suas reminiscências mais profundas no poema “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”, de Ricardo Reis. Neste heterónimo de Fernando Pessoa encontra parte do seu espírito filosófico.  Contudo, do supra mencionado poema herda apenas a imperatividade em enlaçar as mãos, presente na primeira estrofe. Nas palavras do autor, pelo início da obra, podemos ler que “a noite morre aqui”. Nesse sentido, toda esta obra é construída pela luz que traz a esperança, como a inevitabilidade de um sol que ascende todas as manhãs. A consciência da transitoriedade da vida está sempre presente: tudo é efémero e tem o seu tempo; todo o zénite solar fora sonhado na noite, qual Inverno da alma que dá lugar ao calor. Aos dias sucede a noite, às estações quentes segue-se o frio; os meses correm com uma gradação natural. Também o encanto e o calor das paixões cede pela satisfação do desejo. Destarte, do espírito epicurista também se vislumbra...

Boletim Letras 360º #295

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Está disponível a edição do Boletim Letras 360º desta semana. Aproveitamos a ocasião para lembrá-los que as inscrições para a promoção que sorteia uma edição de J.R.R. Tolkien: uma biografia , de Humphrey Carpenter continuam a valer até o dia 22 de outubro. Mais detalhes, aqui . Uma edição reunirá todos os contos de Lygia Fagundes Telles. Mais detalhes ao longo deste Boletim. Segunda-feira, 08/10 >>> Brasil: Uma antologia que reúne a prosa curta de Fernando Pessoa Pela primeira vez no Brasil é publicada uma antologia dedicada apenas às narrativas curtas de Fernando Pessoa. O aclamado poeta de tantas faces mostra aqui que sua excelência não se resume apenas aos versos. O banqueiro anarquista e outros contos escolhidos  traz 24 textos, 21 de sua autoria, o primeiro deles escrito originalmente em inglês, e três traduções. Nesta obra o leitor vai encontrar vários inéditos, ao menos entre nós, além de uma apresentação aguda e detalhada do pesquis...

O “Jogo do Senhor e do Servo”, de Paulo Leminski, na visão de Serguei Eisenstein

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Por Wagner Silva Gomes  Paulo Leminski (reprodução) para um artigo sobre o Zen (1977) No “Jogo do Senhor e do Servo”, poema criado por Paulo Leminski, o olhar do senhor sobre o servo é a própria autonomia, sua margem de emancipação, que o senhor vai adquirindo quando se vê humildemente como servo, aprendiz, em busca do êxtase da apreensão do conhecimento ou da sabedoria contida na relação com o outro; ao viver e entender o estado de ser relativo, vai então dominando a perda do absoluto até tornar-se o próprio estado de ser senhor, feito de autonomia e emancipação, numa dinâmica infinita da liberdade e seus pequenos pontos, suas pequenas percepções dos lugares, os pequenos olhares fundantes. Nessa história de um mestre zen do poeta, o budista é um engenheiro das almas que domina a engenharia ocular como servo e senhor. Como Eisenstein que, estudante de engenharia e aluno de Levkuleshov, professor da Escola de Filme de Moscou (VGIK), ao ver no experimento do mestr...

As crônicas de Clarice Lispector

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Por Pedro Fernandes Boa parte das frases que circulam na internet atribuídas a Clarice Lispector é produto de um gênio capcioso que sem qualquer valor pela memória de quem quer que seja dá-se ao trabalho de falseamento dos dizeres. Na outra ponta repousam os que cegamente acreditam no falso e reproduzem ad infinitum a barbárie. Fora isso, a outra parte dessas frases são provenientes dos textos que a escritora publicou em jornais – ainda que tais excertos agora repousem entre as linhas de algum dos seus contos ou romances. Se desde a aparição do mundo virtual Clarice Lispector tem sido vilipendiada pelos detratores, antes foi ela própria vítima de si mesma. A sua obra sempre foi um extenso canteiro e esteve, enquanto viveu, aberto à experimentação. E pela contínua atividade de refazimento dos textos terá introduzido modificações ao ponto de um texto original passar a ser outro, tornando o anterior, por vezes, falso texto, ou a escrita de outra que não Clarice. O t...