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Olga Tokarczuk, a escritora questionadora do establishment polonês

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Por Tomasz Pindel O Prêmio Nobel de Literatura para Olga Tokarczuk é, do ponto de vista polonês, uma surpresa, mas – o paradoxo vale a pena – uma surpresa esperada. Na Polônia, tínhamos consciência que ela não é apenas uma autora amplamente lida, apreciada e amada por muitos leitores, mas também que ela é simplesmente uma grande escritora com uma presença crescente no mundo. Tokarczuk (1962) pertence à geração de escritores que apareceram nos anos 90 do século passado, e não é apenas um detalhe biográfico. Deve-se ter em mente que, em 1989, na Polônia, houve uma grande mudança no sistema político: o país deixa a era do “real socialismo real” e a dependência da União Soviética, inicia-se na democracia, no capitalismo e a cultura vive uma reviravolta enorme. O antigo establishment literário cai no esquecimento, mas os novos autores quase não interessam a ninguém. O público leitor compra maciçamente e devora literatura popular anglo-saxônica, todos esses thrillers...

Boletim Letras 360º #347

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Como poderão acompanhar na leitura desta edição do Boletim Letras 360º, esta foi uma semana extremamente agitada. Alguém poderia dizer que o simples anúncio num só dia de dois galardoados com o Prêmio Nobel de Literatura já seria o diferente  e atípico , mas não foi apenas isso o que se passou; deem uma olhada e poderão construir suas próprias conclusões. Chico Buarque publica novo romance, o primeiro depois do Prêmio Camões.    Segunda-feira, 7 de outubro Obra-prima do jornalismo literário ganha edição no Brasil W. L. Tochman, um dos mais respeitados repórteres poloneses, nos conduz pelas cicatrizes de um país inteiro, pelos corpos, pela terra, para nos contar sobre o genocídio ruandês de 1994 e suas consequências. O que acontece com as vítimas, com os culpados e conosco que fomos testemunhas? Com um estilo que prende o leitor à página, Tochman consegue dar voz aos sobreviventes, aos carnífices e até mesmo aos lugares, semeando dúvidas e questioname...

Rima simples por não ser centro, ser periferia

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Por Wagner Silva Gomes Marcelo Peixoto, conhecido como Marcelo D2, integrante da banda Planet Hemp, tornou-se um formador de opinião potente. Usando sua voz para além do rap, no Twitter suas críticas às atrocidades cometidas pelo governo vigente ficaram conhecidas, tendo o jornal Le Monde Diplomatique o procurado para o entrevistar sobre a sua formação de opinião midiática. Neste ano de 2019 o rapper lançou seu último álbum intitulado Amar é para os fortes, e com ele enveredou para o audiovisual como diretor do filme homônimo. Se parar para pensar as rimas do Marcelo D2 são das mais significativas em toda a música brasileira. Nelas já era possível ver sua inclinação para o audiovisual, como na música “Contexto”, do Planet Hemp: “Toca o seu terror Alfred Hitchcock / evolução do rap, evolução do rock”. Além de mostrar o gosto pelo audiovisual a referência ao diretor de Psicose  colocado como o que toca o terror, ou seja, que dá apenas o tom dos males sociais que estã...

O espírito dos meus pais continua a subir na chuva, de Patricio Pron

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Por Pedro Fernandes “Enquanto eu tentava deixar para trás as fotografias que tinha acabado de ver, compreendi pela primeira vez que todos nós, filhos dos jovens da década de 1970, teríamos que desvendar o passado de nossos pais como se fôssemos detetives, e que nossas descobertas seriam parecidas demais com um romance policial que preferiríamos nunca ter comprado, mas também percebi que não havia forma de contar a história deles à maneira do gênero policial ou, para ser mais preciso, que contá-la dessa maneira seria trair suas intenções e suas lutas, já que narrar a história deles como se fosse uma história de detetive apenas contribuiria para ratificar a existência de um sistema de gêneros, ou seja, de uma convenção, e que isso seria trair seus esforços, que tentaram desafiar essas convenções, tanto as convenções sociais como seus pálidos reflexos na literatura.” Essa reflexão do narrador de Patricio Pron é importantíssima para a compreensão de O espírito dos meus p...

Amor, casais e casamentos em William Shakespeare (3)

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Por María Méndez Peña William Shakespeare com Anne Hathaway e os filhos. Ilustração alemã do século XIX. Casamento de Anne e William Deixamos para o fim a leitura sobre o casal e o casamento formado por Anne e William. Presumivelmente, a decisão de Shakespeare de viver a maior parte de seus anos longe da companheira ajuda a ampliar o contexto de certas questões e detectar outros dados sobre sua vida e sua obra: talvez ele não desejasse se fazer conhecer, nem procurou ser totalmente compreendido; talvez, olhando para trás, percebeu que seu casamento era um erro desastroso quando tinha apenas dezoito anos e que também pagava pelas consequências, sendo escritor e marido, e assim escreveu frases como: “casar-se por obrigação arrasta para o inferno”; “casamento apressado, raramente floresce”. Outra conjectura: talvez tenha dito a si mesmo que seu casamento com Anne estava fadado ao fracasso, parecendo um poço profundo de contínuas amarguras. Segundo Joyce, Shak...