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A superfície de Hemingway (III) – Adeus, Hemingway

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Por João Arthur Macieira Ernest Hemingway e Fidel Castro, Cuba, 1960. Foto: Salas As formas pelas quais uma cultura lê sua literatura por vezes depende mais do contexto histórico do que das qualidades do próprio objeto literário. Além disso, esse mesmo contexto é composto por diversas perspectivas críticas, muitas vezes conflitantes e, para a crítica e a historiografia literária, pode ser mais interessante investigar essa diversidade do que se limitar à análise intrínseca da obra, ainda que essa seja indispensável.  Nesse ensaio, vamos comentar duas imagens distintas do mesmo Ernest Hemingway, ainda que nenhuma delas tenha se debruçado sobre sua produção literária para justificar-se. Trata-se aqui do filme de Tomás Gutierrez Aléa, Memórias do subdesenvolvimento (1968) e a autobiografia romanceada de Guillermo Cabrera Infante, Corpos divinos (2016). Essas obras apresentam perspectivas diferentes, e os sentidos que empregam à recepção (ou, no caso, a despedida) de Hemingway sejam p...

“A mobilidade infinita”: um comentário sobre o gênero trágico no Fausto, de Goethe

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Por Felipe de Moraes Fausto e Mephisto no calabouço (litogravura colorida). Joseph Fay, 1846. I PRÓLOGO NO TEATRO   “So schreitet in dem engen Bretterhaus Den ganzen Kreis der Schöpfung aus, Und wandelt mit bedächtger Schnelle Vom Himmel durch die Welt zur Hölle!”   Faust — J. W. von Goethe     Em carta datada de cinco de maio de 1797, Schiller escreve a Goethe dizendo da revisitação que fez da Poética de Aristóteles e das considerações acerca do gênero trágico realizadas pelo filósofo grego, que a seu ver eram demasiadas normativas no que concerne à forma exterior que se deveria adotar para a transmissão do discurso trágico (GOETHE; SCHILLER, 2014, s.p.). Aristóteles surgia, então, para ambos, como o “juiz infernal” daqueles que cultivavam uma poética como estrutura dada pronta e acabavam por não refletir filosoficamente sobre as formas poéticas.   Um mês depois, em vinte e dois de junho, a obra embrionária de Goethe, o Fausto , apareceria como tema de discus...

Boletim Letras 360º #422

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    DO EDITOR   1. Saudações, caro leitor! O assunto terrível que tornamos público nesta sexta-feira, 19 de março de 2021, foi outro ataque disparado contra este blog. Desde há algum tempo os leitores sabem das reiteradas mensagens de ódio enviadas contra obras e autores. Desta vez, a ideia saiu da escrita para a ação de invadir, adulterar e deletar publicações.   2. O problema foi verificado. E desde há dois dias que o trabalho tem sido o de comparar textos com as versões salvas nos backups e restituir o que foi deturpado ou apagado. É um trabalho lento para duas mãos com um tempo muito exíguo. Mas, saiba, será contornada a situação.   3. Desde já, aproveito este espaço para, em nome do Letras , agradecer a todos que escreveram seu apoio e seus votos de força pelo trabalho aqui desenvolvido, em meio a um país integralmente dilacerado pela dor da morte, pelo imperativo do ódio gratuito e pela agonia da ignorância. Muito obrigado!   4. Abaixo, as notícias ap...

É o poder: BBB, indústria cultural e o sequestro da imaginação

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Por Leonardo Matos   “A literatura é o sonho acordado das civilizações. Portanto, assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura.” — Antonio Candido, “O direito à literatura” La Baker .   Loïs Mailou Jones Cada gesto de leitura parece vir acompanhado da possibilidade de ingressar em outro regime de cognoscibilidade. Abre-se diante de nossos olhos um mundo ao mesmo tempo diverso e semelhante ao mundo já conhecido. Alteram-se as combinações, embora os signos sejam parcialmente preservados — dado que no sonho todo igual se abre à diferença. De repente, finda a leitura. Lançamos sobre a realidade um olhar de surpresa ao reconhecermos a distância entre a vida desenhada pelo sonho e o cotidiano fixado na realidade. Acordar pressupõe então o reconhecimento do que a vida podia ser, mas não é. Assim, ao longo da leitura seríamos convidados a esboçar a partir de dentro que mundo pretendemos juntos d...

Senhores do orvalho, de Jacques Roumain

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Por Pedro Fernandes A utopia é o lugar ou estado ideal de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos. Uma vez vencida tantas passagens da história, esse sentido original, como tantos outros, pode se incluir no extenso rol das coisas que atravessam o que rotineiramente chamamos por crise ; e, os mais engajados no radical ceticismo do nosso tempo podem bem decretar que a utopia está morta. Ora, é admissível a crise, afinal, nenhuma variação se caracteriza sem ao menos atravessar um estágio semelhante, mas admitir o fim definitivo parece apenas repetir outra vez o interesse pela catástrofe total. Sim, falamos sobre a morte de Deus, da história, do socialismo, das ideologias, do capitalismo, e até, no caso específico do universo literário, a morte do autor, da poesia, do romance, da crítica literária e mesmo da própria literatura. E, curiosamente, tudo isso perdura.   É possível dizer que a transformação ― fator determinante a tudo que vive ― não deixou de atuar modificando f...