Postagens

“Nosferatu”, um século de vampiros e ocultismo

Imagem
Por Gregorio Belinchón Max Schreck como Nosferatu.    Friedrich Wilhelm Murnau viveu apenas 42 anos. Dos seus 21 filmes, sobreviveram 12. Numa época, a do salto do cinema silencioso para o cinema sonoro, em que reinavam prolíficos diretores e trabalhos industriais (aí estão os mais de 100 filmes de John Ford), Murnau filmou pouco, e um terço de sua filmografia se apagou ao longo do tempo. No entanto, ainda hoje ele é um dos cineastas mais importantes da história, o maior expoente do expressionismo, um criador cuja vida e carreira foram interrompidas por um acidente de carro. Mesmo seu melhor filme, Nosferatu (1922), um clássico que agora completa um século, esteve prestes a desaparecer quando os produtores perderam o processo de plágio contra a viúva de Bram Stoker, o escritor de Drácula , romance que inspirou e muito o filme de Murnau.   Apesar disso, um século depois, aí está a silhueta de Nosferatu, o morto-vivo, recortada no último lance de escada, aquelas unhas comp...

Tolstói ou Dostoiévski, de George Steiner: a crítica literária como dívida de amor

Imagem
Por Pablo Sol Mora George Steiner. Foto: Contacto Photo   A vocação de crítico é misteriosa. Ninguém, como gracejava François Truffaut a respeito da crítica cinematográfica, declara aos nove anos: “Papai, quero ser crítico.” O que nos move a escrever sobre o que lemos? Ou melhor, por que não tentar ser um criador ou ser, simplesmente, um leitor? Qual o sentido? Para que serve a crítica? Serve a crítica? As perguntas são inescapáveis para quem faz dela parte fundamental de sua atividade literária, sobretudo para quem ela representa sua principal ou única atividade.   As confusões e mal-entendidos em torno da crítica são variados e persistentes. Talvez o maior seja o de que a crítica se ocupa, fundamentalmente, de censurar, no sentido de indicar defeitos e erros, de desaprovar; que ela é ou precisa ser negativa. O crítico como o ressentido estraga-prazeres da literatura. É claro que a crítica deve apontar os aspectos fracos de uma obra quando de fato os encontra e argumentar a r...

“Los combatientes deseos”

Imagem
Por Felipe de Moraes Sor Juana y la Virreina. Ilustração: Felix d’Eon. A lírica amorosa de Sor Juana Inés de la Cruz ocupa uma parte considerável de sua produção poética e se destaca no mundo barroco da Nova Espanha pela variedade de formas e estilos através dos quais é expressada. A monja, como conhecedora e leitora voraz que era, retrabalhou essa vasta tradição erótica que vem desde a antiguidade clássica, perpassa todo o Renascimento italiano, nas composições do dolce stil nuovo , e deságua na Espanha da Contrarreforma, no século XVI, onde é recebida pelos cultistas barrocos, como Góngora e Quevedo, e ali ganha uma nova dimensão poética expressiva através do conceptismo e da retórica palaciana. O objetivo neste breve ensaio, portanto, é fazer uma leitura comparada entre o romance 19, “Puro amor, que ausente y sin deseos...”, e o soneto 179, “Que explica la más sublime calidade de amor” 1 , escritos por Sor Juana, de modo a ressaltar semelhanças e diferenças entre ambos, observando ...

Boletim Letras 360º #483

Imagem
DO EDITOR   1. A primeira temporada de sorteios com Kit de livros entre os apoiadores do Letras finda agora no próximo dia 29 de maio. A possibilidade de ajuda continuará aberta e os sorteios de livros continuarão sempre que possível.   2. Quem ainda se interessar pelo próximo sorteio, fica registrado o convite! O ganhador receberá três livros da literatura brasileira em curso publicados pela editora-parceira Companhia das Letras: o romance O avesso da pele , de Jeferson Tenório; o livro de contos Gótico nordestino , de Cristhiano Aguiar; e o romance Ossos secos escrito pelo coletivo formado por Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado.   3. Para se inscrever é simples. Envia R$25 através do PIX blogletras@yahoo.com.br ; finalizada a operação, envia neste mesmo endereço (nosso e-mail) o comprovante.   4. Outras formas de colaborar com o Letras estão disponíveis aqui . E, cabe não esquecer que na aquisição de qualquer um d...

Ano da fome, de Aki Ollikainen

Imagem
Por Sérgio Linard   A pandemia de Covid-19, que ainda não acabou, ceifou, só no Brasil, mais de seiscentas mil vidas. Além dos números, pessoas com histórias, famílias, amores, subjetividades. Pessoas que amaram e que foram amadas perderam suas vidas por diversas circunstâncias, muitas delas geradas pela inaptidão daqueles que em anos posteriores foram escolhidos como representantes da vontade do povo. Uma lástima.   Esta, como bem sabemos, não foi a primeira e nem terá sido, infelizmente, a última situação pandêmica vivida pelas sociedades humanas. Não me interessa aqui, neste texto, trazer à memória ou fazer um levantamento de todas elas; não é esta a intenção. Mas importa verdadeiramente lembrar que situações como essa que poderiam promover algum tipo de aprendizagem — ainda que pelo menos para melhor lidarmos com algo parecido — simplesmente não deixam nada além de dor como saldo. Olhamos para a história e vemos tudo se repetindo.   É neste contexto de tragédia, bas...