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O projeto é escrever. Um perfil de Mario Levrero

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Por Mauro Libertella A romancista uruguaia Fernanda Trías o definiu assim: “O escritor de culto, o fanático dos gêneros menores, o ermitão, o mestre de tantos aspirantes a escritor, o raro, o fóbico, o leitor generoso, a figura mítica, o fenômeno literário”. Era tudo isso e um pouco mais. Também foi uma personagem difícil de se fotografar; quase não viajou, saía pouco e sua biografia não está marcada por grandes aventuras. Foi apenas um homem que escreveu cerca de vinte livros e quem a literatura latino-americana do século XXI reconhece como um mestre, como alguém que mostrou o caminho para as gerações seguintes. Mas, quem foi Mario Levrero? O registro de nascimento indica que nasceu em Montevidéu no dia 23 de janeiro de 1940, e que foi registrado com o nome de Jorge Mario Varlotta Levrero. Sua família e amigos o conheceram sempre como Jorge Varlotta. Hoje ainda o chamam assim: Jorge. Seu pai, o sr. Mario Julio Varlotta, trabalhava nas lojas Lond...

Boletim Letras 360º #303

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Nesta semana iniciamos nossa campanha de fim de ano em nosso Instagram ; em 2018, há um sabor a mais por sermos parte por adesão da campanha nacional #DêLivrosDePresente. Mas, sem deixar de dizer que, muito antes disso, sempre foi nosso costume no Facebook tal incentivo e desde há quatro anos, no Instagram dedicamos os dias que antecedem as celebrações de fim de ano para apresentar dicas de livros para presente. E, por falar em livro de presente, restam só dois dias para o sorteio de uma caixa contendo o Último caderno de Lanzarote , o diário inédito de José Saramago que foi publicado em outubro deste ano em Portugal e que chega ao Brasil agora em dezembro, e o Um país levantado em alegria , livro do jornalista Ricardo Viel que recompõe os bastidores do Prêmio Nobel ao escritor português no ano quando se passam duas décadas desse acontecimento. É no nosso Facebook . Recados passados, vamos às notícias que copiamos por lá nesta semana. Julio Cortázar. Em 2019, a Argentina cel...

O desabrochar do primeiro homem

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Por Rafael Kafka A leitura de O estrangeiro  sugere que Albert Camus era alguém de mente adstringente, seca. Fria. Ao menos, para o Rafael que o leu há mais de dez anos. Mesmo na época estando em profundo amor pelo existencialismo, fiquei com tal imagem em minha mente diante de um escritor que, de forma clara, mostrava como nossa sociedade é baseada em sentimentos de afeição construída e impostas socialmente. Pois mais do que o crime bárbaro cometido por Mersault, que hoje começa a ganhar conotações racistas – debate válido dentro da obra de Camus que discute a relação entre colonizador e colonizado de forma pungente –, o julgamento do protagonista do romance mais célebre do escritor franco-argelino tem como fatores intensificadores o fato de ele não chorar no enterro da própria mãe. Essa falta de sensibilidade coloca Mersault como um monstro e mesmo os leitores mais críticos e desprendidos de tais convenções sociais acabam estranhando um pouco sua postura. O que ajuda ...

Algumas notas sobre “Poemas”, de Pier Paolo Pasolini

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Por Pedro Fernandes No Brasil, Pier Paolo Pasolini é uma figura, ao mesmo tempo, conhecida e desconhecida. Apesar de autor de um cinema integralmente situado fora dos chamados circuitos comerciais, é pouco provável que alguém não tenha deixado de ao menos ouvir falar em títulos como Salò ou os 120 dias de Sodoma , talvez o seu filme mais conhecido. Se estreitarmos ainda mais o público, é possível lembrar outros títulos, quais Medeia , Teorema ou Os contos de Canterbury . Desses títulos, o leitor deste texto que nunca tenha assistido nenhum deles, não deixará de perceber a estreita relação que o cinema do italiano mantém com o universo literário. E isso não é em nada gratuito. Romancista que se preocupou em construir uma obra interessada em revelar a periferia proletária da Itália de seu tempo – país com o qual desenvolveu intenso, e nem sempre cordial, (para dizer nunca) diálogo – ele próprio considerava-se acima de tudo um poeta. E não faltará quem também assim o rec...

Rodolfo Walsh. A oralidade, um estilo literário

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Por Jorge Carrión Rodolfo Walsh e sua última companheira, Lilia Ferreyra Gabriel García Márquez não havia completado ainda os trinta anos quando publicou em folhetim no diário colombiano El Espectador a história em primeira pessoa sobre um improvável sobrevivente. Não assinou com seu nome próprio. Era 1955. Até 1970 não publicou essa história em forma de livro com seu nome na capa: Relato de um náufrago . Rodolfo Walsh acabava de completar os trinta anos quando publicou também em folhetim, no jornal argentino Revolución Nacional e depois em Mayoría , a história dos sete sobreviventes de um fuzilamento. Também não assinou com seu nome próprio. Era 1957. E embora Operação massacre , já com o nome do seu autor, tenha sido publicado em várias edições durante os anos 1960, a versão definitiva só foi publicada na década seguinte. Já então a agência de notícias Prensa Latina tinha mais de uma década de vida. García Márquez e Walsh se conheceram em Cuba durante ...

“Diversidade ordenada”: A imagem descartada: para compreender a visão medieval de mundo, de C. S. Lewis

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Por Guilherme Mazzafera Gestada por um espírito móvil e eclético, a obra de Clive Staples Lewis desafia categorizações rentes, espraiando-se de uma crítica literária de vasta amplitude – mas de recorte preciso, como no impressionante Alegoria do amor – à fluidez persuasiva do teólogo popular de obras seminais como Cartas de um diabo a seu aprendiz e Os quatro amores . Minha aproximação à sua obra é ainda recente, conhecendo de alguns anos apenas os sete volumes de Nárnia e o já referido Cartas . Entre a leitura mais ou menos ritmada dos livros teológicos, optei por imergir em seus escritos de crítica literária, começando por um aparentemente mais didático e instigante para compreender não apenas a própria concepção de Lewis, mas também a de alguns de seus amigos escritores como J.R.R. Tolkien, Owen Barfield e Charles Williams, o núcleo básico dos Inklings 1 , no que se refere ao interesse pela cultura do medievo. Trata-se de A imagem descartada: para compreender a vis...